Edição 135

Em discussão

Conhecendo a criança/o adolescente com diagnóstico de TOD

Elto Koltz

No decorrer do seu desenvolvimento, muitas crianças e muitos adolescentes demonstram comportamentos que desafiam seus pais, cuidadores e educadores, com os quais passam uma boa parte de sua vida em um ambiente coletivo e de aprendizagem. Caracterizado pela raiva, pelo comportamento desafiador e pela agressividade, o transtorno de oposição desafiante (TOD), assim classificado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA) no Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-5), ou transtorno desafiador de oposição (TDO), dessa forma classificado pelo Código Internacional de Doenças (CID-10), é, muitas vezes, percebido e tratado com um olhar rigorosamente severo e punitivo, sem a percepção de que a criança ou o adolescente também podem estar sofrendo com sua falta de habilidade em lidar com as suas emoções.

Segundo os critérios de diagnóstico do DSM-5, o transtorno opositivo desafiador é classificado como “[…] um padrão de humor raivoso/irritável, de comportamento questionador/desafiante ou índole vingativa, com duração de pelo menos seis meses” (APA, 2014, p. 462). Os sintomas podem aparecer em casa, na escola ou com os colegas. Dos sintomas listados no Quadro 1, é preciso ao menos que quatro sejam exibidos durante a interação com pelo menos um indivíduo que não seja seu irmão, pois esses comportamentos são comuns entre irmãos.

 

Para o CID-10, na classificação F91.3, o transtorno desafiador de oposição é definido como um tipo de transtorno de conduta que é “[…] caracteristicamente visto em crianças abaixo da idade de 9 a 10 anos. É definido pela presença de comportamento marcadamente desafiador, desobediente e provocativo e pela ausência de atos antissociais ou agressivos mais graves, que violem a lei ou os direitos” (CID-10, p. 264) de outras pessoas. Esse comportamento é mais evidente em interações com adultos ou colegas conhecidos pela criança.

 

Fonte: CID-10, p. 264, 265.

Esse transtorno é um desafio para educadores que precisam aprender a lidar com os conflitos motivados por essas crianças ou esses adolescentes. Manter a calma, controlar o tom de voz e criar uma situação em que não haja perdedores e vencedores são uma alternativa, embora seja muito difícil para o educador, considerando a pressão no dia a dia em sala de aula e a grande motivação para o conflito que esses alunos demonstram ter.

Mesmo assim, em sala de aula, a exclusão não pode ser uma alternativa, pois, caso isso ocorra, poderá causar perdas significativas, para crianças e adolescentes, que serão levadas para a vida adulta. Segundo Daffi (2003), é preciso promover o senso de pertença, ou seja, criar, junto com a criança e o adolescente com TOD, a construção de regras, desenvolver dinâmicas em pequenos grupos com atividades que os valorizem e não os distanciem dos demais, destacando os seus aspectos positivos. Evitando, ao máximo, o afastamento, os resultados serão positivos.

É fundamental a ajuda de um psicólogo. Uma vez diagnosticado o TOD, com o acompanhamento terapêutico a criança pode compreender mais sobre si mesma e aprender a lidar com suas emoções. Muitas vezes, os pais acreditam que a criança só está passando por uma fase, confundem com birra e não dão a devida importância. Crianças que são diagnosticadas com TOD correm o risco de, eventualmente, desenvolver outros problemas, tais como transtorno de conduta, ansiedade e transtornos depressivos.

O TOD deve ser tratado não só na clínica. Os pais precisam ser orientados a observar o comportamento da criança, devem trabalhar em parceria com o psicólogo, mantendo-o informando sobre suas ações; sobre quando fica irritada; sobre quando os desafia; enfim, sobre como foram suas relações com eles, na escola e com seus colegas e professores. O sucesso do tratamento depende também de mudanças de abordagens dos pais, que precisam aprender a se expressar e agir de forma que o convívio familiar favoreça positivamente o tratamento.

Para finalizar, o que se pode concluir sobre o TOD é a importância da relação entre pais, educadores e psicólogos em fazer com que essas crianças e esses adolescentes aprendam a se relacionar com os seus colegas, professores e familiares de forma a se sentirem acolhidos, e não isolados em um universo que apenas os conduza à evolução do TOD para outros transtornos. É como se o caminho a ser seguido seja o contrário ao que a criança se propõe durante uma situação de conflito. Bater de frente não é solução. O melhor caminho é usar de estratégias e fazer a criança ou o adolescente se sentirem parte de um grupo, é despertar o senso de liderança, é ouvir o seu ponto de vista e fazer valer suas ideias, é valorizar a criatividade e a importância das regras e fazer com que compreendam as consequências de seus atos. Por fim, despertar o desejo de serem aceitos pelo grupo.


Elto Koltz é formado em Psicologia pela Faculdade Integrada do Recife/Estácio; atua, há 20 anos, como Diretor de Arte na produção de livros didáticos na Multi Marcas Editoriais e, há 12 anos, como psicólogo clínico, atendendo adolescentes e jovens adultos.

Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014. v. 5. ISBN: 978-85-8271-089-0.

CAPONI, S. N. Dispositivos de segurança, psiquiatria e prevenção da criminalidade: o TOD
e a noção de criança perigosa. Saúde e Sociedade. v. 27, n. 2, p. 298–310, abr. 2018.

DAFFI, Gianluca. TOD: transtorno de oposição desafiante: guia prático para professores do ensino fundamental e médio. Petrópolis: Vozes, 2023.

GREVET, E. H. et al. Transtorno de oposição e desafio e transtorno de conduta: os desfechos
no TDAH em adultos. Jornal Brasileiro de Psiquiatria. v. 56, p. 34–38, 2007.

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