Edição 141
Professor Construir
Educação 5.0
Rosangela Nieto de Albuquerque
Desafios de implantação na educação básica em tempos de evolução tecnológica
O século XXI tem sido desafiador nos diversos campos, e, no que tange à educação, os docentes relatam que os jovens não sentem o desejo de estudar e acham a escola desinteressante, quase sempre estão “plugados” (digitais) e não “conectados” aos conceitos em sala de aula. Todos sabemos que a educação é um dos pilares mais importantes para o desenvolvimento do País. Rousseau, no século XVIII, já anunciava a insuficiência da escola quando esta se destinava tão somente à transmissão de conceitos consagrados. Assim, a escola precisa acompanhar a evolução tecnológica e implantar a Educação 5.0. É notório que a Educação 5.0 ganhou força com abordagens inovadoras como as metodologias ativas e a cultura maker, a robótica, a programação e a abordagem investigativa como Steam (acrônimo das áreas do conhecimento de Ciências, Tecnologias, Engenharia, Artes e Matemática).
De modo geral, a Educação 5.0 surge como uma evolução dos paradigmas anteriores de educação:

Inspirada no conceito de Indústria 4.0 e com a evolução natural da Educação 4.0, a Educação 5.0 chega com a necessidade de integrar as tecnologias digitais como objeto de conhecimento e ferramenta de ensino, com a contribuição da inteligência artificial ao processo educacional, proporcionando uma aprendizagem mais personalizada, colaborativa e contextualizada.
Oliveira e Pimentel (2020, p. 147) salientam que “a escolha assertiva de Metodologias Emergentes e Tecnologias Educacionais na promoção da qualidade do ensino é uma pauta infinita”. Na fase 4.0 da web, a educação já passou por uma ruptura significativa, transformando o sistema arcaico de ensino em novas possibilidades; contudo, a fase 5.0, conceituada como uma nova versão, definitivamente não admite métodos tradicionais. A Educação 5.0 aborda uma visão horizontal muito além da utilização de ferramentas da tecnologia.
Cada vez mais discute-se a importância do conhecimento, que outrora acreditava-se que acontecia somente nas instituições de ensino, hoje não. Embora as instituições sejam fundamentais para a construção do conhecimento, ele pode ser construído também em ambientes informais, por meio do uso das tecnologias digitais (TDs), na interação com a máquina e entre outras possibilidades.
Os avanços tecnológicos causam certa incerteza, principalmente quando falamos de educação, mas é necessário desmistificá-los.
Segundo Moran (2007), o século XXI é o século da complexidade, da individualidade, das incertezas e contradições como parte da vida. Quando pensamos em construção de conhecimentos, é necessário refletir qual conhecimento é preciso construir. Para que servem esses conhecimentos? Onde serão usados na vida prática? E qual é a importância desse tipo de conhecimento na formação dos estudantes do século XXI?
Nesse contexto, amplo, significativo e relevante, situa-se a Educação 5.0, um paradigma em debate e construção, oriundo da Sociedade 5.0, que teve origem no Japão. Pensar a Educação 5.0 a partir dos pressupostos da Sociedade 5.0 é, certamente, construir expectativas de um sistema de ensino mais qualitativo, com avanços, e relacionado com as necessidades da sociedade atual.
Pensar em Educação 5.0 é relacioná-la aos estudos e às pesquisas sobre a Sociedade 5.0. No que tange a esse tipo de sociedade, os estudos enfatizam que ela coloca o ser humano no centro do processo e considera a tecnologia como ferramenta que está a serviço dela e em prol de tornar a vida mais sustentável, justa, democrática e equânime (Andrade, 2020).
A Educação 5.0 visa a humanização das tecnologias em um mundo em constantes mudanças, principalmente tecnológicas; é necessário discutirmos formas de levar essa proposta para dentro da sala de aula. Humanizar as tecnologias é, sem dúvida, um desafio para os docentes; articular as possibilidades que são oferecidas pelas escolas é também um aspecto significativo. É notória a importância da formação continuada aos docentes para que eles possam desenvolver os estudantes a partir do trabalho com as habilidades socioemocionais e, assim, ressignificar a forma de ensinar e aprender.
Sabemos que é uma discussão que divide opiniões, pois a Educação 5.0 é associada a visões neoliberais por abordar a importância de uma formação que esteja alinhada com as demandas do mundo do trabalho (Rahim, 2021) e que precisa ser discutida, pois de que trabalho estamos falando? O trabalho não faz parte da vida em sociedade? O trabalho não é essencial? E a demanda das profissões que estão surgindo? E as profissões que ainda vão surgir e ainda não existem? É fundamental que se discuta sobre esse aspecto.
Rousseau, no século XVIII, já anunciava a insuficiência da escola quando esta se destinava tão somente à transmissão de conceitos consagrados.
No processo de formação docente, é necessário ajustar as diversas teorias aplicadas nas escolas à teoria humanista, que olha o estudante com a lente das diversas dimensões, isto é, nos aspectos social e psicológico, responsáveis pelo desenvolvimento cognitivo. Para a implementação da Educação 5.0, é relevante entender também os novos modelos e as tendências das gerações Y e Z, que vivem pautadas nas tecnologias digitais, as chamadas nativas digitais.
A geração X, presente em sala de aula, cresceu num cenário totalmente analógico, e os denominados nativos digitais (gerações Y e Z) surgiram em um panorama disruptivo, caracterizado pela Era do Conhecimento, embebido de informação e pela utilização das tecnologias digitais.
A Inteligência Artificial (IA), os chamados algoritmos, são sistemas que podem auxiliar docentes e alunos num caminho da aprendizagem mais autônoma. É possível escolher técnicas, métodos e recursos, como estratégias e modalidades de aprendizagem; à medida que se identifiquem melhor, é possível autorregular o processo de construção do saber. No entanto, a prática em sala de aula é um desafio para o docente.
Desafios do docente da Educação 5.0 na prática e na sala de aula
O desafio é complexo quando se trabalha com a Educação 5.0 com diferentes atividades desplugadas e plugadas, articuladas aos objetivos pedagógicos para alavancar o processo de aprendizagem e sem deixar de lado as habilidades e competências socioemocionais. Torna-se cada vez mais necessária a mudança da práxis pedagógica. Os desafios são grandes. Abaixo, seguem algumas sugestões:
• Metodologias ativas e Aprendizagem ativa – Promova atividades colaborativas práticas para que os estudantes possam aplicar o conhecimento adquirido de forma significativa. Incentive a resolução de problemas reais e debates em grupo, promova projetos interdisciplinares estimulando sempre a participação ativa dos estudantes.
• Aprendizagem baseada em projetos – É importante que os professores busquem estratégias para promover o aprendizado prático e experiencial por meio de projetos, isto é, colocar a mão na massa. Os projetos podem abordar problemas variáveis, do mundo, da comunidade local, etc., e irão incentivar os alunos a aplicarem o conhecimento em contextos práticos. É importante desenvolver nos estudantes a necessidade de aprender a lidar com os recursos tecnológicos de forma crítica e consciente e como uma aliada.
• Ensino híbrido – É o tipo de metodologia que permuta o aprendizado on-line com o presencial, utilizando as ferramentas tecnológicas e as vantagens de ambas as modalidades. Os alunos participam de atividades como salas on-line com documentos compartilhados, discussões em fóruns e outros.
• Integração de tecnologias – Utilize recursos tecnológicos, como computadores, tablets e aplicativos educacionais, promovendo a interação dos estudantes com o conteúdo. Certamente, eles aprenderão a pesquisar cientificamente e terão acesso a informações atualizadas, desenvolvendo as habilidades digitais.
• Personalização do ensino e aula invertida – Utilize estratégias diferenciadas, como rotação por estações, aulas invertidas, tutoria individualizada para um atendimento personalizado e garantia de que todos os estudantes sejam atendidos de forma adequada. Ajuste a ensinagem às necessidades individuais e coletivas dos estudantes, valorizando os interesses e as modalidades de aprendizagem e respeitando o ritmo de cada estudante. Utilizar tecnologias educacionais para adaptar o conteúdo ao ritmo de ensino articulado às necessidades de cada estudante, com ferramentas integrativas, na Educação 5.0, pode promover uma abordagem integrada, adaptativa e inclusiva.
• Cultura de inclusão e respeito – A Educação 5.0 valoriza um ambiente inclusivo e respeitoso em sala de aula, onde a diversidade dos estudantes oportuniza que todos se sintam inclusos e representados.
• Formação contínua dos professores – Incentive a participação dos docentes em workshops, cursos, congressos, grupos de estudo para desenvolvimento de estratégias pedagógicas, preparação para implementar a Educação 5.0 e, certamente, atualização em relação às novas tecnologias e metodologias de ensino.
• Avaliação formativa – A avaliação precisa promover estratégias que permitam acompanhar o progresso dos estudantes de forma contínua e formativa. Os estudantes precisam entender onde se encontram no processo de aprendizagem e ter a oportunidade de enxergar seus erros e acertos com mais clareza. Ter seus projetos avaliados, utilizar portfólios e ser colocado como protagonista da sua construção. Portanto, utilize estratégias de avaliação formativa, como questionários online, discussões em sala de aula e revisões em pares. Nesse contexto, é importante que o aluno receba um feedback contínuo sobre seu desempenho.
• Desenvolvimento de habilidades socioemocionais – Promova atividades que estimulem o desenvolvimento das habilidades socioemocionais — a exemplo de trabalho em equipe, que irá estimular uma série de comportamentos, como o compartilhamento de ideias, a resolução de problemas coletivamente, a prática de habilidades de empatia, a resolução de conflitos, a autorregulação emocional e a tomada de decisões éticas — e atividades de autoconhecimento e de resiliência.
• Gamificação – A ludicidade, como a gamificação, envolve elementos de jogos no processo de ensinagem e aprendizagem; assim, oportuniza a motivação e o engajamento dos alunos. Os desafios, as competições e o sistema de recompensas envolvem o estudante e tornam o aprendizado mais divertido.
• Educação além dos muros da escola – Construa oportunidades de aprendizagem fora da sala de aula, como projetos comunitários e visitas a museus, empresas e instituições culturais.
Os desafios são significativos, e para superá-los para a implementação da Educação 5.0, fazem-se necessárias uma construção entre todos os envolvidos na comunidade educativa (gestores, docentes, discentes) e uma formação docente contínua, com práticas pedagógicas inovadoras, políticas públicas e investimentos direcionados à Educação Básica. Dessa forma, Silva, Bandeira e Menezes (2024) enfatizam que, na formação dos estudantes, deve-se priorizar valores humanos, como o respeito e a dignidade, criando oportunidades para o desenvolvimento da individualidade sem comprometer os acordos coletivos necessários para a vida em sociedade.
Os desafios para a implementação da Educação 5.0 tangem as possibilidades e envolvem tanto a formação docente quanto o suporte institucional. O uso adequado das tecnologias digitais perpassa também pela conscientização dos estudantes; portanto, depende de um esforço conjunto de estudantes, docentes e mantenedoras, para além de investimentos que favoreçam as práticas que promovam o desenvolvimento de competências para o século XXI.
Considerações finais
Os desafios da implementação da Educação 5.0 na Educação Básica transitam pela formação continuada docente e pela conscientização dos estudantes, que vão além das habilidades e do domínio da tecnologia. Na verdade, necessita-se desenvolver o pensamento crítico e a criatividade e, claro, ter o investimento das mantenedoras. A estrutura tecnológica, a formação continuada para os docentes, a valorização das características socioemocionais dos estudantes e a necessidade de mudança cultural são fundamentais para a Educação 5.0. É relevante enfatizar que a educação digital contribuirá para fortalecer a inclusão e a adaptação dos estudantes a um mundo em transformação contínua.
Segundo os especialistas da área, a Educação 5.0 é uma abordagem promissora para enfrentar os desafios e as oportunidades da educação no mundo contemporâneo. Essa perspectiva tem levado muitas instituições educacionais, educadores e pesquisadores a adotarem os princípios da Educação 5.0 em suas práticas de ensino. Certamente, acredita-se nessa abordagem como uma maneira de melhorar a qualidade da educação, com uma prática mais humanizada, personalizada e centrada no aluno.
REFERÊNCIAS
ANDRADE, Elias Sebastião. Desenvolvimento sustentável e sociedade 5.0: rumo à felicidade e ao bem-estar. Revista Humanitaris-B3, v. 2, n. 2, p. p. 6-25, 2020. Disponível em: SciELO Preprints – Este documento é um preprint e sua situação atual está disponível em: https://doi.org/10.1590/SciELOPreprints.10807.
https://www.icepsc.com.br/ojs/index.php/revistahumanitaris/article/view/420. Acesso em: 21 dez. 2024.
MORAN, José Manuel. A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá. 2. ed. Campinas: Papirus, 2007.
OLIVEIRA, Josefa Kelly Cavalcante de; PIMENTEL, Fernando Silvio Cavalcante. Epistemologias da gamificação na educação: teorias de aprendizagem em evidência. Revista da Faeeba: Educação e Contemporaneidade, v. 29, n. 57, 2020.
RAHIM, Mohammad Naim. Post-pandemic of Covid-19 and the need for transforming education 5.0 in Afghanistan higher education. Utamax: Journal of Ultimate Research and Trends in Education, v. 3, n. 1, p. 29-39, 31 mar. 2021. https://doi.org/10.31849/utamax.v3i1.6166 Acesso em: 21 dez. 2024.
SILVA, Cristóvão Teixeira Rodrigues; BANDEIRA, João Adolfo Ribeiro; MENEZES, Antônio Basílio Novaes Thomaz. Educação para uma cultura de direitos humanos: compartilhamento intersubjetivo de valores. Educação em Revista, v. 40, n. 40, 2024. http://dx.doi.org/10.1590/0102- 4698-35867.
Rosangela Nieto de Albuquerque é ph.D. em Educação (Universidad Tres de Febrero), pós-doutoranda em Psicologia, Doutora em Psicologia Social, Mestre em Ciências da Linguagem, psicanalista clínica, neuropsicopedagoga, neuropsicóloga clínica, pedagoga, psicopedagoga clínica e institucional, professora universitária de cursos de graduação e pós-graduação, licenciada em Letras (Português/Espanhol), autora de projetos em Educação e da implantação de uma clínica-escola de Psicopedagogia Clínica como projeto social e autora e organizadora de treze livros nas áreas da Educação e da Psicologia.
E-mail: rosangela.nieto@gmail.com
