Edição 141
Construindo mais conhecimento
Memória, aprendizagem e neuroplasticidade
Renata Aguilar
Antigamente, acreditava-se que apenas aprendíamos na infância e em parte da idade adulta; hoje, após muitos estudos, lemos e ouvimos muito o termo plasticidade cerebral, conceito no qual constata-se que aprendemos durante toda a nossa existência.
Plasticidade é a capacidade do organismo em se adaptar às mudanças ambientais externas e internas, graças à ação sinérgica de diferentes órgãos, coordenados pelo sistema nervoso central (SNC).
Paul Bach-y-Rita, neurocientista americano, foi um dos primeiros a estudar seriamente a ideia de neuroplasticidade e introduzir a substituição sensorial como uma ferramenta para tratar pacientes que sofrem de distúrbios neurológicos. Ele descobriu que o sistema nervoso pode se adaptar através de várias experiências.
Esta descoberta retrata a plasticidade cerebral no sentido de que ele pode readaptar-se a uma lesão, buscando outros mecanismos para aprender.
Diante disso, podemos afirmar, então, que todo cérebro aprende.

Para fortalecer os músculos, pessoas se exercitam e procuram realizar diferentes exercícios físicos. Quem pratica exercícios e, depois, fica alguns meses sem realizar determinados movimentos já percebe uma diferença negativa em massa, flexibilidade ou coordenação motora.
Com o cérebro, acontece a mesma coisa; se não o utilizarmos, ele atrofiará. Quando o indivíduo aprende algo novo, novas conexões neurais são estimuladas, porém, depois de um tempo, este caminho é reduzido, e o cérebro busca encontrar estratégias mais simples para dar conta dessa nova aprendizagem.
Segundo Doidge (2007),
É importante compreender que o sistema nervoso é dividido em duas partes: a primeira é o sistema nervoso central (o cérebro e a medula espinhal), centro de comando e controle do sistema. Pensava-se que não tinha plasticidade. A segunda parte é o sistema nervoso periférico, que leva mensagens dos receptores sensoriais à medula espinhal e ao cérebro e transmite mensagens do cérebro e da medula aos músculos e glândulas.
Muitos estudos foram feitos para ver o quanto o cérebro se alterava diante de estímulos externos, surgindo o termo plasticidade, que significava que o cérebro poderia ser modificado pela experiência, poderia ser moldado como algo plástico.
Aprender é modificar e precisa ser prazeroso. Para aprender, é necessário manter a atenção; fator cada vez mais cobrado pelos professores. Dentro de uma sala de aula, quantas vezes ouvimos a seguinte frase: “Esta é desatenta, distrai-se com facilidade”?
Atualmente, as palavras desatenção e distração tornam-se cada vez mais comuns entre especialistas e membros da escola. O que observamos é que a distração em sala de aula, muitas vezes, é confundida com transtornos, e entra em cena a medicalização da criança.
Temos que ter consciência de que os avanços tecnológicos contribuíram para que as crianças apresentassem mais dificuldades em determinadas áreas cerebrais e facilidades em outras: elas são excelentes nos jogos eletrônicos, porém não conseguem realizar cálculos simples.
O que está acontecendo com uma geração repleta de informações na palma da mão, mas que não se interessa pelas aulas?
Diante de todos esses pontos neurológicos, sociais e emocionais, a memória na escola é muito exigida e cobrada, como já mencionado anteriormente.
O cérebro se modifica à medida que aprende. O sistema nervoso central se modifica com a chegada de novas informações, ocorrendo uma plasticidade, que é a forma pela qual se aprende. O cérebro é capaz de responder à estimulação do meio ambiente e produzir novos neurônios.
“O cérebro se modifica à medida que aprende.
O sistema nervoso central se modifica com a chegada de novas informações, ocorrendo uma plasticidade, que é a forma pela qual se aprende.”

A memória é essencial para a existência humana, para tomar decisões melhores no futuro, ou seja, todo nosso pensamento e planejamento são ditados pela memória.
A memória é um sistema muito complexo, e nenhum computador mais veloz e moderno é capaz de realizar todas essas conexões.
Doidge (2007) aborda que todos nós temos algumas funções cerebrais mais fracas, e as técnicas baseadas na neuroplasticidade têm um grande potencial para nos ajudar.
Os exercícios mentais têm importantes implicações na educação. Muitas crianças já se beneficiaram de uma avaliação neuropsicológica para identificar as funções enfraquecidas e fortalecer habilidades; na maioria das vezes, a autoestima acaba sendo também ponto positivo.
Existem inúmeras pessoas que possuem uma capacidade incrível para memorizar informações, dados ou fatos. E na escola? Como podemos estimular a memória de nossos alunos, principalmente para uma aprendizagem significativa? Não menciono aquela memória de decorar fatos ou conceitos para a avaliação.
Recordo de aulas teóricas em que o professor entregava um questionário de, aproximadamente, trinta a cinquenta questões, e, destas, apenas dez seriam cobradas em uma avaliação. Então, bastava decorar todas para garantir a nota máxima.
Será que o bom aluno é aquele que escreve numa avaliação exatamente o que está escrito no livro didático? Será que decorar é memorizar?
Aprender não é só lembrar; é preciso ter raciocínio, uma boa linguagem e, acreditem, bom humor. Aspectos fisiológicos também são essenciais para uma boa memória e, consequentemente, uma aprendizagem efetiva. Fome, ansiedade, necessidades fisiológicas e alterações de humor afetam a aprendizagem.
Merzenich, citado na obra de Doidge (2007), alega que
[…] quando a aprendizagem ocorre de uma forma coerente com as leis que regem a plasticidade cerebral, a ‘maquinaria’ mental do cérebro pode ser aprimorada, e assim aprendemos e percebemos com maior precisão, velocidade e retenção.
Ele retrata que podemos mudar a estrutura do cérebro e aumentar sua capacidade de adaptação. Estamos falando, então, que o cérebro é capaz de se modificar, ele é “plástico”.
Experimentos mostram que o cérebro é capaz de se modificar quando há motivação para aprender.
Assim, a escola é um dos locais em que mais se exige do aluno uma aprendizagem e mais se exige do professor a motivação.
Novamente, um ciclo se abre dentro da escola:

A motivação está diretamente relacionada à aprendizagem, que está diretamente ligada à memória e à neuroplasticidade.
A rede neural se divide em várias tarefas simultaneamente, como pensar nas contas que temos que pagar, os filhos para buscar na escola e não se atrasar para um compromisso. Quando há pessoas que não conseguem tomar algumas decisões, podemos afirmar que há deficiência em algumas áreas cerebrais.
O neurocirurgião Wilder Penfield, do Instituto de Neurologia de Montreal, citado por Doidge (2007), fez importantes descobertas sobre a plasticidade cerebral; descobriu, inclusive, que, quando tocava partes do cérebro, suscitava lembranças de infância há muito perdidas.
Na escola, encontramos alunos com dificuldades de lembrar um fato, recordar o enunciado ou até a página do livro, pois os estímulos externos visuais ou auditivos são muitos, por esse motivo ela é o local onde essas dificuldades aparecem com maior nitidez, pois exige muito a memória de curto prazo, operacional.
Se a memória está integrada com outras funções, como a atenção, então deveríamos dar prioridade, na escola, a aulas que evidenciem mais a memória de longo prazo (implícita e explícita).
O aluno precisa recordar-se da aula como experiência pessoal, caso contrário estaremos priorizando apenas a memória de curto prazo, com o conteúdo sendo transmitido sem muito significado.
Dicas para melhorar ou manter uma boa memória
• Desafiar o novo.
• Aprender um instrumento ou dança.
• Manter atenção.
• Praticar técnicas de relaxamento.
• Ter alimentação equilibrada rica em vitamina B12.
• Manter sono regular.
• Realizar atividade física.
• Associar fatos às imagens. Para memorizar, por exemplo, uma lista de supermercado, você pode associar a uma história engraçada: “A couve queria se casar com o repolho, mas a cenoura não deixou”.
• Associar fatos às músicas. Criar paródias podem ajudar muito. Costumo muito fazer esse tipo de atividade com conceitos de conteúdos, e os alunos gostam muito. É fato que isso facilita a memorização, e, para a aprendizagem acontecer, é preciso vivência.
Para que também haja uma boa aprendizagem, o cérebro precisa de alguns estímulos e também algumas estratégias que a escola pode proporcionar. Repito: é na escola que se dá uma grande parte da aprendizagem do indivíduo, pois ele passa por volta de 10 a 12 anos inserido nesse ambiente.
Dicas que facilitam a aprendizagem
1. Ambiente físico adequado
Disposição de mobiliário, como aulas em círculo; imagens visuais; sons; aromas; cores; e iluminação adequada são essenciais para que o aluno se sinta confortável e tranquilo.
Presenciei uma experiência com aromas em sala de aula. Foi realizada uma experiência com alunos de 11 e 12 anos. Por um mês, nas aulas de Educação Física, foi colocado um aroma floral.
Os alunos participaram das aulas sempre sentindo o aroma. Após um mês, esse mesmo aroma foi acrescentado nas aulas de Matemática. Os alunos, ao chegarem na sala de aula, tiveram a mesma sensação de prazer da aula de Educação Física, pois foi ativada a memória olfativa. E, dessa forma, a aula foi mais produtiva; o cérebro ativou a área da memória olfativa como fonte de alegria.
2 – Vivências e experiências
Quando o aluno vivencia e pratica um determinado conteúdo, a memória tátil e cinestésica passa a ser ativada. As ações corporais são essenciais para que a memória episódica seja ativada.
A aula de laboratório de Ciências é um exemplo bem nítido dessa prática. Abrir um peixe para entender suas partes internas é muito mais prazeroso do que apenas visualizar as imagens no livro didático. O que acontece é que essa vivência fica restrita apenas a algumas disciplinas, e não a todos os conteúdos programáticos. Visitar um museu, ter aula em ambientes externos, levantar hipóteses e criar novos estímulos, tudo isso faz com que o cérebro se aproprie dessas novas experiências e combine com memórias e informações já anteriores, criando novos significados e ampliando os saberes.

3 – Aula invertida
O aluno passa a ser o pesquisador de um determinado conteúdo; e o professor, o mediador do conhecimento, aquele que faz mais perguntas do que dá respostas.
Realizei uma pesquisa sobre fenômenos naturais com alunos de 10 anos, na qual cada grupo deveria trazer uma curiosidade ou uma informação relevante sobre o assunto determinado. Posteriormente, em sala de aula, a turma foi dividida de acordo com semelhanças entre as pesquisas e deveriam buscar estratégias para apresentar seu aprendizado ao grupo como se fossem os professores. Apesar da faixa etária, a riqueza das exposições foi tão importante e significativa que o grupo inteiro se envolveu e aprendeu.
Mas por que o cérebro manteve a atenção no grupo e não no professor como mero expositor de uma informação? A resposta é simples: motivação e emoção. O cérebro precisa de novidades, e o aluno também. A utilização dos conhecimentos foi significativa, e os alunos tornaram-se investigadores da informação.
4 – Mapas conceituais, ou mentais
Os mapas facilitam a aprendizagem dos conteúdos e a organização de ideias e informações. O professor deve construir junto com o aluno e também ensinar como se constrói.
O mapa conceitual, ou mental, como é chamado por alguns professores, é um recurso didático que ainda é pouco aproveitado pela escola. É uma estratégia para ser utilizada em sala de aula com conceitos que necessitam de maior foco atencional.
Para a construção do mapa conceitual, usa-se uma palavra-chave inicial ou o tema de uma unidade que está sendo trabalhada em sala de aula e pode ser utilizado em todas as disciplinas curriculares.
Minha sugestão é que o professor realize o mapa conceitual no fechamento de uma unidade e após os alunos já terem conhecimento do assunto.
A seguir, destaco um exemplo de mapa conceitual de um conteúdo de Ciências do 2º ano do Ensino Fundamental.

Veja um outro exemplo de mapa conceitual.
O que o cérebro realmente precisa é de que todas as áreas sejam estimuladas.
Veja um outro exemplo de mapa conceitual.

5 – Diferentes estratégias
“Alunos diferentes aprendem de formas diferentes”, então também temos que propor situações novas que possam ser aplicadas em sala de aula. Há alunos que têm uma memória auditiva melhor que a visual ou tátil. Não importa! O que o cérebro realmente precisa é de que todas as áreas sejam estimuladas. Uma marca de um produto, para ser fixada no consumidor, faz campanhas através de imagens, músicas, fôlderes, redes sociais. Então, diversificar as estratégias é uma atitude bem-vinda na escola.
6 – Música nas escolas
Lembre músicas de propagandas de alguns produtos ou slogans que jamais são esquecidos. Com certeza, conseguimos recordar até de detalhes. A memória precisa de repetição e de diferentes estratégias, portanto incluir música na aula é um recurso muito interessante.
Segundo Feinstein (2006),
A neurociência descobriu que os disparos neuronais sincronizados nas múltiplas áreas do cérebro são característicos das capacidades de raciocínio de ordem superior e são estimulados quando se ouve ou se executa uma música. Os elementos fundamentais da música, tais como a altura ou o ritmo, são processados por grupos de neurônios em rede em diferentes áreas do cérebro, incluindo o cerebelo e as regiões dos lobos frontais, parietais e temporais […]. Ouvir e executar música ativam esses grupos neuronais associados em simultâneo. Esses disparos ajudam o cérebro no reconhecimento de padrões necessários na cognição e na memória.
A música aumenta o foco, a inteligência e a concentração. Desde dentro da barriga, o feto já consegue interpretar o mundo que o rodeia por diversas sensações. Há estudos em que o feto identifica os sons e, ao nascer, reconhece estes mesmos sons, principalmente a música.
Como a música está ligada diretamente à emoção, podemos afirmar que o sistema límbico é ativado ao ouvir uma música que nos remeta a um fato. Esse sistema tem a função de armazenamento da memória, e a música tem uma importância na modificação do cérebro através da neuroplasticidade.
Quantos indivíduos, após uma lesão no cérebro, são submetidos a terapias com música! A resposta que o cérebro dá à música é muito mais rápida, por exemplo, do que as respostas na área da linguagem.
A música é uma forma de comunicação que transmite significados e também emoção, ela abrange tanto o hemisfério esquerdo, para analisar os sons e o conteúdo, quanto o hemisfério direito, para a melodia.
O cérebro gosta de analisar a estrutura da música; melodias simples e previsíveis e também desestruturadas não têm graça.
Muitas vezes, passamos a gostar de uma determinada música dependendo do local ou momento em que a ouvimos. Se estivermos num ambiente alegre, aquela música trará sensações boas, mas, se associarmos uma música a um ambiente melancólico, faremos também essas associações em nossa memória.
Dourado (1999, p. 21) destaca o poder que a música exerce e que ela está presente desde a Antiguidade. O autor ressalta que empresas, a fim de fazerem as pessoas esperarem, colocam aquela música numa versão “horrível”, que constata a desistência de quem ouve. Porém, aborda em sua obra a importância da música na recuperação de pacientes.
Uma clínica psiquiátrica de Richmond, EUA, obteve sucesso em experiências musicais com ex-combatentes traumatizados, e o francês Vergnes chega a arriscar que as ondas sonoras podem alterar a movimentação de substâncias no interior das células, abrindo caminho para uma avenida de novas teorias e especulações.
Percebam a importância de fazer boas escolhas dentro da escola, em todos os aspectos, sejam musicais ou literários. Cantar, ouvir boas músicas ou tocar um instrumento estimulam áreas cerebrais como uma mágica.
Portanto, as aulas que envolvem música poderão trazer grandes benefícios para o cérebro e para a aprendizagem.
Geralmente, as músicas na escola são bem-vindas, pois a criança está num ambiente conhecido e com os colegas, o que trará sensações positivas, e, assim, o cérebro registrará uma memória associada ao conteúdo programático ou, simplesmente, a um momento de descontração.
O importante é que a escola proporcione aos alunos músicas com qualidade tanto em repertório quanto em melodias.
7 – Aulas historiadas
Transformar a aula em histórias engraçadas, divertidas e interessantes também agrada ao aluno e ao cérebro. Você deve ter ótimas recordações de histórias que seus pais ou avós contavam e lembrar detalhes daquele filme preferido. O que faz com que todos esses fatos sejam memorizados? O enredo era interessante, com doses de emoção, tanto de medo quanto por causa de cenas engraçadas. Já imaginou explicar aos alunos do 3º ano uma cadeia alimentar dentro de uma história? Como seria? Ou então explicar pronomes em uma história.
Recentemente, o conteúdo programático que teria que aplicar para alunos de 4º ano era sobre pronomes, além de retomar várias classes gramaticais como verbos, adjetivos e substantivos. Conceitos que, na maioria das vezes, eles chegam ao 6º e ao 7º ano sem dominar. Não ressalto aqui sua relevância em ensinar ou não, mas a forma de transformar um conteúdo, que fique entre nós… muito chato para os alunos deste século.
Resolvi, então, criar uma história engraçada com o rei Substantivo, seus súditos e um belo substituto que chega ao reino para atrapalhar os planos do rei e tomar seu lugar, o Pronome. Bom… acho que dá para imaginar as confusões que ocorreram neste reino. Uma dica simples, mas que, até hoje, alguns alunos que me encontram se recordam.


Renata Aguilar é Doutora em Neurociência e Educação; Mestre em Intervenção Psicológica no Desenvolvimento e Educação; pós-graduada em Psicopedagogia e Neuropsicopedagogia; Especialista em Neuropsicologia PUC (com curso de extensão em Neurociência na USP) e Alfabetizão; pós-graduada em Administração Escolar e Ensino da Matemática; graduada em Educação Física e Pedagogia; licenciada em Educação; autora de vários artigos e livros na área da educação e literatura infantil; laureada com o selo Special Tribute Internacional (Brain Connection)/2020, 2022 e 2023, Prêmio Dra. Simone Capellini/2022, Prêmio Dr. Vitor da Fonseca/2023, Prêmio Relato de Experiência Dra. Manuela Faria/2023, Prêmio Dr. Fernando Capovilla/2024.
E-mail: professorarenata.aguilar@gmail.com
Renata Aguilar Educadora/@renataaguilar.educadora
https://renataaguilar.com/
