Edição 141

A fala do mestre

Estratégias para aprendizagem significativa

Renata Aguilar

Para que haja aulas mais significativas, podemos adotar diferentes estratégias na escola. Se existem diferentes alunos com múltiplas características, a aula também deve envolver múltiplas habilidades e estratégias.

É preciso envolver capacidade emocional na arte de ensinar. Para que possamos refletir sobre esta Roda de Aprendizagem, vamos estabelecer alguns critérios e analisar a imagem.

Verifique que o foco principal na intersecção é a aprendizagem, pois é tendo como base este objetivo que buscamos as estratégias para que isso aconteça.

 

Aprender significa apreender, estar dentro do interior do ser humano. Quando aprendemos, acontecem mudanças em nosso comportamento, e, a partir dessas mudanças, outras virão e serão somadas mais e mais.

É através de experiências já adquiridas anteriormente que o homem passa a ampliar e desenvolver mais habilidades e potencialidades. O aluno não aprende sem ter bagagem anterior, repertório que possa ser subsídio para uma próxima etapa.

Ninguém aprende a andar de bicicleta se não tiver domínio anterior do caminhar e do equilíbrio do andar. Não é possível exigir que alguém produza um bom texto sem dominar os grafemas e fonemas e dar significado às palavras. Assim é a aprendizagem em espiral. Muitos professores querem que os alunos façam um resumo, por exemplo, mas não houve oportunidade de lhes ensinar.

Infelizmente, alguns professores “deduzem” que o aluno já saiba um conceito, e, na grande maioria, os conteúdos são passados de forma rápida e ineficaz, pois têm que cumprir o estipulado no livro didático ou na apostila. Dessa forma, o desinteresse do aluno acaba sendo maior do que a vontade de aprender.

Para que haja aprendizagem, peço que pense nas palavras da Roda da Aprendizagem.

• Significado: tem que fazer sentido.
• Coerência: condição para que se compreenda um fato através da ligação de ideias.
• Interatividade: comunicação entre o indivíduo e o que ele recebe, ou o outro (neste caso, o professor).

Uma aula eficaz é aquela que integra esses três conceitos. O professor passa a exercer o papel da interatividade, uma relação de mão dupla, com diálogos e construção de saberes, tornando-se o mediador de novas descobertas.

Quando a interatividade está estabelecida, passa-se a ter coerência no assunto que será transmitido, respondendo à pergunta: “Por que ensino, para que ensino e para quem eu ensino?”.

Estabelecer elos entre os conteúdos de forma interdisciplinar, quando há um trabalho em equipe entre os professores, torna-se mais prazeroso para o aluno. Aulas de 50 minutos, com assuntos fragmentados, sem um engajamento, não despertam o interesse e geram até mesmo indisciplina na turma.

E quanto a dar significado? A aula precisa fazer sentido para o aluno: “Para que aprendo este conceito?”, “Qual a aplicabilidade?”. Um projeto pedagógico e engajado com ações nas comunidades pode fazer a diferença entre o que é ensinado e o que é aprendido.

Diante da Roda da Aprendizagem, estabeleço mais alguns critérios e estratégias para o caminho de metodologias ativas.

1. Aprendizagem tem que fazer sentido para o aluno, caso contrário não haverá aprendizagem, apenas memorização. Nosso cérebro aprende o que tem interesse e busca pelo sentido e pela coerência do que vai ser aprendido.

2. Fazer conexões com a realidade do aluno, desenvolver associações entre os conteúdos com o conhecimento prévio que ele já tem. Mostrar claramente ao aluno que determinado conteúdo tem uma história e a função que exerce no meio social.

3. O aluno sempre pergunta: “Onde eu vou usar este conteúdo na vida?”. Acredito que todos já tenham ouvido tal comentário. É nesse momento que a escola tem que rever alguns conceitos: “Será que realmente tudo o que está no livro didático precisa ser ensinado?”. Selecionem os conteúdos, priorizem a forma de ensinar. Não podemos fazer um ensino apenas “utilitário”. A aprendizagem é um caminho e acontece em espiral. Os conteúdos podem ser ensinados, porém é preciso que haja encantamento pelos mesmos.

4. A aula não termina nos 50 minutos, tem que ser ampliada para fora da aula, o aluno passa a buscar o conhecimento além do livro didático: vai à busca de outros materiais, de vídeos e tutoriais. Temos o desafio de despertar o interesse de alunos que não estão na aula porque escolheram estar ali. Se o aluno conversa sobre o assunto da aula fora da sala de aula é porque você despertou esse interesse.

5. Aula interativa com aluno pesquisador, e não mais copista. Despertar a proatividade, o aluno precisa sentir que faz parte do processo, tem que se sentir responsável. Não há receita pronta, é algo a ser conquistado.

6. Aula invertida: o aluno pesquisa antes o conceito que será desenvolvido posteriormente. O saber tem que ser construído. Depois, esse conhecimento prévio é ampliado na sala com os colegas e com a turma.

7. Vivência e experimentação: evitar aula expositiva por mais de 25 minutos sem interação dos alunos. Há pesquisas que mostram que os alunos aprendem mais ensinando aos outros do que, simplesmente, como ouvintes. As aulas expositivas podem funcionar bem, não é preciso descartar esse recurso, só é preciso organizar o tempo e o como o professor conduz sua aula.

8. Cuidado com modismos, o engajamento dos alunos depende da transformação dos professores. É preciso aprofundar os assuntos e despertar o interesse da turma.

9. Trabalho em dupla ou em grupo: a interação com os colegas e o significado dos conteúdos é uma boa estratégia para a aula. Para o trabalho em grupo, é muito importante que o professor esteja percorrendo os grupos e fazendo interferências, caso contrário, acontecerão conversas desvinculadas do objetivo proposto.

10. O uso da tecnologia em sala de aula pode ser, sim, utilizado como uma estratégia através de estações e projetos, em que cada grupo de alunos passa por estações, entre elas: pesquisa, elaboração de perguntas sobre o assunto, criação de infográficos, produção de vídeos, podcasts, criação de banners, pôsteres, videoaulas, propagandas digitais em blogs, site do colégio e outros aplicativos.

11. O uso de podcast é muito bem-vindo pelos alunos. Podcast é um arquivo digital com o objetivo de transmitir informações.

12. Aprendizagem baseada em projetos: desenvolver projetos que envolvam o mundo digital para propagar informação. Projetos solidários são importantes para os alunos, pois além de interdisciplinares, auxiliam a comunidade e colocam o aluno à frente de um empreendedorismo, desenvolvendo habilidades socioemocionais.

13. Criar um aplicativo entre a turma, explorando os conteúdos didáticos de todas as disciplinas. Esse recurso pode ser utilizado nas séries finais dos ensinos Fundamental e Médio. Mesmo que o professor não seja um grande conhecedor do assunto, poderá embarcar nas pesquisas junto com a turma. Há plataformas gratuitas e indicadas para serem usadas em sala de aula. É preciso buscar conhecimento, aprender também faz parte do dia a dia docente.

O trabalho em grupo

Para um bom engajamento na aula, o trabalho em grupo é fundamental. Para isso, cito algumas dicas necessárias para a sua organização. Já ouvi muitos professores desistindo dessa estratégia devido à indisciplina da turma, mas acrescento que é preciso, sim, uma boa condução de aula.

• Verifique se todos os alunos têm uma função estabelecida, pois nem todos trabalharão de forma integrada, sempre há alguns que não fazem o proposto. O ideal é que o professor já solicite que cada um tenha uma função específica, por exemplo:
• Escriba.
• Pesquisador.
• Apresentador.

• Evite formar grupos homogêneos, no sentido de aprendizagem, pois aprendemos com as diferenças. Colocar somente alunos excelentes no mesmo grupo não gera o diálogo das diferenças. Às vezes, aquele aluno que tem mais dificuldade em escrever pode ser um excelente orador ou desenhista, pode montar um infográfico, por exemplo.

• Procure estabelecer um tempo adequado para a produção da proposta estabelecida. Faça um bom planejamento com objetivos bem definidos do que se quer alcançar.

• Circule pelos grupos, faça questionamentos, verifique se há divisão de trabalho, mostre-se interessado pelas produções e faça intervenções produtivas.

• Determine o assunto a ser tratado previamente, isso garante que os alunos já tenham repertório sobre o assunto. Uma pesquisa anterior auxilia nesse processo.

Muitas universidades, nos cursos de Medicina, adotaram metodologias ativas de trabalho em grupo desde o primeiro ano do curso, com o objetivo de os futuros médicos desenvolverem habilidades de resolução de problemas, transformando o professor em tutor.

Em 2016, a aprendizagem baseada em equipes foi introduzida no primeiro ano no Programa Médico de Sydney (SMP). Esse estudo procurou comparar as percepções dos alunos de usar o TBL no lugar do PBL.

Nessa pesquisa, foram submetidos grupos para trabalhar utilizando o método PBL e TBL. Como resultado:

Os alunos descobriram aspectos positivos de sua experiência no TBL, incluindo o tamanho menor do grupo, o uso de testes de garantia de prontidão, feedback imediato de médicos seniores e eficiência de tempo. No PBL, os estudantes relataram que os conhecimentos variados dos tutores, a direção limitada e os grandes grupos dificultaram o aprendizado”.

Mas o que é TBL e PBL?

Esses termos são utilizados para definir uma metodologia de ensino de duas formas: aprendizagem baseada em equipes, Team-Based Learning (TBL) e aprendizagem baseada em solução de problemas, Problem-Based Learning (PBL).

Independentemente de qual é o mais apropriado para o Ensino Básico, podemos afirmar que ambos colocam o aluno como protagonista no processo de ensino e aprendizagem.

Os alunos, principalmente nas séries finais do Ensino Fundamental até a Universidade, não estão acostumados a trabalhar em equipe, são ouvintes de um processo que inicia logo nos primeiros anos escolares.

Na Educação Infantil, esse trabalho é muito mais acessível, pois o objetivo principal é a interação com o outro, a vivência, a experiência e o brincar. Mas o que chama a nossa atenção é que, na grande maioria, esses objetivos vão sendo transformados e deixados de lado para que se possa usar livros, apostilas, cadernos e registros em folhas. A quantidade de tarefas não garante a qualidade.

Ressalto aqui que não podemos abandonar os conteúdos programáticos, não é simplesmente abortar os livros e as apostilas, mas afirmo que é preciso mudança na forma de ensinar, e não na escolha de aplicar, ou não, determinado conteúdo.

Nos dois métodos há algumas diferenças e uma divisão por etapas:

ETAPAS TBL PBL
Estudo prévio em casa. Não há estudo prévio em casa.
Checagem individual. Proposição do problema pelo professor.
Checagem em grupo do mesmo teste. Discussão em grupo sem interferência do professor.
Abordagem do assunto pelo professor. Pesquisa em casa.
Etapa final Análise de casos práticos.
Avaliação e feedback do aprendizado.
Retomada do assunto em aula com a pesquisa já feita pelo aluno.
Avaliação e feedback do aprendizado, incluindo autoavaliação.

 

a) No TBL, o aluno precisa estudar em casa e usa um roteiro definido pelo professor. Em aula, é feita uma checagem para saber o que o aluno conseguiu compreender do assunto e se estudou em casa; esse processo é individual. Posteriormente, realiza-se uma checagem em grupo: os alunos farão, juntos, a mesma coisa de forma individual. Esse é o processo em que há comparação entre as respostas e também do aprendizado, pois se estabelece um diálogo entre as respostas e os membros do grupo. No final, o professor faz um fechamento do assunto e verifica se todas as dúvidas foram esclarecidas. Na última etapa, o professor propõe casos práticos para os alunos discutirem e resolverem. Todas as atividades e etapas são avaliadas.

b) O PBL inicia-se em sala com o levantamento de um problema feito pelo professor e a ser discutido e selecionado, primeiro, individualmente e, depois, em grupo. O professor faz questionamentos que são discutidos pelo grupo, e, em casa, o aluno deve buscar as respostas para esse banco de perguntas; pode ser em livros, consultando profissionais e pesquisando. Nesse caso, o professor retoma o assunto nas aulas seguintes. O grupo levanta as respostas que obteve e abre discussões junto com o professor. Acontece o processo de autoavaliação.

Devemos escolher essas duas estratégias? Não! Precisamos combinar as estratégias de aula de acordo com a demanda do nosso aluno.

Combinar estratégias, envolver os alunos, seja por meio tecnológico ou não, interagir, comunicar e estreitar vínculos. Esse é o segredo de um caminho de sucesso na aprendizagem.


AGUILAR, Renata. Educação 5.0 e metodologias ativas:
guia prático para o professor. 2. ed. São Paulo: Edicon, 2023.


Renata Aguilar é Doutora em Neurociência e Educação; Mestre em Intervenção Psicológica no Desenvolvimento e Educação; pós-graduada em Psicopedagogia e Neuropsicopedagogia; Especialista em Neuropsicologia PUC (com curso de extensão em Neurociência na USP) e Alfabetizão; pós-graduada em Administração Escolar e Ensino da Matemática; graduada em Educação Física e Pedagogia; licenciada em Educação; autora de vários artigos e livros na área da educação e literatura infantil; laureada com o selo Special Tribute Internacional (Brain Connection)/2020, 2022 e 2023, Prêmio Dra. Simone Capellini/2022, Prêmio Dr. Vitor da Fonseca/2023, Prêmio Relato de Experiência Dra. Manuela Faria/2023, Prêmio Dr. Fernando Capovilla/2024.


E-mail: professorarenata.aguilar@gmail.com
Renata Aguilar Educadora/@renataaguilar.educadora
https://renataaguilar.com/

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