Edição 139
Profissionalismo
Educação antirracista
Nildo Lage
Reaproximarmo-nos do racismo para debatermos a dimensão da insensibilidade de uma sociedade preconceituosa é atrever-se na tentativa de ativarmos a consciência em mentes cauterizadas para apreendermos como o negro ainda é excluído num processo insidioso. Salientando que as mudanças impostas pela lei não resguardam muitos que ainda são vítimas da sutil rejeição.
Quando se envereda pelo terreno educacional, o cenário se transfigura, porque os ataques são diretos, e a exclusão da escola é de uma precisão tal que muitos são arremessados no corredor das humilhações e, assim, transitam por salas, pátios e corredores submetidos a situações constrangedoras, provocadas por aqueles que aspiram à própria essência humana para fortalecer sentimentos de indivíduos que não acolhem nem acatam a diversidade humana como identidade do diferente.
E, você, sistema, por que abdica do poder da educação para transformar situações de humilhações em histórias de sucesso, reprimindo ações que promovem a aproximação, que redirecionam olhares para harmonizar o conviver com as diferenças por meio de atuações que adotam a igualdade como ferramenta de combate ao preconceito?
Promover educação antirracista decreta, como primeiro ato, desconstruir estereótipos para acionar a consciência de um setor que prega desenvolvimento humano integral e desintegra o indivíduo do próprio meio ao descartar princípios essenciais à formação, como valores culturais, sociais e religiosos.
[…] o grito das vítimas do preconceito ecoa numa sociedade racista, que camufla ações e reações contra o humano.
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Não desenraizar o preconceito no terreno escolar para eliminar o separatismo é permitir a propagação da tirania num espaço responsável em promover a aprendizagem e o crescimento humano…
O primeiro descarte é a desvalorização da sua história, ignorando, nos procedimentos de adaptação, a importância dos povos africanos na formação da população, arremetendo culturas e tradições para a lixeira, posicionando o indivíduo nu e sem nenhuma referência social, cultural, étnica e religiosa, para iniciar o processo de crescimento humano, e essa vulnerabilidade expõe o negro a situações de mortificações e ataques de ódio, salientando um preconceito sistêmico, que encurrala por meio da opressão estrutural.
Não desenraizar o preconceito no terreno escolar para eliminar o separatismo é permitir a propagação da tirania num espaço responsável em promover a aprendizagem e o crescimento humano, pois falta o primordial: Justiça, para estilhaçar as correntes, preencher as lacunas dilatadas pelo convencionalismo, com valores que ressaltem o humano, e, na sequência, romper as distâncias para, assim, humanizar o processo educacional, que é um dos maiores reptos do sistema: não formar para a vida, por não se inspirar na vida para atender aqueles que buscam, no ambiente escolar, oportunidades para crescer. Porque a argileira é visível: resistência em inserir, nas metodologias de ensino, o plural.
Sem foco, o espaço que alicia todas as etnias e classes sociais tem que ser revigorado para se converter numa ferramenta de transformação humana. Pois é no planeta sala de aula que olhares e culturas se chocam e tornam-se setas para conduzir indivíduos para desenvolver e fortalecer as bases do eu e, assim, prosseguirem na busca dos seus ideais.
Para extirpar um ranço histórico, é preciso que o universo educação seja mais que acessível a todas as etnias. É imprescindível acolher e, por que não?, individualizar o processo de ensino-aprendizagem, porque a diversidade humana não é fomentada pelo indivíduo, é a junção de etnias, e quando o eu é asfixiado pelo preconceito, os conflitos arrombam as fronteiras das diferenças, suprimidas pelo desrespeito.
Esse segregacionismo atravessou séculos e auferiu forças na era digital. Nos casos escandalosos, a lei aplica punições aos infratores, mas não faz justiça para as vítimas e, mesmo sendo crime, não o contém, porque os ataques são tão sutis que exclusivamente o íntimo dos atingidos sente os impactos.
Porque racismo não é ficção nem uma ilusão de ótica. É realidade! E não podemos fazer de conta que não percebemos atitudes que afastam, porque o grito das vítimas do preconceito ecoa numa sociedade racista, que camufla ações e reações contra o humano. Que crime cometeu? Nenhum! Por que é tão acometido? Simples! Tão somente pela cor da pele! E é lícito ser desvalorizado, combatido e cancelado, pela cultura, credo ou cor?
O reflexo dessa realidade foi o ataque de racismo e injúria contra Vinicius Júnior, atacante do Real Madrid, que teve repercussão planetária, salientando que o racismo não tem ambiente nem nível social, está impregnado no humano.
O que impede?
Temos ciência de que o espaço escolar é o ambiente transformador de humano. Abolir o preconceito é evolucionar por meio de uma educação de qualidade para promover uma sociedade mais justa. Porque ignorar a importância de uma educação antirracista, para atender uma sociedade cada vez mais distinta e plural, é descartar a ferramenta que edifica a argileira que resguarda o social.
Se não prepararmos os nossos pequenos através de uma educação igualitária para que aprendam a conviver com as diferenças, arquivaremos sonhos e projetos de vida, pois temos como fundamento ensinar a ler e escrever e, com tais ações, sustentaremos ou não a fórmula do preconceito, cuidadosamente retida para as novas gerações.
O surpreendente é o permissivismo. O preconceito não é atributo da natureza humana! É cultura, alimentada e repassada de geração a geração. Mesmo conscientes de que é possível refreá-lo por meio de um processo educacional que desensine que cor da pele não reflete caráter, personalidade, tampouco inferioridade, a ponto de acender intolerância e ódio, submergimos em meio às agressões.
Escola, família, educador e sistema têm que assumir a sua parcela de responsabilidade na formação, com ações que erradiquem esse mal. Do contrário, o sonho de uma sociedade justa e igualitária desfalecerá, por imperar racismo e segregação, que incitarão que outras formas de discriminação, como a social, colonizem para esfacelar vidas.
O interessante é que a consciência racial alcançou todas as mentes, mas não é combatida, e o mais grave: as vítimas se esquivam e até se submetem a situações constrangedoras, permitindo abusos, para evitar conflitos, e, assim, aceitam que os agressores operem discretamente — por receio de serem autuados e penitenciados.
Até quando, sistema?
Esse, de tão dissimulado, expõe o permissivismo, a ponto de negar a existência desse preconceito, afiançando atenção especial às comunidades quilombolas. Caro sistema, as vítimas não desejam tratamento diferenciado com migalhas. Almejam respeito, justiça, autonomia, livre-arbítrio e voz para impor respeito! Se não houver uma remodelação para que haja justiça social, com o banimento do preconceito, prevalecerão as supressões, e os gritos dos excluídos se conservarão asfixiados em salas e corredores.
Pois, assim como o Ministério da Saúde trabalha em pesquisas à caça de fórmulas das vacinas para erradicar doenças, o da Educação tem que adotar medidas que eliminem o preconceito na sala de aula para que as novas gerações não sejam obrigadas a recuar ou se evadir para se esquivar do desrespeito, porque é inadmissível que a cor da pele prevaleça como acortinado para camuflar a deficiência de oportunidades negadas por um sistema que cria quotas, acreditando que está se retratando dos crimes de eliminação.
Tais ações são a certificação da permissividade coletiva à indiferença de um setor que adapta negros e brancos no seu respectivo quadrado: você chegou até aqui porque é negro! Pois jamais abordaria pela competência!
Até quando suas raízes se conservarão na senzala? Assim é a situação do negro — como num ônibus, que tem espaço numerado e só embarca quem apresentar o bilhete: “Não se esqueça de que entrou pela cor da pele e será mantido em constante estado de vigilância”; o radar “medo” o alerta em tempo real que, se avançar para chegar ao ponto almejado pelas ambições pessoais, será confrontado com obstáculos e restrições.
Etnia, cultura, credo nos fazem diferentes, não inferiores. Esse pensamento miserável não pode vandalizar o caráter, a personalidade e até a dignidade do outro!
É má índole? Não! Deficiências na formação! Situações que salientam pensamentos primitivos, que não evoluíram ao nível de sabedoria para dilatar olhares e visualizar o outro como indivíduo livre para escolher o destino, sem tropeçar nas barreiras içadas pelo tom da pele.
Etnia, cultura, credo nos fazem diferentes, não inferiores. Esse pensamento miserável não pode vandalizar o caráter, a personalidade e até a dignidade do outro! Que, apesar de ter um tom diferente, uma cultura diferente, tem sonhos e idealismos diferentes daqueles que acreditam traçar o destino do outro. Porque preconceito é falha de educação, que se inicia no seio familiar e é estendida na sala de aula.
Por que não evolucionamos para nos desenvolvermos, no mínimo, socialmente? Contemplem os horizontes da nossa educação! Nosso processo educacional congelou no tempo e ostenta a escola estagnada no período colonial, permitindo que a discriminação conserve o câncer que atravessa séculos, e sabemos onde está a célula cancerígena: no seio do sistema escolar. Pior: é alimentada pelo preconceito social e racial, ostentando a sociedade num conglomerado de beócios, cujo sinônimo é idiota, bobo, palerma… Se não sou responsável pela cor da minha pele, devo permitir ser desrespeitado, oprimido e até massacrado por causa dela? Claro que não!
O preconceito não é atributo da natureza humana!
Se o sistema não enquadrar, no processo educacional, estratégias e procedimentos ininterruptos para salientar a importância dos negros na formação étnico-cultural da população brasileira, ressaltando a contribuição dos povos afro, dificilmente erradicaremos o preconceito, porque mudanças de pensamento para alterar condutas estabelecem ações que promovem a inclusão e o respeito às diversidades nas escolas, impondo justiça aos que buscam a igualdade num espaço que tem receio de particularizar o processo de ensinar.
O impressionante é que temos ciência de que, enquanto prevalecerem projetos sem objetivos definidos e manigâncias políticas, não teremos avanços num setor que, desde a colonização, grita por uma educação igualitária. Só alcançaremos essa meta quando o social arrebatar a hierarquização do processo educacional para que os eliminados ostentem, pelos próprios méritos, conquistas pessoais e profissionais.

O que dizer mais sobre racismo?
Nada! Porque, em plena era digital, oferecemos uma educação que não atrai e não precisamos de uma nova libertadora para que a liberdade de direitos constitucionais seja usufruída no seio de uma sociedade democrática, que julga e condena pela injustiça social uma etnia que tonificou a cor da pele de uma nação.
A pandemia do covid-19 estabeleceu a máscara como trincheira de defesa para ostentar a sobrevivência. O preconceito — antes exposto abertamente, a ponto de ser proclamado em piadas e anedotas — na sociedade contemporânea se apresenta com máscaras para camuflar a face de autores de um crime que, muitas vezes, não é percebido por outros, mas sentido pela vítima, que lê, nas entrelinhas de um olhar, o alerta de afastamento; nos traços de um sorriso, deboche, desprezo, ironia… Salientando que o grito não é mais necessário, porque é visualizado nos recuos, e essas flechadas alcançam o eu, que é crivado até se encurralar entre as muralhas de uma sociedade que resiste em arrebatar uma página, que é a vergonha da nossa história.
É inaceitável que, num país multicor, brancos, negros e indígenas sejam subdivididos numa sociedade, como se as etnias não fossem da raça humana. Os ataques são tão perspicazes que se convertem em guias para se pouparem de ataques; rotas de fuga para camuflarem e, assim, esquivarem-se das rajadas de ódio, desfechadas e dirigidas para atingirem o alvo: o íntimo. Exclusivamente, para satisfazer o prazer de esvair um sentimento que separa.
Se é assim, porque consciência negra, se o negro não pode expor sua identidade humana? Porque os que definem os padrões de valores humanos assinalam a pele como rótulo de um ser que, muitas vezes, tem as oportunidades ceifadas pela cor, pela cultura ou pelo credo. Essa injúria étnico-racial transcende as leis, que não punem as ofensivas étnicas. E sem essa de multa! Crime é crime e tem que ser punido como quem agride a identidade do outro por razões fúteis.
Isso só sobrevirá quando ações sociais que desmoronam as argileiras do preconceito e da discriminação forem adotadas para fazer sobressair a empatia e para compreendermos que cor da pele é o tom que identifica e exalta uma etnia. À medida que a intolerância circunda a sociedade, menos se debate educação antirracista no espaço escolar.
À medida que a intolerância circunda a sociedade, menos se debate educação antirracista no espaço escolar.

[…] permear a prática à educação antirracista no currículo é humanizar o processo educativo para compreender a importância da conexão diversidade x inclusão.
Preconceito, racismo e discriminação são problemas que massacram uma minoria de 10,2% da população brasileira que se declarou preta no Censo do IBGE de 2022, cujo brado é asfixiado, e as ações acompanham a evolução social: de escravo a negro, escurinho e, agora, preto! De tão comum, tornou-se normal! Para quem? Para os preconceituosos? Ou para um sistema que permitiu que tal injustiça radicasse, granjeasse força e proliferasse?
Vamos contextualizar! Contextualizar o quê? Discursos baldados, altercações improdutivas e atuações injustas? Quem acata os direitos iguais, étnico-raciais e igualdade social? Falácias que, quatorze décadas depois da Abolição, são alimentadas no seio de uma sociedade que não obstrui o processo de desumanização, porque as situações de opressão evoluíram com tamanha sutileza que as ações são imperceptíveis aos olhos dos não atingidos, porque o foco sempre progrediu na contramão da justiça, excepcionalmente social!
Sendo assim, como definiremos o indivíduo na sociedade contemporânea, todavia, miscigenada? Raça humana evoluída ou não evoluídas espécies da raça humana? Onde as castas são divididas em subespécies: inferior e superior?
Se o propósito é conservar o pensamento dos conquistadores, não é necessário fazer nada para transformar a realidade, porque os estereótipos foram concebidos, e o apartheid brasileiro atua assimetricamente para distribuir direitos diferentes e desiguais numa sociedade que se diz democrática. Vítimas que são surpreendidas quando a inconcussa fábula da democracia social se desfaz. Pois quem deveria amparar se converte em vilã.
Como, na escola, o assunto é debatido, mas atuado de forma controversa, predominando o “O que me convém!”. Quem ousa me conter? Lei? Justiça? A vítima? A escola silencia e conserva-se à espera do reagir de um sistema insensível ao problema, sem desempenhar o seu papel de transformador social por meio da educação!
Indiferente, o sistema não enxerga, entre evasões e injustiças, que respeitar as diferenças é promover a autonomia individual, ressaltando competências e valorizando esforços. Porque permear a prática à educação antirracista no currículo é humanizar o processo educativo para compreender a importância da conexão diversidade x inclusão.

A irreflexão asfixia debates, exclui métodos que posicionam a escola numa convergência, na qual o brado dos excluídos se confunde com ações etnocêntricas de um sistema que não reverencia a heterogeneidade cultural e étnico-racial, para, assim, amortizar a supressão no espaço escolar, para que se inicie o processo de formação, reconstruindo os pilares da educação por meio do resgate de valores para exaltar o conhecimento da humanidade, porque a consciência racial asfixiada na escola reflete-se nos corredores sombrios de uma sociedade injusta, desigual e discriminatória, com alguém que não tem poderes para alterar o tom da pele e, assim, é vítima da ausência de equidade social.
