Edição 145

Espaço pedagógico

Educar com consciência plena:

Kelly Cartaxo Costa

Alejandro – stock.adobe.com

uma reflexão sobre a prática de mindfulness em
contexto escolar

 

Educadores que cultivam uma prática pessoal de mindfulness transformam o clima da sala de aula: quando entram em cena com presença consciente, sua postura influencia os alunos, criando um ambiente emocionalmente mais equilibrado e colaborativo.
                                              -Carvalho e Pinto, 2020

Estamos vivendo num mundo em que as mudanças são rápidas, frequentes e, muitas vezes, perigosas. As últimas décadas não têm sido fáceis para as escolas em virtude dos crescentes desafios vivenciados, geralmente relacionados ao estresse, à indisciplina, à desatenção e/ou aos conflitos emocionais.

As gerações do nosso momento atual, conhecidas como Geração Z e Geração Alpha — pessoas nascidas entre 1997 e 2024/2025, respectivamente, são compostas por pessoas consideradas nativos digitais, cujos interesses e a educação são totalmente influenciados pela cultura digital acelerada. As crianças e os jovens têm preferências por conteúdos visuais curtos, rápidos e interativos. Desde muito cedo, por vezes ainda bebês, têm contato direto com dispositivos tecnológicos, e suas formas de aprender e de se relacionar são mediadas por telas, ou seja, suas experiências acerca do mundo são alicerçadas por meio de interfaces digitais, ocasionando, assim, um impacto direto e profundo no foco, na atenção, nas relações e, consequentemente, na aprendizagem e no desenvolvimento socioemocional.

Nesse contexto, o cérebro acaba por se acostumar com essa dopamina frenética e rápida, por isso atividades mais lentas como ler, escrever ou estudar tornam-se desinteressantes. Isso tudo resulta em impaciência, agitação e intolerância, que, por vezes, conduzem ao desrespeito e aos conflitos que, infelizmente, estamos nos acostumando a ver. De acordo com um estudo desenvolvido pela Microsoft em 2015, “O tempo mediano de atenção sustentada havia diminuído para 8 segundos, menos até do que um peixinho-dourado, que consegue manter 9 segundos de atenção”.

Segundo estudos de Small (2023), o uso intensivo de mídias digitais causa hiperativação do sistema dopaminérgico, levando a um padrão de busca constante por estímulo, reduzindo a tolerância ao tédio e prejudicando, assim, o controle executivo do cérebro.

Além disso, é relevante trazer para esta reflexão os jovens da Geração Z, considerados, muitas vezes, multitarefas, porque, geralmente, fazem muitas coisas ao mesmo tempo, como ouvir música, conversar nas redes sociais, estudar, ler e assistir a vídeos, por exemplo. O que se nota com isso é que o cérebro acaba por não realizar tão bem tantas atividades ao mesmo tempo, cansando-se mais rapidamente, e isso é fator preponderante para diminuir a atenção no que se está a fazer. Uma mera distração enquanto se está estudando pode levar alguns minutos para retornar ao foco, o que ocasiona grandes prejuízos no tempo de estudo e na aprendizagem.

As consequências do uso intenso, diário e quase até interminável de tecnologia no dia a dia de crianças, jovens e adultos são inúmeras. Segue aqui a descrição de algumas delas: pior qualidade do sono; dificuldade de concentração; menor capacidade em reter os conteúdos estudados e, por consequência, baixo rendimento acadêmico; aumento da ansiedade; e desenvolvimento cognitivo e relacional superficiais.

Diante de todos os efeitos menos positivos causados pelo uso diário e persistente da tecnologia, dentro e fora dos muros escolares, eis que surge uma poderosa e comprovada ferramenta de apoio chamada mindfulness. Ferramenta esta muito importante nos dias de hoje para ajudar a todos e, em especial, às gerações hiperestimuladas pelo universo digital.

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Mas o que é exatamente mindfulness?

 

Sabemos que o ambiente escolar nos dias atuais está marcado por diversas dificuldades, muitas delas advindas da imersão desenfreada do uso da tecnologia, ocasionando desafios emocionais, cognitivos e relacionais, tanto para os alunos como para os docentes. Há muita pressão por todos os lados, e é nesse cenário que o mindfulness tem, a cada dia, ganhado mais espaço e destaque na sociedade em geral, especialmente no âmbito educativo. A prática diária da atenção plena em contexto escolar tem trazido benefícios significativos para a gestão emocional, para a qualidade nas relações intra e interpessoais e para o desempenho acadêmico.

O mindfulness é mais do que uma técnica, é uma filosofia de vida. Essa prática, tão importante para todas as gerações, já existe na Índia há mais de 2 mil anos. No Ocidente, ela surgiu por volta da década de 1970, com o médico norte-americano Jon Kabat-Zinn, que a praticava com frequência, viu os seus benefícios e decidiu implementar com os seus pacientes com dores crônicas, criando, assim, o Programa de Redução do Estresse Baseado em Mindfulness. Kabat-Zinn (2004) definiu o termo como “atenção plena no momento presente, de forma intencional e sem julgamentos”.

A prática da atenção plena envolve exercícios de respiração e perpecção corporal, meditação, relaxamento e consciência dos pensamentos e das emoções.

Mindfulness refere-se à capacidade de estar no momento presente, consciente da nossa vida e da experiência em cada momento. É uma técnica que visa cultivar a calma e a atenção quanto à respiração, aos sons, às sensações do corpo e aos pensamentos, sem julgamento. É estar consciente e ciente de que vivemos… e de que experienciamos, no nosso corpo, nos nossos pensamentos, nas nossas emoções e no mundo à nossa volta, a vida no presente.
Perestrelo (2018,p. 19)

É importante destacar que viver a atenção plena requer muito mais do que seguir instruções de exercícios. É ser capaz de abrir a mente e assumir uma postura de compreensão e aprendizagem diária. É ter a capacidade de se libertar de hábitos voltados para a negatividade e de aceitar pensamentos, sentimentos e sensações exatamente como são. É aprender humildemente a acalmar a mente e a relaxar o corpo. Para Kabat-Zinn, temos que aprender a conhecer e cultivar diariamente as nove atitudes mindfulness, que são:

    1. Mente de principiante
      É ser capaz de ver cada momento como novo, mesmo que já o tenhamos vivido antes. É viver com curiosidade, com o olhar de uma criança.
    2. Não julgamento
      É saber observar o que sentimos ou pensamos sem dizer se é “certo” ou “errado”. Apenas reconhecer que se está presente.
    3. Deixar ir
      É ter a capacidade de libertar pensamentos, emoções ou expectativas que nos prendem. Respirar fundo e permitir que passem, como nuvens no céu.
    4. Paciência
      É saber permitir que as coisas aconteçam ao seu ritmo, sem pressa. Tudo tem o seu tempo para crescer e florescer.
    5. Aceitação
      É saber reconhecer o momento como ele é, mesmo que não seja como gostaríamos. É o primeiro passo para a mudança verdadeira.
    6. Confiança
      É ser capaz de confiar em nós mesmos e naquilo que sentimos.
    7. Não esforço
      É simplesmente estar presente. Não há nada a alcançar, só a viver.
    8. Gratidão
      É saber valorizar as pequenas coisas: um abraço, uma gargalhada, um momento de silêncio. A gratidão muda a forma como vemos a vida.
    9. Generosidade

      Atitudes Mindfulness. Fonte: SOBREIRO (2022, s/p).

      É ser capaz de oferecer a nossa presença, escuta e carinho sem esperar nada em troca.

 

O encontro das nove atitudes mindfulness é o alicerce para a construção de uma base forte de consciência plena no aqui e no agora. De acordo com Kabat-Zinn (2004): “São o solo no qual podemos cultivar a capacidade de acalmar a mente e relaxar o corpo, desenvolver concentração e ver com mais clareza”.

[…] viver a atenção plena requer muito mais do que seguir instruções de exercícios.

Drazen – stock.adobe.com

Como implementar o mindfulness em contexto escolar?

A prática quotidiana e regular do mindfulness na escola é uma mais-valia para alunos e professores porque melhora o desempenho acadêmico; reduz o estresse e a ansiedade; desenvolve a compaixão, a empatia e a autorregulação emocional; melhora o relacionamento interpessoal; diminui a impaciência e a agitação. De acordo com os estudos de Roeser et al. (2013), não são apenas os alunos que se beneficiam, mas professores que praticam mindfulness relatam redução da exaustão emocional, melhora da qualidade de vida e maior presença e satisfação em sala de aula.

Dada a importância da consciência plena, cada escola pode organizar um programa, com apoio de pessoas ou empresas especializadas na área, com exercícios de mindfulness que poderão ser aplicados diariamente dentro e fora de sala de aula.

A prática contínua da atenção plena amplia as competências cognitivas, emocionais e relacionais.

Seguem, abaixo, algumas sugestões de atividades que podem ser utilizadas na construção do programa de mindfulness para a escola:

    • > Técnicas de relaxamento, de respiração consciente e de gestão emocional.
    • > Afirmações positivas (foco em repetição de mantras).
    • > Práticas de mindfulness (aquietação, concentração e observação), de meditação (em silêncio, guiada, baseada em visualização ou repetição de sons e com música).
    • > Mindful eating.
    • > Atenção aos sons e ao silêncio.
    • > Escaneamento corporal.
    • > Ginástica cerebral.
    • > EFT (Técnica da Liberdade Emocional).
    • > Ioga do riso.
    • > Bondade amorosa.
    • > Ho’oponopono.
    • > Implementação de música ambiental para ajudar na calma e concentração dos alunos no quotidiano em sala de aula.
    • > Semáforo mindfulness: Vermelho = Silencie; Amarelo = Respire e observe; e Verde = Continue.

 

Ao integrarmos o mindfulness à rotina de uma escola, desenvolvemos atitudes de consciência, de presença e de acolhimento a nós, aos outros e ao planeta. A prática contínua da atenção plena amplia as competências cognitivas, emocionais e relacionais, que são fundamentais para o bem-estar físico e mental; individual e coletivo.

Quando praticamos mindfulness, aprendemos a…

  • > Fazer momentos de pausa no dia a dia.
  • > Gostar da própria companhia.
  • > Ser gentil e compassivo.
  • > Usar a respiração como instrumento de calma e de atenção ao momento presente.
  • > Conhecer e sentir o próprio corpo.
  • > Cultivar a paciência, tolerância, generosidade e gratidão.
  • > Desenvolver a escuta ativa.
  • > Lidar melhor com as emoções.
  • > Manter um melhor relacionamento consigo mesmo e com os outros.
  • > Aceitar as situações e experiências exatamente como elas são.
  • > Ter consciência do momento presente e não ser reativo.
  • > Sentir-se grato e ser feliz na própria companhia e na companhia de colegas e amigos.

Cada vez mais o mindfulness tem contribuído de forma significativa para o ambiente escolar, promovendo atenção, equilíbrio emocional, convivência mais empática e melhor bem-estar para alunos e professores. A adoção e implementação de tais práticas nos currículos escolares — seja por programas formais, seja por aplicações pontuais ou como política de promoção de saúde mental — contribui com a construção de ambientes educativos mais saudáveis, conscientes e emocionalmente equilibrados, tão necessários nos dias de hoje. Sendo assim, é muito importante frisar que integrar a prática de mindfulness à rotina diária pedagógica é e será uma ferramenta de imenso valor para o cultivo da escuta ativa, da empatia e da presença plena, como elementos fulcrais para enfrentar os desafios da educação contemporânea.

Viver o momento presente é a nossa única realidade, uma vez que não conseguimos voltar ao passado ou viajar ao futuro. Temos que aprender e treinar o nosso cérebro para ter consciência do aqui e do agora, pois essa consciência faz-nos conectar com o nosso eu, e, dessa forma, passamos a viver plenamente o dia a dia e a sermos mais felizes. Em contexto educativo, o mindfulness contribui para um ambiente de aprendizagem mais saudável, promovendo bem-estar, engajamento e relações mais positivas entre todos os envolvidos, uma vez que melhora o foco e a atenção dos alunos, e desenvolve a capacidade de lidar, com maior consciência, com o estresse por parte do professor.

Na atenção plena, começamos a ver o mundo como ele é, não como esperamos que seja ou como tememos que se torne.
-Mark Williams

REFERÊNCIAS:
Artigo Mindfulness em escolas… instituições brasileiras, Namu, 2019. Disponível em: https://namu.com.br/portal/corpo-mente/meditacao/mindfulness-em-escolas/. Acesso em: 22 jul. 2025.
Artigo 9 atitudes do mindfulness, 2022. Disponível em: https://www.joanasobreiro.com/post/9-atitudes-do-mindfulness. Acesso em: 23 jul. 2025.
CARVALHO,J.S. de & PINTO,A.M. Mindfulness em contexto educacional. Coisas de Ler – apresenta evidências de que programas de mindfulness para professores melhoram a regulação emocional dos docentes e o clima da sala de aula de seus alunos, 2020.
Costa, Kelly C. Praticando mindfulness em contexto educativo. Lisboa (Portugal): Moonlight, 2022.
__________. A alegria de conversar sobre ensino e aprendizagem. Curitiba: Appris, 2020.
DEGANI, Daniela. Educar com presença: como o mindfulness pode transformar a sala de aula. Revista Educação, 2020. Disponível em: www.revistaeducacao.com.br. Acesso em: 22 jul. 2025.
GREENLAND. S. K. Jogos de mindfulness. Amadora (Portugal): Nascente, 2019.
KABAT-ZINN, J. Onde quer que você vá, é você que está. São Paulo: Palas Athena, 2004.
MAJOLO, F. Intervenções baseadas em mindfulness em contexto escolar (UFRGS, 2014).
MARREIRO, D. L. Mindfulness em contexto escolar… (Cognitionis Scientific Journal, 2020) revista.cognitioniss.org.
MARTO, Daniela. Manual do Curso de Facilitadores de Meditação Mindfulness em Contexto Educativo [manual encadernado]. s.l.: s.n., 2020.
NERES et al. Estudo sobre autopercepção de felicidade e atenção em alunos do Ensino Médio. revistaseug.ugr.es, 2024.
NERES, M. P. et al. Efeitos da meditação mindfulness sobre atenção e bem-estar em estudantes do Ensino Médio. Revista DEDiCA, Universidade de Granada, 2024.
PERESTRELO, V. Mindfulness na educação. 2. ed. Paço de Arcos (Portugal): Mahatma, 2018.
Site MindKids – dados sobre impacto e relatos de educadores/alunos. Revista Educação+3mindkids.net+3mindkids.net+3.
ROESER et al. Mindfulness training and reductions in teacher stress and burnout: results from two randomized, waitlist-control field trials. Journal of Educational Psychology, v. 105, n. 3, p. 787-804, ago. 2013. DOI: https://doi.org/10.1037/a0032093. Acesso em: 22 jul. 2025.
SMALL, Gary. Cérebro digital: como a tecnologia molda nossa mente. Barcelona: Urano, 2023.
SOBREIRO, Joana, 2022. 9 atitudes mindfulness. Blog Joana Sobreiro. Disponível em: https://www.joanasobreiro.com/post/9-atitudes-do-mindfulness. Acesso em: 22 jul. 2025.
WILLIANS, M. e PENMAN, D. Atenção plena – mindfulness. Como encontrar a paz num mundo frenético. Rio de Janeiro: Sextante, 2015.

Kelly Simões Cartaxo Lima
Costa é pedagoga, Especialista
em Psicopedagogia e Tecnologia
Educacional, instrutora de mindfulness,
líder de yoga do riso e Mestre em
Ciências da Educação.
E-mail: kelycartaxo@hotmail.com

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