Edição 121

Em discussão

Estimular a competição no Ensino Médio é saudável?

Kelly Cartaxo Lima Costa

As pessoas educam para a competição, e esse é o princípio de qualquer guerra. Quando educarmos para cooperarmos e sermos solidários uns com os outros, nesse dia estaremos a educar para a paz.
-Maria Montessori

estudante_adolescente_livro_desespero_AdobeStock_84754066_ElnurA cada dia que se passa, deparamo-nos com diferentes situações, nas diversas escolas pelo Brasil e pelo mundo, que carecem de, no mínimo, algumas reflexões por parte de professores, diretores, alunos, coordenadores e famílias. Uma dessas situações é a contínua estimulação da competição entre alunos na escola, especialmente no Ensino Médio. Ouve-se permanentemente expressões como: “O aluno X ficou em primeiro lugar no simulado”, “O aluno Y tem as melhores notas no boletim”, “O aluno Z conseguiu a melhor pontuação do Enem na cidade” ou, ainda, “O aluno F teve média tal na redação do Enem”. Parece que os alunos do Ensino Médio perderam a identidade, eles agora carregam rótulos de melhores nisso ou naquilo. O “valor” desses alunos está em serem os “melhores” em notas de provas, em simulados, vestibulares ou Enem. Quem se preocupa em ensinar outros tipos de valor, como humildade, empatia, solidariedade, cooperação, amor ao próximo, resiliência, compaixão e tantos outros que fazem a diferença na vida de qualquer ser humano? Será que os alunos querem realmente ter esses rótulos ou eles dizem gostar porque a família e a sociedade como um todo “exigem” isso? Alguém na escola já fez essa pergunta aos alunos?

menino_adolescente_comemora_livros_AdobeStock_282892117_valiza14Além dos estudantes, agora, mais do nunca, as escolas são vistas e avaliadas pela sociedade a partir da sua classificação nos rankings de aprovação dos estudantes nos vestibulares e no Enem. Muitas famílias não questionam ou procuram conhecer as propostas pedagógicas e os valores das instituições, preocupam-se em saber, principalmente, qual o índice de aprovações para ingresso no Ensino Superior. E quem se preocupa com o bem-estar emocional e psicológico desses alunos? Quem se preocupa com sua índole e seus valores? Quem se preocupa em estimular o olhar para o outro? Será que os nossos alunos são ou estão felizes com o modelo de Ensino Médio que temos hoje? Será que os nossos estudantes gostam de competir, de serem número?

Diante de tantos questionamentos, está mais do que na hora de repensarmos qual o verdadeiro papel do Ensino Médio na vida dos estudantes. É público e notório que, nos mais diversos documentos, é possível constatar um propósito “romântico” e que parece ideal para os alunos. Vejamos o que diz a LDB nº 9.394/96, no art. 35:

O Ensino Médio, etapa final da Educação Básica, com duração mínima de três anos, terá como finalidades:

I – a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no Ensino Fundamental, possibilitando o prosseguimento de estudos;

II – a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores;

III – o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico;

IV – a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina.

A plataforma Par Educacional (2019, s/p) traz a sua contribuição sobre isso, dizendo que:

O papel último da escola é formar, idealmente, cidadãos éticos, social e ambientalmente responsáveis, com criticidade e autonomia de pensamento e engajados em transformar e melhorar a sociedade em que vivem. A formação cidadã busca esse ideal orientando da melhor forma possível o processo de crescer e começar a atuar.

Entretanto a realidade aponta para outros caminhos mais evidentes, como destacam Lima, Souza e Pinheiro (2020) a partir de uma pesquisa aplicada com alunos:

Os alunos entendem que a única finalidade da escola é garantir melhores condições de empregabilidade, a escola e o aprendizado passam a ser considerados como meios para um único fim, ao passo que, quando esse fim é alcançado, torna o meio dispensável e desnecessário. Essa questão se agrava ainda mais quando esse fim citado é alcançado durante o Ensino Médio, aumentando consideravelmente os números de abandono da escola, pelo entendimento da desnecessidade ou até mesmo pelas condições impostas pela nova situação, como a falta de tempo para se dedicar ao aprendizado.

A partir dos aspectos citados acima, Lima, Souza e Pinheiro (2020) complementam afirmando que:

Estruturar o Ensino Médio com orientação apenas para o mercado se mostra um equívoco, de modo que afasta a concretização de uma ampla formação dos alunos visando outras demandas no mundo contemporâneo, estas, por sua vez, exigem das pessoas que estão sendo formadas saberes e conhecimentos compatíveis com a sociedade em que estarão se inserindo.

Para nos aprofundarmos um pouco mais acerca do tema aqui discutido, a identidade do Ensino Médio é analisada por Krawczyk (2009) apud Lima, Souza e Pinheiro (2020), ao afirmar que “A única finalidade clara do Ensino Médio é ser meio de entrada universidade ou formação profissional”. Será isso mesmo? Mas onde aparece a valorização do ser? Por que parece que tudo vislumbra o ter? Por que não se trabalha no Ensino Médio com a mesma perspectiva da Educação Infantil, ou seja, com a preocupação em aprender com sentido, respeitando o tempo e o ritmo dos alunos? Onde entra a satisfação e a felicidade? Por que tanta preocupação em “preparar” todos por igual, quando são diferentes, para o ingresso nas universidades? Será que isso é realmente o mais importante para todos? Será que a escola, ao atuar explicitamente para essa realidade, não estará corroborando com o mundo consumista?

Sobre tais questionamentos, é salutar trazer o que diz Sá (2018):

Ninguém nasce consumista! As crianças nascem num mundo consumista e, na interação com ele, são levadas a acreditar na lógica do quanto mais, melhor. Passa-se logo próxima fase do jogo eletrônico, compra-se uma quantidade de livros e brinquedos que a criança nem consegue conhecer, gerando quase sempre uma relação superficial com eles.

A citação acima está direcionada educação das crianças, mas nos conduz diretamente aos jovens, ou seja, ao Ensino Médio, pois essa realidade é refletida quando vemos a maioria das escolas e famílias festejar as classificações e aprovações dos estudantes nos mais diversos cursos que trazem resposta financeira e status, como é o caso do curso de Medicina. É muito raro vermos a mesma empolgação quando os alunos decidem seguir outros caminhos, como a docência, por exemplo, ou quando querem ser empreendedores. Por que será? É evidente a intimidação vivenciada pelos jovens atualmente. Os alunos se sentem pressionados com essa situação, muitos deles querem outras coisas para sua vida, mas omitem os seus verdadeiros propósitos para não serem o patinho feio da história.

A proposta do Novo Ensino Médio valoriza o protagonismo juvenil, propõe a ampliação do tempo do aluno na escola, objetivando a melhoria da qualidade educacional e se aproximar mais da realidade de vida dos jovens. Será isso possível?

Segundo Kelian apud Castro (2020):

A educação integral não é apenas mais tempo na escola, mas, sim, uma qualidade outra de escola. É uma oportunidade de se desenvolver um olhar sobre o desenvolvimento integral dos estudantes. São os dois pilares da política do Novo Ensino Médio. Mesmo que não haja ampliação de tempo, trata-se de uma orientação conceitual da política: tanto de trabalhar de forma integral com os estudantes, como de flexibilização dos percursos.

Será que as escolas conseguirão trabalhar nesta perspectiva de olhar para além dos conteúdos e do Enem? Para além da competição? Será que a sociedade entenderá esse propósito de educação?

É urgente a necessidade de que nossos governantes, diretores de escolas, professores, coordenadores, famílias e comunidade em geral compreendam que, além da competência intelectual, existem as competências individual, emocional e ética dos alunos, que são fundamentais cidadania, pois é evidente que esses aspectos ultrapassam a triste realidade das instituições de Ensino Médio em pautar os seus valores enaltecendo os conteúdos e os melhores resultados conquistados a partir de notas e/ou aprovações.

Sobre a questão da competição no Ensino Médio, Vivaldi (2014) nos esclarece que:

Competir, vencer e perder são experiências necessárias ao desenvolvimento. Competir, no sentido de enfrentar um desafio, é extremamente saudável. Vencer pelo esforço e foco e pela dedicação é se sentir como alguém de valor positivo, e não como o melhor, o que, portanto, transforma-se em uma ótima chance de exercer a humildade. Já perder é uma oportunidade para aprender a lidar dignamente com a frustração de não se alcançar o resultado desejado, buscando uma reavaliação dos meios utilizados. Há, portanto, a necessidade de perceber que sempre há espaço para uma experiência moral positiva, tanto em situações de competição quanto nas de cooperação.

O Ensino Médio é muito mais do que uma combinação entre conteúdos e resultados. É autonomia, é descoberta, é projeto de vida, é respeito, é autoconhecimento, é dedicação, é responsabilidade, é resiliência, é inclusão, é cooperação e é encantamento por si, pelo outro e pelos saberes que enaltecem o equilíbrio entre o ser que aprende e o objeto que promove a aprendizagem. É preciso ter convicção de que todos são importantes no processo, “Não há saber mais ou saber menos, há saberes diferentes”, por essa razão temos que compreender que “Ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo. Por isso, aprendemos sempre” (Paulo Freire).

 

Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018.

CASTRO, Tamara. Ensino Médio, projetos de vida e trabalho. Cenpec Educação. Disponível em: https://www.cenpec.org.br/tematicas/ensino-medio-projetos-de-vida-e-trabalho. Acesso em: 19/06/2021.

KUEZER, Acacia Zeneida. O Ensino Médio agora é para a vida: entre o pretendido, o dito e o feito. Educação & Sociedade. Campinas, v. 21, n. 70, p. 15–39, Abr. 2000. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010173302000000100003&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 20/06/2021.

LEI nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União, 23 dez. 1996.

LIMA, Willian da Silva de; SOUZA, Mariana Cabral Maméde; PINHEIRO, Beatriz Braga. O Ensino Médio e seu papel na atualidade: a concepção dos alunos do Ciep Padre Salésio Schimid de Vassouras – RJ. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 09, Vol. 04, p. 108–130. Setembro de 2020. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/papel-na-atualidade. Acesso em: 20/06/2021.

PAR EDUCACIONAL. O papel da escola na formação do cidadão.
Out.-2019. Disponível em: https://www.somospar.com.br/ensino-medio-para-a-vida-papel-da-escola-na-formacao-do-cidadao/. Acesso em: 20/06/2021.

SÁ, Vitória Regis Gabay de. O papel da escola de Educação Infantil: educar para o agora ou para o futuro? Ninguém cresce sozinho. Jul.-2018. Disponível em: https://ninguemcrescesozinho.com.br/2018/07/30/o-papel-da-escola-de-educacao-infantil-educar-para-o-agora-ou-para-o-futuro/. Acesso em: 21/06/2021.

VIVALDI, Flávia. Refletindo sobre a competitividade. Nova Escola – Gestão Escolar. Out.-2014. Disponível em: https://gestaoescolar.org.br/conteudo/977/refletindo-sobre-a-competitividade. Acesso em: 20/06/2021.

Kelly Simões Cartaxo Lima Costa é pedagoga, especialista em Psicopedagogia e Tecnologia Educacional, Mestre e doutoranda em Ciências da Educação. E-mail: kelycartaxo@hotmail.com

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