Edição 90

Profissionalismo

Formação humana e saberes docentes na inclusão escolar

Eugênio Cunha

Na educação, não devemos achar que a nossa formação acadêmica pode, sozinha, mover as barreiras das dificuldades de aprendizagem, pois ela pode pouco sem o amor. É o amor que lança fora o medo, que supera o egoísmo, que derrota o fracasso, que suplanta a frustração. Retira da obscuridade o homem e estabelece a cumplicidade de uma educação social em que não existe superior nem inferior, mas o ímpeto irrestrito da participação de todos. Paulo Freire ensina que não há educação sem amor.

Apropriando-nos das palavras de Freire, podemos dizer que todo o conhecimento que vem pelo amor possui a excelência da perfeição. Acima de tudo, quem aprende e quem ensina precisa antes do amor. Na verdade, todo conhecimento possui também a culminância da distinção quando se designa ao amor. O amor é a sublimação do saber. Decerto, precisamos de nossas habilidades acadêmicas, mas os nossos atributos humanos são imprescindíveis.

O que faz um aprendente permanecer horas brincando num videogame ou diante de um computador e não suportar, muitas vezes, alguns minutos em sala de aula? O que faz uma criança aprender a utilizar de forma proficiente as novas tecnologias digitais? São os diversos estímulos que as suas dimensões afetivas recebem. Na dialética da alma, a nossa incompletude é superada através do que é qualitativo. Dos diversos predicados que nos sensibilizam, o saber se completa quando é alcançado pelo desejo.

A formação humana do professor começa com a ação do desejo. A ação interior faz do mestre também um aprendente e, por conseguinte, um realizador, pois sonha, não se acomoda, acredita, concretiza, afeta pela necessidade de ensinar e educa pela capacidade de amar. O mais das vezes, nos processos educacionais inclusivos, os alunos necessitam primordialmente de habilidades sociais que lhes darão autonomia. Habilidades que são conquistadas essencialmente por propriedades humanas.

Consoante com essa perspectiva, o repertório das atividades na escola deve ser próximo daquele que contém elementos essenciais das situações cotidianas do educando, aplicados de forma prazerosa, para que ele exerça as habilidades que está adquirindo. A socialização afeta. A questão do afeto ganha cunho especial na escola inclusiva quando a educação descortina para o aprendente, por meio do professor, o seu tempo, a sua cultura e a sua história no caráter da coletividade do ensino.

Se realmente queremos atrair, não cabe na educação mais nenhum modelo que não parta do aprendente. Ademais, para além da subserviência a paradigmas pedagógicos, deverá haver a formação de pessoas criativas e dotadas de habilidades que possam transcender a visão restritiva de um currículo e, de maneira multidisciplinar e interdisciplinar, formar cidadãos para a vida. Nada é mais humano do que a vida.

Eugênio Cunha é Doutor e Mestre em Educação e psicopedagogo. Pesquisador na área educacional, professor da Educação Básica e do Ensino Superior. Autor dos livros: Afetividade na prática pedagógica, Afeto e aprendizagem, Autismo e inclusão e Práticas pedagógicas para a inclusão e diversidade, publicados pela Wak Editora.

 

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