Edição 134

Profissionalismo

Fraternidade e amizade social

Nildo Lage

O planeta precipitou o seu desenvolvimento com receio de ser sobrepujado pela evolução humana e foi abraçado por um futuro prematuro. Abduzido por suas ferramentas, o humano não se deteve: explorou o mundo, outros planetas… Progrediu tanto que decidiu não perder tempo alimentando a aspiração de ser ilha, por não se permitir viver na contramão das evoluções sociais. Quem quer levar uma vida nômade? Acredito que poucos!

A tecnologia compactou o planeta a ponto de fundir culturas e, à medida que rompe o isolamento entre os povos, restringir distâncias. Entretanto, é possível que os amantes da solidão sobrevivam em pontos remotos, suprindo as suas necessidades básicas. Por outro lado, a natureza humana requer contato, relacionamento ou no mínimo ter uma tribo para lembrar que, ainda sendo único, é sociável.

Sem amigos? Até mesmo os indígenas sentineleses, habitantes da Ilha Sentinela do Norte, que faz parte do arquipélago indiano de Andaman e Nicobar, no Oceano Índico, cognominada por uns de proibida, por outros de maldita, não permitem nenhum contato externo, todavia vivem em sociedade.

Tais imposições não são regras impostas pela Índia — onde a maioria da população desconhece a existência da tribo —, mas pela própria etnia, que determinou blindar esse universo único no planeta e sustentá-lo desde a Criação, conservando-se alheios ao próprio universo em que habitam. O isolamento é de tal dimensão que pouco ou quase nada se sabe deles, tão somente que subsistem da coleta de plantas e frutos silvestres, caça e pesca. Tal retraimento os torna uma etnia incompreensível. Não se sabe quantos são nem qual é a língua falada, são exemplares exclusivos da raça humana a não permitirem contato com outros povos e outras civilizações.

O fabuloso é que não são ilhas. Eles têm um mundo peculiar e, apesar de não consentirem contato externo, vivem numa sociedade com preceitos, cerimônias, tradições e crenças, onde os milênios não transformaram os hábitos de uma tribo que impõe essa alternativa de vida por meio da hostilidade.

E nós, civilizados? Artefatos de uma sociedade de direitos, onde obrigações são camufladas e deveres não são desempenhados? Conseguiremos viver como ínsulas se a regra imposta por nós é convivermos — mesmo entre ataques, fugas e conflitos — num apinhado cognominado coletividade?

Como transitar numa sociedade cada vez mais esfacelada pelo desamor e disseminar fraternidade nesse ambiente infectado pela discórdia? É tão desafiante que é falácia para uns; outros recuam só por se ofenderem, por serem chamados de irmãos!

Ante tamanha insensibilidade à dor e aos problemas do próximo, falar de amizade social é provocação! Mas é necessário! Porque é preciso inserir valores sociais para que as relações interpessoais nutram sentimentos como afeição e respeito para abrandar o clima, ventilar solidariedade e compartilhar amor.

O fantástico nesse universo cognominado associação de humanos é que muitos perdem tempo, a própria vida, nutrindo ódio, como se tal sentimento ajustasse a mira da arma de defesa pessoal e, assim, ampliasse a área de contingência da violência. E, como o amor está fragilizado no nosso coração, os conflitos predominam às sombras do mal, e tudo é permitido, porque o desamor impera com tamanha ferocidade que o único alvo não é ser feliz, é suplantar o próximo.

Como correlacionar amizade social com fraternidade?

Para correlacionar fraternidade e amizade para que, da amizade, floresça a integridade, é preciso redirecionar as coordenadas para reencontrarmos o caminho do perdão, para que as pessoas redescubram, na reciprocidade do amor, o sentido da comunhão e possam partilhar não apenas carinho, mas ideias, ações e reações que propiciem uma vivência pacífica.

Para principiar, temos que partir do pressuposto de que fraternidade é cuidar do que o humano tem de mais valioso: a vida! Porque a junção amizade-fraternidade esboça a plataforma respeito-afeição, agenciando um viver fraternal, que institui respeito ao humano.
A urgência nesse processo é atender aos brados dos cancelados; e que o ressoar desse grito desperte a humanidade para respeitar as diferenças culturais, religiosas e de gênero como patrimônio peculiar de cada eu. Não acatar os anseios do universo cognominado outro é assumir que não somos irmãos.

É surpreendente a força que o socioeconômico neoliberal desempenha para dominar e impor regras. Essa força fragmentou a sociedade, que permitiu que os dominantes se resguardassem dos efeitos dos conflitos. Tais ações incitam a criação de zonas de isolamento, onde os bolsões da miséria ostentam a ascensão da eliminação por meio do empobrecimento, facilitando que o eficientismo impere para polarizar uma sociedade que adota uma concorrência irregular.

O alastramento da apatia auferiu cunho de pandemia, salientando que a deficiência de amor é a maior ameaça ao equilíbrio social. A vida foi arremessada na contramão para asseverar a deficiência de tudo: amizade, amor ao próximo e aos próprios entes queridos, convertendo o ambiente familiar num cenário de guerra, porque o desamor acionou as suas armas e progrediu, extinguindo apreço, respeito, compreensão, afeto… É tanta falta que a ausência afetou o amor à vida, que é assolada por causa de nada. Comigo é assim: “Olhou atravessado, se dá mal!”.

Só isso! E não é preciso recorrer à ciência e procurar referências para compreender o porquê de tamanha frieza social. A resposta está no próprio indivíduo humano, que, a cada dia, reduz o amor-próprio para se resguardar do inimigo maior: o próximo! Um simples tropeço na rua é motivo de explosão para esvair a violência contida em si. Por quê? Se somos irmãos e irmãs, por que tamanha agressividade? É questão espiritual ou ideológica que nos impede de sermos misericordiosos com o outro? O que fazer? Como tocar nesse ponto inatingível do humano para sensibilizá-lo a respeitar gênero, raça, crença e cultura?

Se não temos respostas, precisamos encontrar um norte, porque tais ações afetam o emocional, o psicológico e o espiritual, deixando-nos tão expostos que um contratempo do dia a dia se converte em bate-boca. E, se não for contido, no instante seguinte se transforma em agressões; e o desfecho, muitas vezes, em mortes.

O que houve? Nada! O ego abrasou, gritou por reconhecimento! A azáfama para se apossar dessa autonomia foi de tal grandeza que o individualismo revisou suas ferramentas de ataque, partiu para o combate. Não precisou motivo nem impulso para arremeter contra o próximo.

Basta o instinto pressentir um movimento suspeito que reage instantaneamente, porque todos estamos no modo automático, prontos para acompanhar as evoluções do mundo tecnológico, e, para tal, automatizamos o existir para que a vida progrida na velocidade 2X. O ritmo é tão frenético que muitos acreditam estar abrindo caminhos, até se certificarem de que esse precipitar não é estuação para chegar primeiro, contudo assegurar um lugar numa comunidade digital, que não obstrui a correria.

Só que os efeitos do “tudo veloz” estreitam mais e mais a relação do humano com as tecnologias, mas, como toda relação sem controle, é inevitável que se torne tóxica e se converta em patologia. Pois conservar todos os sentidos em alerta acarreta implicações na saúde mental, cuja gravidade pode gerar dificuldades para se relacionar com o tempo, que se torna escasso para a família, os amigos e até para si mesmo.

É inacreditável, mas, à medida que a geração de ferro adormece, a de cristal acrescenta e, na mesma cadência, a temperatura declina pela ausência de calor humano. O clima polar arrefece o amor, o respeito e a própria solidariedade pelo próximo, alargando a distância entre as pessoas. E, à medida que se estende, o espaço é preenchido pelo amor-próprio, incitando o egocentrismo a se aproveitar para impor suas regras e delimitar territórios.

É surpreendente a força que o socioeconômico neoliberal desempenha para dominar e impor regras. Essa força fragmentou a sociedade, que permitiu que os dominantes se resguardassem dos efeitos dos conflitos. Tais ações incitam a criação de zonas de isolamento…”

Como o algoritmo que iça a trincheira de defesa é “eu por mim”, ele determina que o individual se torne regra para redirecionar o próprio enredo, em que o mocinho amor é suprimido pelo protagonista eu, que brada para brilhar; e, para expressar desprendimento, contorna as fronteiras ideológicas para se esquivar de conflitos, forjando um clima de paz para amparar a vivência.

Não é ficção. A apatia acedeu tanto que o meio social se tornou um ambiente gerido pela intolerância. Ninguém suporta ninguém! Amizade? Somente quando for bom para mim! Afeto? Quando os meus desejos são satisfeitos! Amor? Escasso, até entre pais e filhos! É alarmante: o pai não suporta os filhos; esposas não compreendem esposos; vizinhos não conseguem se relacionar sem conflitos, convertendo o descontentamento individual em arma, porque ninguém se prontifica em desativá-lo para se converter num agente de mudanças no seio de uma sociedade que descartou direitos e deveres para que as aspirações subjetivas prevalecessem.

Ser agente colaborador para transformar essa realidade, para muitos, é abordar o extremo. Não tem mais jeito! Esse reflexo é a insatisfação pessoal que governa acondicionada pela indiferença, que bloqueia a visualização da necessidade, a dor do outro. Se o próximo está sedento, faminto e até nu, não é problema meu!

Os reprimidos gritam, e o orgulho dos dominadores rebate, porque ambos, mesmo em níveis diferentes, são governados pela natureza, que determina ação imediata, e, assim, doam ao outro o que não gostariam de receber. Por que perdoar num espaço onde o “ser destaque” é a regra para existir? Para muitos, ceder é se rebaixar, submeter-se ao outro e assumir a abdicação da própria autenticidade.

Entretanto, é preciso ser autêntico para despertar a sensibilidade, olhar ao lado e perceber que os que estão nos arredores podem não ter a mesma força. E ser rico é reter valores que enricam o outro, mesmo que seja com uma simples atitude de estender a mão e retirá-lo do caos da existência.

Assim, viver em comunhão é reter os resquícios do que há de melhor em nós para difundir amor e permitir que esse sentimento se agigante até se tornar barreira para resguardar; forjar o acolhimento como ferramenta que protege, a ponto de se converter em acolhida aos que buscam refúgio em nós.

A chegada a esse patamar ordena mais que amor; é preciso sabedoria para compreender que o que queremos do outro habita em nós, e esse agir recíproco vai além de compartilhar problemas, dividir sonhos e servir. Temos que consentir. E esse permitir é o despertar da compreensão para suprir a ausência de amizade e promover a comunhão que não apenas fortalece o emocional, mas supera a distância entre o próximo e atenua os conflitos da convivência, salientando que solidificar as bases espirituais é impedir que a raiva, o ódio e o rancor alimentem, em nosso coração, a apatia que nos afasta do outro.

Por isso, é preciso que as pessoas se instruam para cultivar, no terreno espiritual, a espécie mais preciosa da vida: a clemência, para que a humanidade possa colher os frutos amor e paz para alcançar a plenitude por meio de indivíduos justos e comprometidos com a vida.

E, mesmo cientes de que não conseguiremos homogeneizar a sociedade para banir os conflitos sociais, se não houver a reconstrução dos alicerces, para que valores familiares sejam resgatados, e o trabalho na amizade como ferramenta para promover o senso de justiça, alargaremos o caos.

A humanidade ainda tem jeito?

Tem! Porque, acima das ambições humanas, que praticam atrocidades para atingir objetivos pessoais e, até mesmo, de grupos, há o EU SOU o Deus Todo-Poderoso, que criou todas as coisas e que está acima de tudo o que acredita ser grande e de todos os que creem reter poder e que podem tudo.

Quando esse Deus está conosco, observamos o tempo e, com esse singelo gesto, aprendemos que o momento viver é um instante único. Percebemos a primeira lição: adquirimos sabedoria para trilhar o caminho que nos conduz ao ponto mais esquadrinhado: o do eu.

O encontro ensina a nos relacionarmos com o tempo denominado agora, e valorizamos cada minuto como último, porque essa consciência é a segunda lição que abrolha como norte: respeitar limites, limitações, culturas e credos. A experiência umedece vozes tão somente para compreendermos que o código de acesso ao outro é o silêncio, para podermos ouvir a paz e, assim, captar os ruídos do existir.

É nessa exploração ao desconhecido que vislumbramos a oportunidade de escutar o eu do próximo, cujos sussurros são gritos que retinem como orientação para convivermos sem conflitos.

No proceder dessa metodologia, a terceira lição desponta como rota para obtermos a grande virtude: respeitar as diferenças, os sentimentos, a fé… O olhar do outro, que maximiza como convite para compreendermos que acolher sem apontar defeitos, falhas e erros dilata a vereda que proporciona acolhida, e aprendemos, nesse contato, a lição maior: perdoar e reconciliar para promover a comunhão, atar o laço que aproxima e, assim, formar o elo entre o próximo, eu, você e Deus.

Para isso, é preciso consciência para que a comunhão conecte pessoas, mesmo com temperamentos, ideais, ideologias e sonhos diferentes. Porque, sem comunhão, sentimentos são asfixiados; relações, rompidas; e a vida deixa de ser plena para se converter numa trajetória de mentiras, enganos e desenganos.

A amizade social aponta o caminho da verdadeira comunhão, alicerçada no amor de Deus. Compartilhá-la oportuniza a nós a propriedade de vivermos plenamente, por nos dar o Norte para esquadrinharmos o olhar do próximo e declararmos: “Você é meu irmão e minha irmã!”.

As ferramentas da comunhão rompem as barreiras do desamor, a ponto de os desníveis sociais, cor, raça, credo, religião… serem disseminados por terra, ao permitir que vertical e horizontal transitem entre as pessoas para que comunhão ganhe consistência. Afinal, comunhões horizontais e verticais convergem para nos levar ao ponto mais almejado: a presença de Deus.

O olhar do outro, que maximiza como convite para compreendermos que acolher sem apontar defeitos, falhas e erros dilata a vereda que proporciona acolhida…”

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