Edição 134

Professor Construir

Fraternidade e amizade social: “Vós sois todos irmãos e irmãs”: a família na construção de um mundo fraterno

Rosangela Nieto de Albuquerque

De acordo com o bispo auxiliar da arquidiocese de Brasília e secretário-geral da CNBB, dom Ricardo Hoepers, o tema e o lema da Campanha da Fraternidade 2024 refletem a preocupação do episcopado brasileiro em aprofundar a fraternidade como contraponto ao processo de divisão, ódio, guerras e indiferença que tem marcado a sociedade brasileira e o mundo (CNBB, 2023).

A Campanha da Fraternidade 2024, dentro do caminho penitencial da Igreja, propõe um convite de conversão à amizade social e ao reconhecimento da vontade de Deus de que todos sejam irmãos e irmãs.

Na conjuntura mundial, ficou evidente a incapacidade de vivermos como irmãos e com uma ação em conjunto. Apesar de estarmos superconectados, estamos tão distantes, e a História dá sinais de regressão na questão humana.

Segundo o Papa Francisco,

“[…] hoje reacendem-se conflitos anacrônicos que se consideravam superados, ressurgem nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos. Em vários países, certa noção de unidade do povo e da nação, penetrada por diferentes ideologias, cria novas formas de egoísmo e de perda do sentido social mascaradas por uma suposta defesa dos interesses nacionais”.

Sabemos que, com a economia neoliberal e cada vez mais globalizada, instrumentalizada pela economia global, sentimo-nos mais sozinhos do que nunca, pois vivenciamos uma cultura do ter, do consumismo, que debilita a dimensão coletiva, que fragiliza os mais pobres e os torna mais vulneráveis e em que prevalecem os interesses individuais.

O neoliberalismo tenta implantar uma proposta de resolver os problemas sociais, mas não consegue solucionar o da desigualdade, produzindo, no tecido social, uma forma de violência. Segundo o cardeal Silva Henríquez, certamente essas “[…] são novas formas de colonização cultural”.

Não nos esqueçamos de que os povos que alienam a sua tradição e — por mania imitativa, violência imposta, imperdoável negligência ou apatia — toleram que se lhes roube a alma perdem, juntamente com a própria fisionomia espiritual, a sua consistência moral e, por fim, a independência ideológica, econômica e política”
(HENRÍQUEZ, 2023).

Essa nova forma de colonização cultural perpassa por um mecanismo evidente de esvaziar o sentido, manipular as pessoas e, portanto, dissolver a consciência histórica, o estado de justiça, o pensamento crítico e a integração. O significado e sentido de justiça, liberdade, democracia foram desfigurados e são utilizados como instrumento de domínio.

Fazer a ruptura entre irmãos talvez seja a melhor maneira de dominação, pois é um mecanismo de instaurar o desânimo e exacerbar a desconfiança, é um instrumento de niilismo de ódio. Dividir os irmãos é uma poderosa estratégia para destruir a fraternidade.

Vivemos um momento em que as pessoas facilmente se desarmonizam, um estado desagregador, onde o respeito se esvaiu, as ideologias estão esvaziadas de ideias, os interesses econômicos, principalmente no mundo digital, exercem o controle das pessoas e manipulam mentes, consciências, e, com isso, transformam os seres humanos em robôs sociais, sem criticidade. As famílias vivem em disfuncionalidade em sua estrutura, promovendo um estado de ansiedade nos seus componentes.

Hoje, alimentamo-nos de telas, temos excesso de conexões; em contrapartida, em isolamento, solidão. Sentimos frequentemente ansiedade, impaciência e temos dificuldade de vivenciar a fraternidade.

O mundo avança para uma visão antropológica reducionista: nosso estilo de vida, as nossas relações, a organização da sociedade e, sobretudo, o sentido da nossa existência.

E as famílias? E as interações entre os membros da família? E a amizade social?

A família é considerada como o primeiro meio social no qual o sujeito desenvolve relações que funcionam como padrões de funcionamento, estrutura e futuras interações sociais. Assim, as interações desenvolvidas nesse ambiente formam o sistema como um todo, e qualquer disfuncionalidade dentro do contexto familiar pode originar o adoecimento dos seus membros.

Para Mioto (1998), a família deve ser percebida como um todo; não pode ser vista de forma isolada em seus membros. Portanto, construir a interação de forma dinâmica é fundamental para desenvolver os sujeitos em fraternidade.

Certamente, as interações que acontecem entre os membros da família não se dão sem uma organização. De acordo com Mioto (1998), esses padrões são mantidos através de regras universais que regulam as famílias e de outras regras criadas por cada unidade familiar, estabelecidas pela estrutura e por relações mútuas de seus membros.

A família, sendo assim, é um contexto de interação dinâmica que sofre influências dos membros participantes do núcleo familiar, assim como dos fatores externos, como ambientes, instituições, sociedade e cultura.

Hoje, observam-se o alto índice de adoecimento psíquico nos sujeitos e uma significativa porcentagem de ansiedade infantil.

Para Matos et al. (2015), a ansiedade infantil é atravessada por fatores de influência genética, biológica e ambiental. Desse modo, os fatores genéticos podem ocorrer quando há influência dos pais/antepassados com algum diagnóstico de quadro psiquiátrico, como, por exemplo, hiperatividade, esquizofrenia, desordens antissociais. Os fatores biológicos podem ser identificados em crianças desnutridas, com algum atraso no desenvolvimento global ou que nasceram prematuras; e os fatores ambientais podem ser considerados como eventos estressores vividos pelas crianças, afetando o modo como elas emitem respostas aos estímulos e podendo causar alterações em sua vida que acarretam mudanças na estrutura familiar.

No que se refere à ansiedade, Castillo (2000, p. 1) afirma que é como “[…] um sentimento vago e desagradável de medo, apreensão, caracterizado por tensão ou desconforto derivado de antecipação de perigo, de algo desconhecido ou estranho”.

Assis et al. (2007) relata que os conflitos conjugais; as práticas educativas parentais; a forma como se processa a comunicação; o relacionamento entre irmãos; a crença dos pais nos filhos; como cada membro assume seu papel; a maneira como a família lida com o conflito; e a forma como ela lida com os limites são fatores que podem estar associados ao desenvolvimento de ansiedade na infância.

Nesse contexto, quando a ansiedade passa a ser exagerada e desproporcional em relação ao estímulo, torna-se patológica e passa a ser descrita como transtorno de ansiedade (TA). Conforme o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V), transtorno de ansiedade pode ser compreendido como uma patologia que possui características de medo e ansiedade excessivas e perturbadoras. O medo está associado a períodos de excitabilidade, com momentos de luta ou fuga e pensamentos de perigo imediato. Já a ansiedade está associada a tensão muscular e estado de vigilância em relação a perigos futuros, apresentando cautela ou esquiva (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014).
Temos uma geração de crianças e adolescentes extremamente ansiosos, agitados, compulsivos e imediatistas. Muitas vezes, crianças sem limites, exigentes, com energia acumulada e facilmente diagnosticadas — na maior parte das vezes, de forma equivocada — com hiperatividade, déficit de atenção, ansiedade, depressão e outros problemas emocionais e comportamentais.

O ambiente familiar pode afetar a saúde social e emocional dos indivíduos. O fator familiar é um elemento de fundamental importância na construção do sujeito.

Os estudos apontam que a forma como se estabelecem as relações entre pais e filhos conduz à formação do próprio funcionamento interno dos sujeitos em desenvolvimento.

Segundo Dessen e Polonia (2007), o sistema familiar é considerado a matriz da identidade responsável pelo processo de socialização infantil, o qual contribui para o desenvolvimento da personalidade, possibilitando aprender a resolução de conflitos, o controle das emoções e a lidar com o diferente e com as dificuldades da vida.

Portanto, cabe à família buscar desenvolver a capacidade de construir equilíbrio entre aquilo que opera internamente e o que vem de forma externa, com o objetivo de desenvolver um sistema equilibrado e que busque a continuidade familiar (JANSEN, 2007).

“Hoje, observam-se o alto índice de adoecimento psíquico nos sujeitos e uma significativa porcentagem de ansiedade infantil.”

A família, além do seu caráter dinâmico e influenciador dos comportamentos dos indivíduos, é considerada como o principal meio para o desenvolvimento humano. Na família, constitui-se o sujeito voltado para a amizade social, que está ancorada no âmbito da fraternidade, da prática comprometida com a solidariedade e de uma ativa compaixão.

O Papa Francisco, ao usar amizade social como subtítulo da encíclica, manifestou o desejo de alargar esse conceito e elevá-lo ao nível de, realmente, acolher a todos, com a inclusão dos pobres, dos abandonados, dos doentes e dos últimos da sociedade, com a prática comprometida da solidariedade humana.

Para o Papa Francisco, a amizade social é a prática de: sentir-se livre nas relações internacionais, com a unidade das nações; a necessidade de agir e sonhar coletivamente, com visão solidária e abertura aos interesses de todos; os poderes econômicos voltados ao interesse do bem comum. O Papa enfatiza ainda que não devemos aceitar convites para ignorar a História ou deixar de lado a experiência dos mais velhos, pois estas “[…] são as novas formas de colonização cultural” (cf. FT, 13-14).

É importante enfatizar que a proposta da amizade social tange a necessidade do reconhecimento da dignidade humana, de respeito à criação e ao divino; assim, há um futuro possível. Para tal, transitamos pelo entendimento da necessidade de um mundo unido, em busca pela paz e pelo respeito mútuo, com justiça e equilíbrio socioeconômico, com um olhar para o irmão que está ao nosso lado.

O Papa enfatiza ainda que não devemos aceitar convites para ignorar a História ou deixar de lado a experiência dos mais velhos, pois estas ‘[…] são as novas formas de colonização cultural’
(cf. FT, 13-14).”

A construção da amizade social se inicia na família… Ela deve incluir os mais frágeis, os mais pobres, respeitar as diferenças culturais. A amizade social se pauta na unidade, e a coletividade, portanto o melhor para a vida em sociedade, vai além de propor ou executar ações benéficas. “Somente assim será possível não excluir ninguém, gerando um verdadeiro sentimento universal de quem olha para a sua gente com amor” (cf. FT, 99).

Considerações finais

Observa-se hoje a fragilidade fraterna entre os irmãos e as irmãs. O mundo mudou, as pessoas se constituem como uma estrutura voltada para pensar em si mesma. Declina-se de uma carência de amizade social, de empatia, de valores e princípios fundamentais para se viver em coletividade. Falta-nos a amizade social… precisamos construí-la…

As famílias, que passam por períodos de mudanças, apresentam dificuldades psicossociais, isto é, na relação direta com a estrutura familiar e suas interações.

À família, cabe a construção da amizade social. Segundo a Campanha da Fraternidade 2024,

“Devemos ir além dos próprios limites, das próprias regiões e países, e envolver todo o planeta, conscientes da busca incansável da unidade e da partilha entre as nações da Terra, na harmonia de irmãos que cuidam uns dos outros” (cf. FT, 75/96).


Rosangela Nieto de Albuquerque é ph.D. em Educação (Universidad Tres de Febrero), pós-doutoranda em Psicologia, Doutora em Psicologia Social (Universidad John Kennedy), Mestre em Ciências da Linguagem, psicanalista clínica, professora universitária de cursos de graduação e pós-graduação, psicopedagoga clínica e institucional, pedagoga, licenciada em Letras (Português/Espanhol), neuropsicopedagoga, neuropsicóloga clínica, autora de projetos em Educação e da implantação de uma clínica-escola de Psicopedagogia Clínica como projeto social e autora e organizadora de treze livros nas áreas da Educação e da Psicologia.

E-mail: rosangela.nieto@gmail.com

Referências

AMADO, Dom Joel Portela; VENÂNCIO, Maria Aparecida: HANSEN, Pe. Jean Poul. Texto-base: Campanha da Fraternidade. ISBN: 9786559752300.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais ­— DSM-V. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

ASSIS, S. G. D. et al. Ansiedade em crianças: um olhar sobre transtornos de ansiedade e violências na infância. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2007.

CASTILLO, A. R. G. L. et al. Transtornos de ansiedade. Rev. Bras. Psiquiatr. v. 22, n. 2, 2000. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/rbp/v22s2/3791.pdf. Acesso em: 28 out. 2023.

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2024 – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

DESSEN, M. A.; POLONIA, A. C.
A família e a escola como contextos de desenvolvimento humano. Paidéia, v. 17, n. 36, p. 21-32. 2007.

JANSEN, M. D. C. C. Saúde mental e estrutura familiar: o lugar do sofrimento psíquico grave. 2007. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica e Cultura). Universidade de Brasília, Brasília, DF, 2007.

MATOS, M. B. D. et al. Eventos estressores na família e indicativos de problemas de saúde mental em crianças com idade escolar. Ciênc. Saúde Coletiva, 2015, v. 20, n. 7, p. 2157-2163. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/csc/v20n7/1413-8123-csc-20-07-2157.pdf. Acesso em:
28 out. 2023.

MIOTO, R. C. T. Família e saúde mental: contribuições para reflexão sobre processos familiares. Katálysis, Florianópolis, n. 2, p. 20-26, 1998. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/katalysis/article/view/5573/4974. Acesso em:
28 out. 2023.

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