Edição 146
Em discussão
INFÂNCIA, LEITURA E FORMAÇÃO NA LITERATURA BAIANA DE MÁRCIA MENDES E EMILE LIMA
Eduarda Queiroga

Reprodução
A literatura infantil é uma das áreas mais generosas do campo educacional: nela, o encantamento se torna ferramenta pedagógica aliada à didática. Em um tempo em que o ensino tende a medir resultados, os livros para crianças nos lembram que aprender também é sentir, observar, criar e cuidar. A leitura literária oferece à infância o direito ao imaginário e, ao fazê-lo, devolve ao educador a dimensão poética do ensinar. Entre palavras, cores e emoções, o texto literário abre brechas para que o conhecimento se torne experiência e a experiência se torne compreensão de mundo.
Nas obras de Márcia Mendes e Emile Lima, essa pedagogia poética do encantamento encontra sua forma mais viva. Ambas são autoras baianas que escrevem com os pés fincados na terra e os olhos voltados para o afeto. Márcia é professora, contadora de histórias e poeta, idealizadora da iniciativa Um livro para chamar de meu, que, desde 2017, vem doando livros a crianças que não têm acesso à leitura e desenvolvendo projetos de contação de histórias em escolas, feiras literárias e lives on-line. Emile, pedagoga e psicóloga clínica infantil e escolar, transforma o sentir em matéria de linguagem, traduzindo o que é emocional em texto literário.

Reprodução
Emile Lima, em Sari na Sapiranga, apresenta um pequeno sariguê que cai de uma árvore, mas, em suas que das, espalha sementes que germinam pela Reserva Sapiranga. Na obra, publicada em 2025 e ilustrada por Daniel Dias, a autora fala de medo, fragilidade e reconstrução com leveza poética, mostrando que os tombos também são formas de aprender e que ser quem somos já é o bastante. “Esta não é uma história sobre quedas, é sobre o que cresce depois delas”, escreve — e essa frase resume seu modo de ver não apenas a infância, mas a vida: como terreno fértil em que as experiências, mesmo as difíceis, fazem florescer coragem e esperança.
Em A gata que não era xadrez, publicado em 2019 e ilustrado por Marcelo Cardinal, Márcia Mendes transforma um quintal de gatos e gatas em um universo de convivência e descoberta. A história, nascida de uma experiência em sala de aula, carrega a organicidade da escuta infantil: é um texto que nasce do brincar e retorna ao brincar como forma de compreender o mundo. No quintal de Dona Flor, onde onze gatos e gatas convivem, cada cor e cada gesto revela um modo singular de existir. Quando surgem os “bichos mandões”, a autora introduz, com delicadeza, a ideia de solidariedade e resistência coletiva: “Ninguém larga as patinhas”. O texto fala à infância sem simplificá-la, reconhecendo a criança como sujeito capaz de compreender o poder e a injustiça por meio das imagens que ela própria reconhece: os gatos, as cores, o quintal, o brincar
No livro Quem é Amora?, a autora parte de uma situação simples — uma adivinhação coletiva — para celebrar o poder da leitura como descoberta. Na narrativa de Márcia Mendes, publicada em 2024, com ilustrações de Rodrigo Candido, acompanhamos a menina Aina e seus colegas enquanto tentam desvendar quem é Amora, brincando com letras, sílabas e sentidos. O processo de alfabetização aparece como jogo e como encontro: “Quando lemos, levantamos as palavras que dormem dentro do texto”. O mistério serve de pretexto para explorar o prazer de ler, observar, deduzir e criar, em uma história cheia de humor, ritmo e oralidade, aproximando-se da fala cotidiana das crianças.

Reprodução
Em Léo, o camaleão, a autora aborda o autoconhecimento emocional. O livro teve sua primeira edição publicada em 2024, com ilustrações de Marcelo Cardinal. Léo é um camaleão que teme mudar de cor e, por isso, evita os sentimentos. Aos poucos, guiado pelos amigos da floresta, ele descobre que sentir é o que o torna vivo e que a mudança não é ameaça, mas possibilidade. No final, Emile convida o leitor a observar o próprio corpo e a reconhecer suas emoções, em uma experiência de autoconhecimento compartilhada.
Por fim, Qual é a cor da sua emoção?, também de Emile Lima, convida as crianças a conhecerem a Turma da Cachola Criativa: personagens que personificam as emoções primárias que perpassam a vida dos pequenos. Cada emoção é apresentada com leveza e empatia, mostrando aos leitores que sentir é natural e que todas as emoções têm lugar dentro de nós. O texto, publicado em 2023 e ilustrado por Sabrina Abreu, rompe com a ideia de emoções “boas” ou “ruins”, abordando a ideia da autorregulação sem repressão dos sentimentos.
Tanto Quem é Amora? quanto Sarina Sapiranga fazem parte do projeto Um livro para chamar de meu, e os livros Qual é a cor da sua emoção? e Quem é Amora? trazem versões acessíveis em Libras. Esses gestos ampliam o público leitor e reafirmam a literatura como direito da infância.
Há um fio comum que costura as cinco obras: a confiança de que a criança pode participar ativamente do que lê. Quando a história convida a observar letras, a escutar o corpo, a cuidar do colega, a leitura se transforma em espaço de descoberta e experiência.
Nesses livros, os recursos de acessibilidade e as iniciativas sociais não são complementos, mas parte da mesma convicção: toda infância tem direito a uma história que a considere.
Se Márcia constrói um espaço coletivo, onde a aprendizagem nasce do brincar e da convivência, Emile volta-se para o interior do sujeito leitor, onde cada emoção se revela como descoberta. Uma fala de fora, outra de dentro — mas ambas dialogam na mesma direção: a formação de crianças sensíveis, curiosas e conscientes de si. Ter a oportunidade de ler os livros dessas duas autoras é perceber que a literatura infantil continua sendo o lugar onde o aprendizado mais genuíno acontece: no encontro entre emoção, linguagem e imaginação.
Ter a oportunidade de ler os livros dessas duas autoras é perceber que a literatura infantil continua sendo o lugar onde o aprendizado mais genuíno acontece.
