Edição 134

Espaço pedagógico

Lição de casa é uma tortura

Marcos Meier

Professor Marcos,

toda vez que tem lição de casa, minha casa vira um inferno. Eu mando minha filha fazer, aí ela diz: “Já vou, mãe”, e não vai.

Quando pergunto se já fez, ela diz que já, mas a escola vive me enviando bilhetes na agenda dizendo que ela não tem feito as lições. Já coloquei de castigo, e não adiantou. Já briguei, prometi presentes, elogiei, e nada. Parece que nem me ouve. Eu já estou desistindo, mas resolvi perguntar para o senhor como última tentativa. O que faço?

Um abraço.
Audrey


Respondendo

Oi, Audrey

Muitos pais têm me perguntado a respeito de lição de casa. Você não está sozinha nessa dificuldade. Eles perguntam: precisa fazer mesmo? Não é muita carga em cima dessas crianças tão pequenas? Por que fazer? Não é melhor que as crianças brinquem, descansem ou se divirtam?

Vamos às respostas.

A aprendizagem tem algumas fases bem definidas. A primeira delas é a aula em si, o momento da construção do conhecimento pela criança. Nessa fase, muitos conceitos aprendidos ficam armazenados na memória de curto prazo. A criança esquece tudo em pouco tempo, em poucas horas.

Em seguida, quando a criança faz a lição de casa ou quando relê o caderno, estuda, faz algum exercício, resolve um problema, o cérebro leva as informações que estão na memória de curto prazo para a memória de longo prazo. Esse processo só acontece quando o cérebro percebe a necessidade de usar novamente a informação. Se a criança não precisa usar o que aprendeu, o cérebro entende que não precisa guardar essa informação. Como um número de telefone que alguém nos pede para memorizar até que o anote. Nos minutos seguintes, depois de repeti-lo para o amigo, não o lembraremos mais.

Em terceiro lugar, vem a fixação, que ocorre durante o sono profundo. Nesse período, o cérebro recebe a liberação do hormônio do crescimento, da leptina, do cortisol, etc. Toda essa química ativa a fixação das informações que estão na memória de longo prazo, impedindo-as de serem esquecidas. Pelo menos, não enquanto forem necessárias. Essa fixação ocorre, portanto, durante um período do sono de qualidade, do sono restaurador. Dormir bem é importantíssimo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um período de mais de oito horas de sono para crianças de até 10 anos de idade. (Os pesquisadores divergem muito na questão da quantidade, mas a maioria recomenda mais de oito horas.)

Se a criança não dorme adequadamente, acaba não tendo todas as horas de que seu corpo necessita para processar as informações aprendidas durante o dia. Ela não grava, não fixa, não retém, não memoriza o que anda aprendendo na escola ou no seu dia a dia.

Além disso, se não faz a lição ou não revisa o que foi aprendido naquele dia, não haverá nada na memória de longo prazo a ser fixado. E as informações vão se apagando da memória.

Por isso, aí vão algumas dicas.

Converse com seu filho sobre o que ele aprendeu.

— Filho, o que você aprendeu hoje?
— Não me lembro de nada!
— Hummm, teve recreio?
— Teve.
— Vocês foram ao parquinho?
— Claro.
— Que legal! Uma coisa você já lembrou! Que bom! E depois? Vocês entraram e foram desenhar, pintar, ouvir uma história ou o quê?

E assim vai. A criança percebe que tem que prestar atenção para poder responder a essas perguntas. Isso a incentiva a ficar mais “ligada” durante as atividades.

Muitos pais perguntam aos filhos “E aí, filho, como estão suas notas na escola?” e, com isso, mostram aos filhos que não importa se aprenderam ou não, o que importa é que tirem boas notas. Isso é muito pobre! Melhor seria perguntar todos os dias ao filho: “E aí, filho, o que você aprendeu hoje?”. Depois, ele se acostuma a responder e começa a prestar ainda mais atenção nas aulas.

Voltando para o problema de fazer a lição, a melhor forma de ajudar é desligar a TV, pedir a outras crianças que brinquem em outro espaço, enfim, garantir que o momento da lição seja agradável e realmente aconteça. Essa deve ser a ajuda. É um crime fazer a lição pela criança.
Se todos os dias houver o momento da lição, vira hábito; e logo não será mais necessário mandar a criança fazê-la.

Não é nada fácil garantir esse espaço e criar o hábito de estudar, mas é fundamental para que a criança possa desenvolver autonomia na aprendizagem.

E, com autonomia, não vai mais ser necessário mandar!

Um pouco de teoria

Formação de hábitos

Como fazer com que os filhos façam a lição de casa sem ter que brigar todos os dias para que isso aconteça? Como convencê-los a escovar os dentes após as refeições? Formando hábitos. Em minhas palestras, proponho algumas condições para a formação de hábitos.

A – Constância. Para formar um hábito, é necessária disciplina. Nada de começar e desistir pelo caminho ou mudar frequentemente a forma de executar a ação, o lugar, o horário. Para construir hábitos, é necessário que não haja variações bruscas nas características da ação que se quer transformar em hábito.

B – Continuidade. Muitas pessoas começam, desistem, retomam… Isso, definitivamente, não ajuda na construção de hábitos. É muito importante que haja a repetição incessante da ação. Seu filho precisa perceber que sempre vai ter que estudar, arrumar o quarto, tomar banho, escovar os dentes, ler. Perceber que não há como interromper o processo ajuda a entender que essas coisas são para sempre.
C – Recompensa. Inicialmente, a recompensa pode ser externa, como um presente material. Entretanto, o ideal é que o presente seja emocional, um elogio, um abraço, um sorriso. Verbalize sua satisfação em ver seu filho percebendo o quanto é bom agir da forma esperada, adequada à vida social inteligente. Logo, os elogios podem se tornar mais escassos, pois a satisfação interna passa a tomar conta de seu filho. Ele começa a ter prazer naquilo que faz. A recompensa passa a ser interna.

D – Contextualização. Seu filho precisa perceber por que ele necessita agir conforme você solicitou ou determinou. Explique as causas, as consequências, as interligações do comportamento esperado com outras áreas da vida dele, qual é a utilidade, a razão, as origens do seu pedido. Explicar a existência de bactérias nas mãos facilita à criança lembrar-se de lavá-las. Compreender o contexto ajuda seu filho a perceber que não é apenas imaginação sua ou autoritarismo. Ele passa a entender que vai precisar aprender muitas coisas para que a vida dele se torne ainda melhor.


MEIER, Marcos. Desligue isso e vá estudar: orientações práticas para os pais. São Paulo: Fundamento Educacional, 2014.

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