Edição 115

Projeto Didático

MESTRE VITALINO: uma experiência interdisciplinar no contexto das comemorações juninas escolares

Aline Jaislane de Souza Tavares
José Ricardo Lopes Ferreira

Resumo

Este artigo objetiva apresentar uma experiência fundamentada em um projeto interdisciplinar com alunos do 2º ano do Ensino Fundamental, anos iniciais, de uma escola da rede privada da cidade de Maceió/AL. O projeto foi estruturado a partir dos estudos sobre metodologias ativas, no intuito de promover uma aprendizagem crítica e significativa no contexto das comemorações juninas com o tema Mestre Vitalino: mãos que dão vida ao barro. A pesquisa apresenta um enfoque qualitativo descritivo, tipo relato de experiência. O grupo participante foi composto por dezessete alunos do 2º ano do Ensino Fundamental de uma escola privada de Maceió. Para coletar os dados, foram adotados um diário de campo e registros audiovisuais. Os dados foram analisados a partir da técnica da Análise de Conteúdo. Concluiu-se que o projeto promoveu aos estudantes, sujeitos ativos no processo de ensino e aprendizagem, desenvolver habilidades como autonomia, tomada de decisão e estímulo à busca pelo conhecimento.

PALAVRAS-CHAVE:
Educação Básica,
metodologias ativas,
aprendizagem.

Introdução

A educação na atualidade, de acordo com Ramos e Xavier (2017), tem se deparado com o desafio de superar a lógica de um processo de ensino e aprendizagem fundamentada no mecanismo de transmissão, memorização e reprodução dos conhecimentos.

Essa perspectiva coloca o estudante como um espectador da aula, de modo que arrume uma postura passiva no processo de ensino e aprendizagem. Nesse cenário, o professor é visto como protagonista e detentor do conhecimento e, em certas ocasiões, o transmite de forma padronizada, desconsiderando as especificidades dos estudantes, os conhecimentos prévios e os aspectos culturais e sociais em que a escola se encontra.

Frente ao exposto, este artigo objetiva apresentar uma experiência fundamentada em um projeto interdisciplinar. A motivação para o desenvolvimento do projeto parte da necessidade de atribuir sentido e significado para as apresentações desenvolvidas nas comemorações juninas.

Portanto, justifica-se à medida que desenvolve uma experiência no contexto da sala de aula que visa superar o modelo reprodutivista de apresentações, que costumam não dialogar com o projeto pedagógico da escola, promovendo a construção do conhecimento crítica e significativa para o estudante.

Para isso, foi estruturado um projeto interdisciplinar que contemplasse os aspectos sociais, históricos e artísticos do período junino. Desta forma, a escolha do tema norteador se deu em virtude de homenagear os 110 anos do ceramista Vitalino Pereira dos Santos, conhecido popularmente como Mestre Vitalino.

A pesquisa apresenta um enfoque qualitativo descritivo do tipo relato de experiência. O grupo participante foi composto por dezessete estudantes do 2º ano de uma escola privada da cidade de Maceió, com idades compreendidas entre 6 e 7 anos, sem distinção de gênero.

Para coletar os dados, foram adotados um diário de campo e registros audiovisuais. Os dados foram analisados a partir da técnica da Análise de Conteúdo e sistematizados em quatro etapas para melhor entendimento dos leitores, são elas: (i) Mapeamento inicial; (ii) Problematização; (iii) Desenvolvimento; e (iv) Culminância.

As metodologias ativas

Para Morán (2015), entende-se metodologias ativas como um conjunto de estratégias didáticas sistematizadas em atividades complexas, que demandam tomada de decisão, trabalho colaborativo, pensamento crítico e estímulo à criatividade.

Em consenso, Berbel (2011) afirma que as metodologias “[...] baseiam-se em formas de desenvolver o processo de aprender, utilizando experiências reais ou simuladas, visando às condições de solucionar, com sucesso, desafios advindos das atividades essenciais (p. 29)”.

Nesse sentido, a construção do conhecimento acontece a partir de um cenário, estruturado pelo docente, que envolve a resolução de problemas ou situações reais que, possivelmente, ele venha a encontrar na vida profissional ou ainda no decorrer da sua formação (MORÁN, 2015).

As metodologias ativas, de acordo com Mattar (2017), convidam o estudante a participar de forma ativa do processo de ensino e aprendizagem a partir de diferentes perspectivas. Desse modo, desenvolvem-se as habilidades e competências, por meio de experiências colaborativas com fundamentos interdisciplinares (CAMARGO, 2018).

O mapa conceitual a seguir (Figura 1) representa as características das metodologias ativas com base em Camargo (2018), ao destacar que sua incorporação promove contribuições significativas para o desenvolvimento profissional e pessoal dos estudantes.

Para isso, é necessário um cenário personalizado que seja favorável para proporcionar a aprendizagem dos conceitos e o desenvolvimento de habilidades metacognitivas, que estão ligadas ao conhecimento, que auxiliam na escolha da estratégia pertinente para cada situação.

Autores como Camargo (2018), Morán (2015), Berbel (2011) e Mattar (2017) concordam que as metodologias ativas pressupõem uma nova postura do professor. O professor se torna responsável por criar cenários de aprendizagens que estimulem o raciocínio dos estudantes, a tomada de decisão, a autonomia, o trabalho colaborativo, a resolução de problemas e a reflexão crítica.

Camargo (2018) destaca que as metodologias ativas buscam fomentar no estudante a visão empreendedora transdisciplinar e motivar a produção de ideias, conhecimentos e sua reflexão; elas estimulam o desenvolvimento holístico do estudante.

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Figura 1 – Mapa conceitual sobre as características das metodologias ativas

Percurso metodológico

A pesquisa apresenta um enfoque qualitativo descritivo do tipo relato de experiência e tem como principal objetivo apresentar uma experiência fundamentada a partir de um projeto interdisciplinar referente às comemorações juninas.

O grupo participante foi composto por 17 estudantes, sem distinção de gênero, com idades compreendidas entre 6 e 7 anos. Estes, matriculados no 2º ano do Ensino Fundamental numa escola particular do município de Maceió/AL.

Para a coleta de dados, foram adotados registros audiovisuais e um diário de campo, utilizados para registrar as situações de construção do conhecimento por parte dos estudantes em todo o percurso do projeto.

Os dados foram analisados a partir da técnica da Análise de Conteúdo (BARDIN, 2010) e sistematizados em quatro etapas para melhor entendimento dos leitores, são elas: (i) Mapeamento inicial; (ii) Problematização; (iii) Desenvolvimento: uma construção interdisciplinar; e (iv) Culminância, intitulada Mestre Vitalino: mãos que dão vida ao barro.

O projeto Mestre Vitalino: mãos que dão vida ao barro foi dividido em quatro etapas, descritas detalhadamente neste tópico do trabalho. O Mapeamento inicial tratou de se aprofundar nos conhecimentos prévios dos estudantes a partir do lançamento da temática. Na Problematização, foram desenvolvidas discussões acerca do conhecimento prévio dos estudantes, das pesquisas realizadas e do documentário proposto pela professora. O Desenvolvimento trouxe como se deu o trabalho interdisciplinar entre os componentes curriculares Artes, Língua Portuguesa, Música e Educação Física. Por fim, a Culminância do projeto, que foi composta pela apresentação artística de doze estudantes.

Mapeamento inicial

Como abordagem inicial, foi apresentado aos estudantes o tema escolhido para o projeto, relacionado às apresentações juninas da escola, em uma roda de conversa que partiu da seguinte problemática: “Vocês conhecem o Mestre Vitalino?”. A princípio, identificou-se que os estudantes não conheciam o ceramista; no entanto, alguns conheciam os bonecos de barro e a feira de Caruaru.

Frente a isso, foi proposto o desenvolvimento de uma pesquisa sobre a biografia, as obras e o impacto artístico do Mestre Vitalino. Os estudantes foram orientados a procurar em livros, em conversas com os familiares e em sites da web.

Problematização

Na aula seguinte, a professora iniciou com uma roda de conversa no intuito de verificar os resultados das pesquisas desenvolvidas pelos estudantes. Dados do diário de campo mostram que as pesquisas identificaram elementos como nome completo do artista, data e local de nascimento, como desenvolveu sua carreira de ceramista, suas principais obras e data e local de falecimento.

Em seguida, a professora indagou sobre a importância do trabalho do Mestre Vitalino como patrimônio nordestino. Os estudantes disseram que as imagens produzidas pelo ceramista se voltavam para elementos da realidade em que ele vivia, na região Agreste do Estado de Pernambuco.

Diante disso, foi feita a reprodução do documentário: Mestre Vitalino1, com o objetivo de apresentar informações sobre vida e obras de Vitalino, narrado por amigos e familiares. Desta forma, buscou-se desenvolver uma abordagem que contemplasse os diferentes estilos de aprendizagem.

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Figura 2 – Reprodução do documentário Mestre Vitalino

Posteriormente à exibição do documentário, os estudantes expuseram algumas comparações das informações relatadas no vídeo e as pesquisas que realizaram, como a quantidade de filhos de Vitalino. Além disso, ficaram surpresos com os artesãos que deram continuidade ao trabalho do Mestre na produção de objetos de barro e com a existência de um museu sobre a vida de Vitalino na sua antiga residência. Para concluir essa etapa, foi discutido, detalhadamente, com os estudantes de que forma o projeto seria desenvolvido, quais disciplinais seriam contempladas e como se daria a culminância do projeto.

1 https://www.youtube.com/watch?v=g8qZqetKC5E

Desenvolvimento: uma construção interdisciplinar

Após a etapa de problematização, foram sistematizadas atividades voltadas para a vida e obra do Mestre Vitalino, distribuídas por afinidade nos componentes curriculares Artes, Língua Portuguesa, Música e Educação Física, em busca de uma visão interdisciplinar para o tema. Essa etapa teve a duração de duas semanas que antecederam a culminância do projeto.

Como atividade desenvolvida no componente curricular de Artes, foram confeccionadas obras de argila inspiradas nos trabalhos de Mestre Vitalino. Essa etapa teve a duração de duas semanas. Na primeira semana, foi proposta aos estudantes a construção da escultura com argila. Eles tiveram a liberdade para escolher um objeto para representar em sua obra. Na semana seguinte, após a secagem dos objetos de argila, os estudantes pintaram as obras.

Na disciplina de Língua Portuguesa, foram trabalhadas as letras das músicas que compuseram a apresentação realizada na culminância deste projeto. Os estudantes pesquisaram, em casa, a letra da música Vitalino centenário2, de Onildo Almeida, e da música Deus do barro3, de Petrúcio Amorim, sendo orientados a identificar as palavras das quais não conheciam o significado. Na aula seguinte, em pequenos grupos, procuraram no dicionário o significado das palavras destacadas.

No componente curricular Música, junto ao professor, os estudantes realizaram os recortes necessários nas músicas para o dia da apresentação. Também realizaram a gravação da introdução da apresentação junina, um pequeno texto narrado por eles sobre a vida de Mestre Vitalino.Pintura_na_argila

Figura 3 – Pintura das obras em argila

 

Mestre Vitalino: mãos que dão vida ao barro

As produções dos estudantes nos componentes curriculares de Artes, Língua Portuguesa, Música e Educação Física, no percurso deste projeto, resultaram na culminância intitulada Mestre Vitalino: mãos que dão vida ao barro, que se tratou de uma apresentação artística composta por doze estudantes para contextualizar a vida e a obra do artista. Os estudantes se apresentaram caracterizados como bonecos de cangaceiros feitos pelo Mestre Vitalino.

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Figura 4 – Construção da coreografia

A construção da coreografia ocorreu a partir das vivências na disciplina de Educação Física a partir do conteúdo danças. Primeiramente, em uma roda, foram discutidas quais danças do ciclo junino eles conheciam. Os estudantes identificaram manifestações como coco de roda, quadrilha junina, danças sertanejas e forró. A partir disso, a coreografia foi desenvolvida de forma colaborativa.

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Figura 5 – Apresentação Mestre Vitalino: mãos que dão vida ao barro

Em linhas gerais, o projeto desenvolvido proporcionou contribuições significativas para o processo de ensino e aprendizagem a partir da temática proposta. Notou-se que a abordagem adotada estimulou a participação e o envolvimento dos estudantes no decorrer do projeto.

Considerações finais

Este artigo se concentrou em apresentar uma experiência fundamentada em um projeto interdisciplinar com alunos do 2º ano do Ensino Fundamental de uma escola da rede privada da cidade de Maceió/AL. O desenvolvimento da intervenção resultou em significativas considerações acerca do processo de ensino e aprendizagem.

A princípio, notamos que a metodologia ativa adotada para a intervenção contribuiu para a motivação e o engajamento dos estudantes nas atividades que envolviam o projeto, de modo que a abordagem superou a abordagem conteudista, propiciando o desenvolvimento de habilidades como autonomia, tomada de decisão, argumentação e estímulo pela busca ao conhecimento.

A abordagem interdisciplinar em que foi estruturado o projeto proporcionou ao estudante uma visão ampla acerca do fenômeno estudado, de modo que o processo de ensino e aprendizagem promoveu o diálogo entre os componentes curriculares: Artes, Língua Portuguesa, Música e Educação Física. Deste modo, o projeto propiciou a ruptura da fragmentação disciplinar, demonstrando que os conhecimentos possuem uma interligação.

Os dados levantados neste estudo nos permitem afirmar que a metodologia desenvolvida colaborou para o desenvolvimento de uma aprendizagem crítica e significativa para as tradicionais comemorações juninas. Assim, nota-se que foram atribuídos sentido e significado para o conteúdo danças do componente curricular Educação Física, produzindo uma discussão profícua para os estudantes acerca dos aspectos históricos, sociais e artísticos da apresentação desenvolvida.

Alcançamos todos os objetivos propostos, divulgando uma experiência de abordagem interdisciplinar.

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BERBEL, N. A. As metodologias ativas e a promoção da autonomia de estudantes. Semina: Ciências Sociais e Humanas, Londrina, v. 1, n. 32, p. 25-40, jun. 2011.

CAMARGO F. Por que usar metodologias ativas de aprendizagem. In: CAMARGO, F; DAROS, T. A sala de aula inovadora: estratégias pedagógicas para fomentar o aprendizado ativo. Porto Alegre: Penso, 2018.

MATTAR, J. Metodologias ativas para a educação presencial, blended e a distância. São Paulo: Artesanato Educacional, 2017.

MORÁN, J. Mudando a educação com metodologias ativas. In: Convergências Midiáticas, Educação e Cidadania: aproximações jovens. Coleção Mídias Contemporâneas, 2015. Disponível em: http://www2.eca.usp.br/moran/wp- content/uploads/2013/12/mudando_moran.pdf. Acesso em: 12 jul. 2019.

RAMOS, R. L.; XAVIER, A. Pokémon Go: possibilidades e interfaces com a prática educativa. In: ALVES, L.; TORRES, V. (Org.). Jogos digitais, entretenimento, consumo e aprendizagens: uma análise do Pokémon Go. Salvador: Edufba, 2017.

Aline Jaislane de Souza Tavares é Especialista em Língua Brasileira de Sinais pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), licenciada em Pedagogia pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e docente da Educação Básica.

E-mail: alinetavares285@gmail.com.

José Ricardo Lopes Ferreira é Mestre em Educação pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), licenciado em Educação Física pela Ufal e docente do Ensino Superior.

E-mail: r2ferreira.edf@gmail.com.

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