Edição 120

Espaço pedagógico

Nosso projeto: Storytelling, construção socioafetiva do saber

A prática de contar histórias, ou storytelling, é um poderoso instrumento de formação da identidade cultural e socioafetiva dos sujeitos. O projeto que norteia todo o trabalho desenvolvido em nossa escola tem por finalidade a construção do conhecimento com envolvimento afetivo e reflexões. Entendemos que, além de oferecer entretenimento, a contação de histórias — prática que nos permite conhecer, imaginar e refletir sobre a vida e as relações e, dessa forma, construir uma visão de mundo — viabiliza um aprendizado para toda a vida. Envolver os estudantes por meio do storytelling acrescenta valor ao trabalho pedagógico, que se torna dialógico, criativo e humanizado.foto_2

Utilizamos o storytelling como prática educomunicativa para dialogar sobre soluções, ideias e proposições. Acreditamos que, ao colocar os estudantes diante de uma situação-problema, eles esboçam uma ideia, registram-na, constroem uma personagem para contar a história e mostram, dentro de uma estrutura narrativa, os conteúdos trabalhados.

A contação de histórias como estratégia pedagógica — uma vez em sintonia com a realidade da turma, suas necessidades e expectativas de aprendizagem, suas temáticas de interesse e, principalmente, suas potencialidades — otimiza o processo educativo de maneira lúdica e emancipatória. Já que o ensino e a aprendizagem caminham juntos, a contação de histórias exerce um papel fundamental no desenvolvimento intelectual e de humanização do educador e do educando. Ao despertar o interesse pela leitura e escuta de textos, ao contar um conteúdo e ao provocar os estudantes a criarem suas narrativas, a imaginação é acionada, favorecendo o desenvolvimento da comunicação e de interação entre narrador e espectador.

A professora Maria Alice da Fonseca propôs à turma uma pesquisa sobre a história de vida dos autores preferidos dos alunos. O envolvimento emocional dos discentes contribuiu para que se tornassem protagonistas do trabalho desenvolvido, pois transcendeu a proposta de construção de texto, da aplicação das regras ortográficas ou de qualificar o trabalho dos alunos apenas pela aplicação de elementos gramaticais, semânticos ou discursivos do texto.

Storytelling, construção socioafetiva do saber

Sons à nossa volta Nas minhas práticas como educadora, percebi a importância do ouvir e do movimentar, principalmente nas aulas de Educação Musical. Segundo Fonterrada (2008, p. 117), “O mais significativo na Educação Musical é que ela pode ser o espaço de inserção da arte na vida do ser humano, dando-lhe possibilidade de atingir outras dimensões de si mesmo e de ampliar e aprofundar seus modos de relação consigo próprio, com o outro e com o mundo”. É certo que todos precisam se manifestar e devem cantar, brincar com os sons, tocar, expressar seus sentimentos, suas compreensões por gestos, mas também é preciso aprender a ouvir. Neste ano atípico de 2021, em que manusear e tocar os instrumentos musicais em sala, compartilhar os jogos e fazer atividades que demandam aproximação ainda não é possível, foi preciso modificar nossas posições no processo de ensino e aprendizagem. A reflexão sobre como fazer foi a porta que se abriu para novas práticas. Dessa forma, iniciei a contação da história através da escuta ativa do nosso espaço escolar. Quais os sons que nos cercam? O que ouvimos no pátio da escola? E nos arredores? Segundo Murray Shaffer (1991), “O mundo está repleto de sons, é necessário escutá- los!”.

Em relação às práticas pedagógicas, Shaffer (1991) ressalta inúmeras possibilidades de ação sobre o universo sonoro musical, pois objetiva a participação do aluno criativamente. E Émile Jacques Dalcroze (1865–1950) nos trouxe práticas musicais considerando o corpo como o despertador da consciência rítmica. Suas ideias perduram até hoje e têm lugar nas vivências musicais. Assim ocorre quando contamos uma história, cantamos uma música… As crianças são convidadas a se movimentar naturalmente, por si mesmas, o seu gesto é natural. Criam improvisações através da escuta atrelada ao ritmo. Elas sentem no próprio corpo os acontecimentos, usam a imaginação, vão além do que está sendo contado. É interpretar, fazer a releitura da história através dos sentidos do corpo.

Contação de história: O homem de pão de ló

A história trabalhada é o conto popular O homem de pão de ló, adaptada pelo Projeto Guri, do Estado de São Paulo – Secretaria de Cultura e Economia Criativa, no livro Suplemento do aluno de Iniciação Musical, 2º volume (2019), sob a coordenação da professora e educadora musical Enny Parejo.O_HOMEM_DE_P_O_DE_L__7

Nossa proposta foi recontar a história e permitir que as crianças vivenciassem todos os acontecimentos. Trabalhamos as questões da paisagem sonora, corporal e melódica. Os alunos reproduziram o som da cozinha da vovó, que fazia um bolo que se transformou no homenzinho de pão de ló. Reproduziram, também, o som da floresta, dos animais que vão aparecendo no decorrer da história, o canto das melodias ali apresentadas, os conceitos musicais, os contornos rítmicos, suas pulsações. A participação autoral na reescrita da obra culminou, como sugestão dos alunos, na mudança de desfecho da mesma, transformando-a em um conto com um feliz desfecho.

aprovados

Referências

FONTERRADA, Marisa Trench de Oliveira. De tramas e fios. Rio de Janeiro: Unesp, 2008.

ILARI, Beatriz. Música na infância e na adolescência. Curitiba: Intersaberes, 2013.

KEBACH, Patrícia Fernanda Carmem (Org.). Expressão musical na Educação Infantil. Porto Alegre: Meditação, 2013.

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