Edição 148

Refletindo

Nunca vi nem comi, eu só ouço falar

Isadora Altoé

Artem Shadrin – stock.adobe.com

Eu tinha 5 anos. Não, tinha 7. Devia ser 8. Quer saber? Não importa. Eu era criança. Daquelas que acham que os pais sabem de tudo, daquelas que riem e choram sem razão aparente. Emotivas. Eu prefiro chamar assim. Era o que eu era. Uma criança sensível com percepção de vida que não cabia nos números da idade nem na fita métrica.

Era um dia comum, meu pai e eu estávamos na padaria de sempre. Sempre contando as moedas do pão, brincadeira que eu amava, e escolhendo a bandeja de sonho pelo número que ficava na frente.

A vida de verdade era desconhecida para mim. Eu sabia das necessidades, só não fazia ideia do quão difíceis elas poderiam ser. Para o meu pai, tudo parecia simples. E ele e a vida eram como aqueles dançarinos que sorriem no meio de uma pirueta e lhe convencem de que você pode fazer igual se tentar só uma vez.

— Pai, eu sempre quis comer caviar — disse eu inocente depois de ouvir a música de Zeca Pagodinho ao fundo.

— Vamos provar? — falou o dançarino da vida, direcionando-se ao freezer da padaria.

— Vamos.

— Você quer o preto ou o laranja? — perguntou como se importasse.

Eu disse que tanto faz. Ora, não sabia da existência dessas variedades.

— Vamos provar os dois! — já disse pegando os potinhos pequeninos de caviar e um pacote de torradas.

Sentamos em uma mesa para lanches, e, como sempre, ele me serviu. Com cuidado, pegou uma colher de plástico da padaria, mergulhou no caviar preto e depositou na torrada. Pegou outra colher, mergulhou no caviar laranja e depositou na torrada. Ele assistia curioso a essa primeira vez. Devia estar ansioso com o valor daquela compra, mas, por alguma razão, ele achou que valeria a pena.

— E aí? — disse ele. — Você gostou?

— Não.

— O mais importante é que agora você sabe disso — disse ele satisfeito.

Não sei mais se gosto ou não de caviar. Não lembro mais do gosto. Mas lembro com gosto desse dia. Valeu a pena. O mais importante é que agora eu sei disso.

Dedico este texto ao meu pai, Vitório Altoé, o dançarino da vida que me ensinou os melhores passos que eu conheço. Obrigada por permitir que eu conheça o mundo para que eu possa saber como ele é. Obrigada por me mostrar o tamanho do infinito comparando o seu amor com a distância das estrelas. Por isso e por todo o resto, eu te amo até o infinito e para sempre.

A AUTORA

Isadora Bandeira de Melo Altoé atua como assessora de editoria digital no Grupo Editorial Construir e é licenciada em Letras (Português) pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

cubos