Edição 138

A fala do mestre

O despertar de um dia

Lourdinha Cunha

Hoje, quero compartilhar a onda de sentimentos que tomou conta de mim e me fez terminar este texto tão diferentemente do que eu pensava.

Num daqueles dias em que a saudade se aninha no peito, comecei a reviver momentos especiais passados na escola onde trabalhei por tantos anos. Como num filme, as imagens foram se projetando na minha mente, e eu comecei a rever cada recanto daquele lugar tão especial e a lembrar o que cada um representou para mim. Veio, logo de início, o caminho que fazia da entrada até o prédio onde eu ensinava e o jeito carinhoso como cada professor e funcionário que cruzavam comigo me cumprimentavam, com um sorriso afável e um olhar acolhedor.

Continuei a buscar imagens na minha memória e revi os quadros de avisos, a gruta de Nossa Senhora, aquele calendário colocado logo abaixo do relógio de ponto, que estava sempre nos lembrando as datas dos aniversariantes e que parecia nos dizer: “Não se esqueça de felicitar seu amigo, não deixe de passar uma mensagem para ele”. De repente, ouvi risos e cantorias; minha memória me levou até a biblioteca. Lá, estavam crianças sendo estimuladas a desenvolverem o gosto pela leitura, vivenciando dinâmicas ativas e inovadoras, preparando caminhos para o enriquecimento de vocabulário e se capacitando para a criação de seus próprios textos.

Fiquei um bom tempo mergulhada nas minhas lembranças porque não queria deixá-las tão cedo. Então, fui ao parque e às quadras de esportes; vi crianças e adolescentes, uns jogando, outros brincando, alguns competindo, todos desenvolvendo o corpo e a mente e, o mais importante, ampliando a convivência coletiva. Lembrei os valores que cultivávamos na escola para que esses encontros fossem sempre de empatia e cordialidade. Avistei, depois, a rampa e subi; lá, estavam as salas de aula, salas que se enchiam de risos, de perguntas desafiadoras, de dúvidas, de gritarias, de brabezas também, de tantos pulos de alegria pelas novas descobertas, e fiquei matutando: a sala de aula não era somente um ambiente onde exercíamos a doce arte de fazer aprender, mas um lugar que nos instigava a saber entender o comportamento socioemocional de cada aluno.

De repente!!! No meio de tantas boas lembranças, desvio o olhar para a televisão e passo a escutar, mais uma vez, as notícias dolorosas das enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul. A natureza explode, as águas do Rio Guaíba sobem numa velocidade vertiginosa e vão invadindo cidades, porque não têm por onde escoar. Alagamentos e deslizamentos acontecem muito rapidamente, e o que se vê são imagens terríveis. Casas, escolas, hospitais, indústrias, estabelecimentos comerciais, tudo começa a virar um mar de lama. Os abrigos são improvisados, e, neles, logo se aglomeram adultos e crianças que perderam tudo. Não existe mais um nem dois municípios em sinal de alerta, mas um estado completo se configurando em uma situação caótica.

Meus pensamentos, então, mudam, saem do deleite de recordar momentos bons da minha escola, e eu fico a imaginar a quantidade de crianças e professores desolados, sabendo que seus livros, cadernos, computadores e projetos idealizados estão indo por água abaixo por conta de uma tragédia que ninguém imaginava pudesse acontecer!

Passo, então, a refletir nas consequências que esse desastre ambiental trará para tantas crianças, porque, para elas, a escola não é somente lugar de aprendizagem, mas funciona como uma âncora na vida delas. É nela que
muitas têm a chance de fazer alguma refeição, têm espaço para brincar, socializam, recebem afeto, encontram pessoas que as ajudam a lidar com as suas emoções.

Paro um pouco e percebo que essas reflexões estão contidas em um livro que recebi de presente pelo Dia do Professor, Competências socioemocionais, de Zeneide Silva. Trago, dele, citações que tão bem se adaptam aqui. Nós professores sempre devemos estar atentos aos nossos alunos, cuidar para que se sintam protegidos e prepará-los emocionalmente para que enfrentem, com mais segurança, as adversidades surgidas.

Precisamos estar mais atentos às emoções das crianças. Sobretudo por parte dos educadores, três palavras são importantes para serem pensadas quando falamos sobre educação e sobre as emoções das crianças: confiança, respeito e colaboração
(SILVA, p. 65).

[…] As nossas emoções afetam de maneira muito forte o nosso dia a dia, e não é diferente a rotina da criança na escola
(SILVA, p. 66).


Lourdinha Cunha é formada em Pedagogia, Especialista em Ensino Fundamental Anos Iniciais, com experiência de 48 anos como professora do Ensino Fundamental I.

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