Edição 147

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O ESGOTAMENTO DOCENTE E OS DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS DO MAGISTÉRIO

Sergio Marcelo Salvino Bezerra

Nas últimas décadas, a docência tem sido atravessada por profundas transformações sociais, institucionais e subjetivas que impactam diretamente a saúde física e mental dos professores.
Observa-se que muitos profissionais já não conseguem ministrar aulas como no passado, seja pela intensificação das demandas burocráticas, seja pelas mudanças no perfil dos estudantes e pelo próprio contexto sociocultural das escolas (Tardif; Lessard, 2014). Esse cenário contribui para um cansaço crônico, que ultrapassa o desgaste físico e alcança dimensões emocionais e psíquicas significativas, deixando o profissional cada vez mais distante das condições adequadas ao exercício laboral.
O professor contemporâneo encontra-se frequentemente exaurido, vivenciando jornadas extensas, múltiplos vínculos empregatícios e condições de trabalho precárias. A impossibilidade de se dedicar a um único vínculo institucional não é apenas uma escolha individual, mas uma imposição estrutural, fortemente relacionada aos baixos salários da categoria. No Brasil, o magistério figura entre as profissões de nível superior com menor remuneração, o que compromete a perspectiva de progressão na carreira e enfraquece o investimento subjetivo do docente em sua trajetória profissional (Gatti et al., 2019).
Adicionado a este contexto, o professor enfrenta pressões diárias oriundas das famílias e das políticas educacionais em vigor, muitas vezes contraditórias entre si, que não conseguem alcançar as necessidades docentes e discente em um único compartimento. Esse contexto intensifica a responsabilização individual do docente pelos resultados escolares, desconsiderando os determinantes sociais que atravessam o processo educativo (Nóvoa, 2017). Junto a isso ainda existe um sentimento de insegurança vivenciado por aqueles que atuamem comunidades marcadas pela violência, pela vulnerabilidade social e pela ausência de políticas públicas efetivas, potencializando o sofrimento psíquico e a sensação de desamparo institucional (Dejours, 2015).
Apesar de exercer uma função social fundamental, o professor carecede reconhecimento simbólico e social.
A docência, historicamente concebida como instrumento de transformação social e formação humana, tem perdido, para muitos profissionais, seu sentido e valor social. A dificuldade em acreditar na potência transformadora da educação sobre os jovens revela não apenas um sofrimento individual, mas uma crise coletiva do lugar social do professor (Freire, 1996).
Quando o trabalho deixa de ser fonte de realização e passa a ser vivenciado como sobrecarga constante, o adoecimento psíquico torna-se um risco concreto. Estudos indicam um crescimento significativo de quadros de depressão, ansiedade e síndrome de burnout entre professores, diretamente associados à sobrecarga de trabalho, à pressão por desempenho, à desvalorização profissional e à precarização das condições laborais (Maslach; Leiter, 2017; Carlotto, 2011).
Nesse contexto, torna-se imprescindível que o professor seja incentivado a cuidar do corpo e da mente, reconhecendo seus limites e suas necessidades. Entretanto, tal cuidado não pode ser compreendido apenas como responsabilidade individual, mas como parte de uma política institucional de promoção da saúde do trabalhador da educação (Codo,2006). A ausência de espaços de escuta, acolhimento psicológico e suporte institucional contribuem para o sofrimento crônico e para o afastamento progressivo do docente de sua função.

Framestock – stock.adobe.com

Diante desse cenário, é urgente a criação de estratégias institucionais e coletivas que visem à valorização docente e à prevenção do adoecimento. Isso inclui políticas salariais mais justas, planos de carreira consistentes, melhoria das condições de trabalho, fortalecimento da segurança nas comunidades escolares e implementação de programas de cuidado à saúde mental. Somente por meio de uma reconfiguração do lugar social do professor será possível resgatar o sentido da docência como prática transformadora e garantir o equilíbrio psíquico daqueles que sustentam, cotidianamente, o processo educativo.
É neste cenário, com a sensação de que não podemos mais esperar, que desejamos que a sociedade volte a valorizar a carreira docente e as políticas públicas, em todas as instâncias, e tenham o profissional do magistério no centro de sua discussão educacional. É maravilhoso focar no estudante, mas este, sem um professor motivado, emocionalmente seguro e financeira mente equilibrado, não poderá usufruir do melhor.
Que 2026 seja para todos nós, profissionais do magistério, um ano de conquistas e de perspectivas animadoras, tornando-nos mais fortes, mais valorizados, mais saudáveis e, principalmente, mais felizes.
Pensem nisso…

REFERÊNCIAS

CARLOTTO, M. S. Síndrome de burnout em professores: prevalência e fatores associados. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 27, n. 4, p.403–410, 2011.
CODO, W. (Org.). Educação: carinho e trabalho. Petrópolis: Vozes, 2006.
DEJOURS, C. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2015.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. GATTI, B. A. et al. Professores do Brasil: novos cenários de formação. Brasília: Unesco, 2019.
MASLACH, C.; LEITER, M. P. The truth about burnout: how organizations cause personal stress and what to do about it. San Francisco: Jossey-Bass, 2017.
NÓVOA, A. Os professores e o novo espaço público da educação. In: TARDIF, M.; LESSARD, C. (Org.). O ofício de professor. Petrópolis: Vozes, 2017.
TARDIF, M.; LESSARD, C. O trabalho docente: elementos para uma teoria da docência como profissão de interações humanas. Petrópolis: Vozes, 2014

O AUTOR

Sergio Marcelo Salvino Bezerra é professor da Rede Estadual de Pernambuco, atuando como gestor escolar há mais de 12 anos;
psicanalista clínico; palestrante; e escritor de literatura infantil e de livros de prevenção ao suicídio.
E-mail:
psicanalistasergiobezerra@gmail.com

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