Edição 122

A fala do mestre...

O papel das escolas no desenvolvimento das competências socioemocionais

Leo Fraiman

Que estamos vivendo tempos cada vez mais acelerados, já sabemos. Que a vida de todos nós tem estado cansativa e desgastante, também já sabemos. Que os ventos que nos esperam no futuro não serão meras brisas de verão, também já temos ciência. O que fazer, então, diante de um porvir tão desafiador? Como a escola pode oferecer soluções que preparem as crianças e os jovens para os novos tempos?

Na medida em que admite em seu cotidiano a implementação de uma cultura que considere a formação de Projetos de Vida e Atitudes Empreendedoras, a escola tem a chance de formar estudantes que assumem o protagonismo diante do futuro. Com isso, no lugar de temer o futuro, podem tomá-lo nas mãos.

O primeiro passo para isso é conscientizar os educadores das mais diversas áreas do conhecimento de que as competências socioemocionais não são “uma perda de tempo”, “uma frescura da atualidade” e não representam a “redução das aulas que realmente importam”. Essas falas não são tão raras em certas instituições de ensino e mostram justamente o quanto precisamos formar, na escola, um contexto no qual o fator humano seja levado mais a sério. Explico: durante muito tempo, acreditou-se que ensinar meramente as competências cognitivas, dentre elas a numeração e o letramento, seria suficiente para formar a mão de obra que o mercado de trabalho exigia ou para preparar os cidadãos que a sociedade esperava.

Não são poucos os pais e as mães que, até hoje, questionam o para quê de aulas de Empreendedorismo, de Projeto de Vida, de Pilares da Humanidade, alguns dos nomes que as instituições escolares têm criado para as aulas em que se evidenciam saberes ligados a competências socioemocionais. Mas não o fazem por mal, e sim por falta de compreensão sócio-histórica do papel da escola e da família na formação das novas gerações.

Muitos desses familiares aprenderam as matérias formais da escola, mas não tiveram acesso algum ao aprendizado da empatia, do trabalho em equipe, da capacidade de análise de cenários complexos e outros saberes que, hoje em dia, já se mostram incrivelmente necessários e que, no futuro, serão ainda mais.

Esse mundo no qual se formavam pessoas apenas para ter competências cognitivas parecia muito “em ordem”, pois havia alguma previsibilidade e uma ideia de segurança diante da vida. As narrativas individuais eram formadas por papéis que a sociedade, a família e as religiões indicavam, e as pessoas se encaixavam com alguma serenidade naquilo que se esperava delas. Havia uma distinção mais clara entre público e privado. Havia valores claros para se educar um filho e expectativas da idade certa para cada vivência: quando namorar, quando casar, quando trabalhar, quando se aposentar. Parecia fazer sentido em um mundo assim definido que os saberes matemáticos e científicos fossem percebidos como os mais essenciais. Se o mundo parece mais “quadrado”, “en-quadremos” os estudantes para que caibam nele.

Não havia o desejo de ser feliz como hoje há. Essa não era sequer uma questão, por exemplo. Não havia tanta tecnologia nos oferecendo, por um lado, um notável desenvolvimento e, por outro, vícios digitais e uma vida repleta de bolhas como atualmente. Não havia um esfacelamento da convivência familiar como mais frequentemente hoje se vê. Não havia um mercado de trabalho com tão poucas oportunidades de emprego formal como o atual, tão repleto de nem-nens. Não havia as ameaças climáticas e de bioterrorismo, as migrações e imigrações em massa nem os algoritmos que vêm substituindo atividades profissionais. Tudo isso sem falar das intensas mudanças na forma como vivemos, convivemos e trabalhamos no mundo pós-pandemia, seja lá quando isso ocorrer.

Com esse novo cenário, é essencial que repensemos a função da escola e da família. Pois o mercado de trabalho pode até contratar, em alguns casos, levando em conta apenas as competências cognitivas, o diploma, mas, cada vez mais, demite-se pela falta de competências socioemocionais. Além disso, estamos diante de um ponto de inflexão em que ou a sociedade repensa sua forma de viver, conviver e consumir e o modo como os fluxos de riqueza circulam entre as pessoas ou não vai ter para ninguém mesmo. Estamos numa corda bamba social em que as ondas de violência, individualismo, consumismo, aceleração da vida e falta de foco alcançam níveis preocupantes.

Mas calma. O educador de verdade não pira diante da realidade. Ele se inspira e oferece sua contribuição. Esse é nosso papel atual. Somos humanos, somos capazes de mudar a História, não somos meros espelhos passivos da realidade, e sim criadores do futuro que não está condenado. Pois condição (difícil) não enseja condenação (de sonhos ou esperanças). O ser humano é o único capaz de dar, inclusive, o que não tem. Foi o que fizeram Zilda Arns, Paulo Freire, Vital Brazil, Santos Dumont e Madre Teresa.

Felizmente a história do mundo vivo passa por saltos históricos, e devemos evitar os perigos do pessimismo que nos imobilize e do otimismo que nos acomode. A proposta aqui é de um otimismo realista, que se baseia na atitude de cada um se perguntar: “O que de melhor eu posso fazer com isso?”. Ou seja, olhar a realidade e pensar, sentir e agir de forma responsável. Nesse sentido, a contribuição para a transformação da sociedade pode seguir na direção de adotar aulas sistemáticas nas quais se discutam os projetos vitais dos alunos. Ninguém andaria de bicicleta de olhos fechados por 30 segundos sequer. Mas em diversas áreas da vida há muitos que andam sem perceber quem são, o que realmente gostariam de fazer como atividade profissional, qual será seu legado, o que lhes faz felizes, o que precisam para se sentirem bem consigo mesmos, como lidar com uma frustração, como fazer e manter amizades, como gerenciar o dinheiro e as muitas escolhas. Isso tudo são competências sociais e emocionais.

Promover aulas de Projeto de Vida não se resume à escolha de uma profissão. O melhor a se fazer é convidar os estudantes, primeira e primordialmente, a olhar para si e para os demais, promover ações que permitam o desenvolvimento da inteligência emocional e dos valores humanos. Assim, favorece-se um caráter edificado e uma atitude autorresponsável assentada no autoconhecimento.

Com isso, consegue-se mais facilmente preparar os alunos a perceberem o trabalho como uma forma de agregar ou fazer a diferença no mundo, e não escolher uma profissão pela popularidade, pela facilidade ou pela remuneração. Quem se conhece tem maiores chances de fazer escolhas assertivas ao longo de sua carreira e a ganhar tração em seus objetivos profissionais, sejam eles em relação à conquista de um emprego, de um trabalho como prestador de serviço ou em uma ação empreendedora.

A boa notícia é que tudo isso não precisa nem deve se resumir unicamente a uma matéria, sob o risco de se perder o importante eco de interdisciplinaridade que os novos tempos nos pedem não somente como estudantes, mas como seres humanos que vivem em um mundo cada vez mais complexo. Na prática, por exemplo, aulas de educação financeira podem ser ministradas pelo professor de Projeto de Vida, mas podem ser potencializadas com a formação de um mapa de empregabilidade que se construa junto aos professores de Geografia, que analisariam com os alunos oportunidades para as diversas profissões em diferentes regiões do País. A temática da sustentabilidade, tão cara aos biólogos, poderia servir para uma mesa-redonda sobre as disciplinas de Matemática e de Projeto de Vida também.

Quem tem clareza de seus projetos de vida tem maiores chances de se tornar protagonista de suas escolhas e, consequentemente, ganha mais empoderamento diante de seu futuro.

O mundo mudou, e o legado que nossos alunos receberão demanda novas habilidades, novas competências, um novo olhar, que, certamente, começa com o desejo e o compromisso de se formar não mais os melhores alunos do mundo, e sim os melhores seres humanos para o mundo.

Nestes mais de 20 anos trabalhando como professor, escritor e criador da Metodologia OPEE (Projeto de Vida e Atitude Empreendedora), percebi que a felicidade é colhida nos lábios dos outros, pois feliz é quem faz feliz o mundo com a sua presença. Em um mundo em que tantos querem ser importantes, saem na frente aqueles que se importam.

Relembro hoje, com carinho, quando começamos com o nosso trabalho, há duas décadas. Dedicávamos muito tempo para mostrar para os diretores, mantenedores e coordenadores que oferecer, na grade curricular plena da escola, aulas de Projeto de Vida era essencial para a construção de uma vida sadia, eficaz, feliz. Hoje em dia, há a BNCC, o PNLD de Projeto de Vida e muitas soluções para essa causa. Ter contribuído com a colocação do fator humano no seu devido lugar dentro da escola é uma honra e uma alegria para mim e para toda a minha equipe. Viva a vida! Viva a vida em que se sonha e que transforma sonhos em projetos. Projetos de vida, com vida e para a vida!

Leo Fraiman é psicoterapeuta, palestrante internacional, escritor e autor de mais de vinte livros, dentre os quais se destaca a Metodologia OPEE (Projeto de Vida e Atitude Empreendedora), presente em mais de 1.500 escolas no Brasil. Foi conferencista na ONU no Simpósio Internacional – Formando Lideranças para o Desenvolvimento Futuro, em Genebra, Suíça. Com mais de 30 anos de carreira, foi membro do Comitê Mundial de Educação para a Autonomia, em Paris; ganhador do Prêmio Shift – Agentes Transformadores, com o case da Metodologia OPEE; e, atualmente, é autor aprovado pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) com a obra Pensar, sentir e agir.

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