Edição 136

Como mãe, como educadora, como cidadã

O que realmente importa?

Zeneide Silva

Vivemos no mundo em busca de uma tal felicidade e, muitas vezes, achamos que ela é uma questão de sorte. Em certas situações, deparamo-nos com momentos em que a sorte parece determinar o curso da nossa vida ou talvez a nossa felicidade. Contudo, entre os percalços da vida e as escolhas pessoais, é preciso refletir sobre o papel da sorte; por outro ponto de vista, da oportunidade e das escolhas, ou seja, do livre-arbítrio, em busca do nosso lugar no mundo que nos possa levar à felicidade.

Vamos refletir um pouco por meio da história O homem sem sorte.
Boa leitura!

 

O homem sem sorte: oportunidades perdidas

(Autor desconhecido)

Há muito tempo, não muito longe daqui, havia um homem que se sentia muito infeliz. Nada do que ele fazia dava certo. Se ele plantasse sementes, o sol vinha muito forte e as esturricava ou, então, vinha uma chuva pesada e as levava na enxurrada.

O homem achava que era a pessoa mais sem sorte deste mundo. Começou, então, a lamentar-se e queixar-se com todo mundo. Assim, as pessoas começaram a se afastar dele. Quando o viam caminhando em um lado da rua, imediatamente atravessavam para o outro, evitando ouvir suas lamúrias. Além de sem sorte, esse homem também se tornou muito solitário.

Um dia, o homem se cansou de sua própria infelicidade e resolveu fazer algo a respeito. Decidiu procurar o Criador e perguntar-lhe o que é que ele deveria fazer para mudar a própria sorte. Saiu viajando pelo mundo afora, procurando a morada do Criador.

Depois de muita peregrinação, chegou, um dia, a uma mata muito verde e tão linda que pensou: “Deve ser aqui a casa do Criador”.

Entrou na mata com muito cuidado, como se entrasse em um santuário.

Não tinha dado dez passos quando ouviu um gemido alto e arrepiante, vindo das profundezas da dor.

Olhou em volta e viu que quem uivava tão dolorosamente era um lobo deitado perto de uma moita. Esse lobo tinha um péssimo aspecto: seu pelo não tinha cor, seus olhos não tinham brilho, seus dentes estavam amarelados, e suas orelhas estavam caídas.

O homem, então, perguntou-lhe por que ele estava gemendo daquele jeito.

— Ah, já faz mais de 15 dias que estou me sentindo mal e não sei explicar o que tenho — respondeu o lobo.
— Pois olhe, você está se sentindo mal há 15 dias, e eu tenho sido infeliz a vida toda. Mas nem por isso estou aí, deitado, queixando-me da vida. Resolvi fazer alguma coisa a respeito. Vou procurar o Criador e perguntar a Ele como é que eu posso sair desse estado.

O lobo pediu:
— Ah, por favor, já que você vai até o Criador, pergunte-lhe o que eu preciso fazer para não me sentir tão mal assim. Estou muito fraco para ir pessoalmente. Por favor, faça isso por mim.

O homem concordou:
— Está bem, se eu me lembrar…
E continuou seu caminho. Chegou, então, a um lago tão sereno e harmonioso que pensou: “Ah, deve ser aqui a casa do Criador”.

Mas, ao aproximar-se do lago, ouviu um outro gemido. Um gemido longo que saía das entranhas do infortúnio. Olhou à sua volta e viu uma árvore curvada, quase caindo sobre o lago.
— O que você tem? Por que está gemendo assim? — perguntou o homem.
— Ah, estou me sentindo péssima. Parece que estou me acabando, e não consigo saber o que há de errado comigo — respondeu a árvore.
— Mas que incrível! Quanta gente se arrastando e se queixando por aí. E todos assim, parados, sem fazer nada! Eu, não! Eu não tenho tido sorte durante toda a minha vida, mas, agora, resolvi dar um jeito nessa situação. Decidi procurar o Criador e perguntar-lhe o que devo fazer para mudar a minha vida!
— Ai! — gemeu a árvore. — Estou muito fraca e não aguento ir até o Criador. Mas, já que você vai encontrar-se com ele, por favor, pergunte-lhe o que eu posso fazer para me sentir melhor.
— Está bem — disse o homem. — Se eu me lembrar…

Continuou o seu caminho e, mais à frente, encontrou um lindo campo de flores amarelas. Do outro lado do campo, viu uma casinha de aspecto muito acolhedor e pensou: “Que casinha mais acolhedora. Deve ser ali a casa do Criador”.

Atravessou, correndo, o campo sem notar o perfume e a graça das flores amarelas. Bateu à porta da casa, e uma mulher veio atendê-lo. Ela era jovem e simpática e o convidou para entrar e tomar um café. Ele nunca havia encontrado uma pessoa tão agradável. Conversaram durante a noite toda, e o homem disse coisas que, até então, nunca havia dito a ninguém.

Mas, assim que amanheceu, ele lembrou-se de sua missão.

— Tenho que ir, pois estou procurando o Criador para que Ele possa me dizer o que devo fazer para deixar de ser tão sem sorte. Você é que é feliz, pois mora nesta casinha acolhedora.
— É verdade, mas, muitas vezes, sinto-me muito triste e não sei dizer o porquê. Já que você vai falar com o Criador, por favor, pode perguntar a Ele por que é que eu, às vezes, sinto-me assim?
— Está bem, vou tentar me lembrar.

E seguiu seu caminho. Andou mais um pouco e acabou encontrando uma luz clara e brilhante. Era ali, certamente, a casa do Criador.

O homem conversou com Ele e saiu de lá animadíssimo.
Andou muito rápido e logo se viu, novamente, na casinha acolhedora da moça simpática.

Ela mostrou alegria em revê-lo e lhe perguntou:
— Você falou com o Criador?
— Falei, sim, e agora estou correndo para executar o que Ele me disse.
A moça continuou:
— E você perguntou a Ele por mim?
— Perguntei, sim — disse o homem. — O Criador falou que o seu problema é solidão. Disse que você precisa encontrar um companheiro para dividir, com você, essa casinha acolhedora.
A moça olhou para ele, corou e sugeriu:
— Será que você não pode ser esse companheiro e ficar morando aqui comigo?
— Bem que eu gostaria, mas o Criador falou que a minha sorte está aí no mundo à minha espera. É só eu abrir os olhos para vê-la. Então, eu tenho que ir correndo encontrar minha sorte.

Despedindo-se dela, atravessou o campo de flores amarelas, sem, novamente, notar como eram perfumadas e graciosas.
Logo, logo, chegou até o lago, onde estava a árvore, agora em pior aspecto do que nunca, com as folhas todas murchas e amareladas.

O homem já ia apressadamente continuando seu caminho, mas a árvore o chamou:
— Ei, amigo! Você perguntou ao Criador por mim?
— Ah, perguntei, sim. O Criador disse que, em suas raízes, existe um grande cofre, cheio de ouro, e que está sufocando você. O Criador alertou para você encontrar alguém que arranje uma enxada e desenterre esse cofre para você. Dessa forma, você vai ficar boa de novo.
— Por favor. Você não quer fazer isso por mim? Não quer arranjar uma enxada e desenterrar o cofre? Você até pode ficar com as moedas, já que me parece que vocês, homens, interessam-se tanto por elas.
— Sinto muito — disse o homem. — O Criador disse que a minha sorte está aí no mundo, à minha espera, e não posso perder tempo procurando enxadas e desenterrando cofres. Arranje uma outra pessoa.

Mais à frente, o homem encontrou o lobo, que agora estava deitado no meio do caminho, com um aspecto desolador.
— Ei, amigo — disse o lobo. — Você perguntou ao Criador por mim?

O homem estancou seu passo:
— Perguntei, sim. Ele disse que o seu problema é inanição. Você está, simplesmente, com fome. Precisa ficar atento ao primeiro idiota que passar e devorá-lo.

O lobo reuniu suas últimas forças, pulou sobre o homem e o devorou.
Foi assim o fim do homem sem sorte, e poderá ser assim o fim dos que pensam que não precisam colaborar com a vida para se tornar afortunados.


Somos responsáveis pelas nossas escolhas, e, portanto, é fundamental compreendermos que a verdadeira busca pela felicidade não está em eventos grandiosos ou em conquistas externas, mas, sim, nos pequenos detalhes do dia a dia. À medida que as oportunidades surgem e os desafios se apresentam, é preciso aprender a olhar para si mesmo, isso é felicidade; para os outros, isso é felicidade; com mais cuidado e compaixão, isso é felicidade.

A chave para a felicidade está dentro de cada um de nós, esperando para ser descoberta e cultivada. Então, comece ou recomece a sua jornada em busca da felicidade dentro de si mesmo, em cada momento vivido com consciência e gratidão.

Um grande abraço,

 

(@profzeneidesilva)

Conto africano contado por Inno Sorsy na Noite de Contos, em Belo Horizonte, 1996.
Traduzido ao vivo por Rosângela Alves. Transcrição da fita de vídeo: Cecília Caram. Contribuição: Inno Sorsy.
Cecília Andrès Caram e Gislayne Matos. Projeto Convivendo com Arte. Caderno de contos. Belo Horizonte, MG; 1994.

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