Edição 136

Construindo mais conhecimento

Autismo: mitos e verdades

Wilson Candido Braga

Normal é ser diferente. Normal é fazer a diferença, dando acesso,
permanência e oportunidades para tentativas de sucesso, por menores que elas nos pareçam.

Desde 1906, período de introdução do adjetivo autista nos estudos da psiquiatria, muitas informações foram construídas e outras tantas desconstruídas em torno desse termo, garantindo-nos, na atualidade, maior segurança e melhor entendimento acerca dessa temática, hoje cada vez mais debatida e pesquisada.

Muitos mitos foram criados e, possivelmente, dificultaram o processo de inclusão familiar, social e educacional desses indivíduos, bem como o processo de intervenção clínica ou institucional em tempo hábil. Isso porque alguns desses mitos, quando tomados como verdade, comprometeram abordagens cientificamente comprovadas, prejudicando, por assim dizer, a evolução e a inclusão social desses sujeitos.

De posse de mais informações na atualidade, e pelo crescente movimento de acesso em direção ao conhecimento, podemos, agora, esclarecer alguns desses mitos, explicando por que alguns são considerados falsos; e outros, verdade, baseando-nos sempre em pesquisas e estudos científicos.

1 Autismo é uma doença psicológica ou psiquiátrica: FALSO.

O autismo é um transtorno neurobiológico, um dos transtornos do neurodesenvolvimento que comprometem o desenvolvimento do cérebro em áreas específicas ainda durante o processo gestacional, comprometendo o funcionamento cerebral e causando prejuízos no comportamento, na fala, na comunicação e na capacidade de socialização.

2 Pessoas com autismo não têm sentimentos e não compreendem o que acontece ao seu redor: FALSO.

Ainda que não seja fácil para muitas pessoas com autismo demonstrar ou expressar suas emoções ou compreender as emoções e os sentimentos expressos por outras pessoas, elas também se alegram e se entristecem, choram e riem como qualquer outro ser humano. Sim, elas compreendem o que acontece no seu entorno, porém apresentam dificuldades em algumas leituras sociais, na comunicação não verbal e na capacidade para a metacognição. Portanto, não podemos afirmar que não percebem o que acontece à sua volta, pois alguns de seus comportamentos e desconfortos são, para nós, indicativos de que algo está sendo percebido e sentido como desconfortante para elas.

3 A desatenção dos pais, o comportamento da mãe e a falta de amor causam o autismo: FALSO.

O transtorno do espectro do autismo (TEA) não tem relação direta com a falta de atenção dos pais em relação ao filho. Essa teoria foi defendida nas décadas de 1940 e 1960, contudo não é mais aceita na atualidade. O autismo tem origem neurobiológica e está associado a possíveis causas genéticas, ambientais ou multifatoriais. Todavia, vale afirmar que pais mais atenciosos e mais afetivos representam um ganho qualitativo para o desenvolvimento e a obtenção de melhores comportamentos de seus filhos, independentemente de sua condição; e, em se tratando de pessoas com TEA, isso faz uma grande diferença.

4 Pessoas com autismo ou são gênios ou têm atraso mental: FALSO.

Já ficou muito claro o porquê da expressão espectro do autismo; logo, devemos entender que isso representa uma multivariedade de tipos para uma mesma condição diagnóstica, em que podemos perceber quadros de autismo dos níveis mais leves aos mais severos. Portanto, não é possível afirmar que as pessoas com autismo estejam nesses extremos de inteligência acima ou abaixo da média.

Pesquisas apontam um percentual bem elevado de pessoas com autismo com prejuízos intelectuais diversos, um outro percentual de pessoas com autismo sem prejuízos intelectuais significativos e um pequeno percentual de pessoas com autismo com capacidade acima da média, a partir de um interesse monotemático. Portanto, se forem classificadas com habilidade acima da média, essas habilidades devem ser apresentadas com a boa capacidade de envolvimento desses indivíduos com a atividade específica e o uso de forma criativa em situações diversas — podemos, assim, entender como altas habilidades/superdotação, mas isso só é percebido em um percentual mínimo.

5 A alimentação influencia para que uma criança seja autista ou uma alimentação diferenciada modifica os padrões do autismo: FALSO.

Ainda que alguns pensem que uma dieta distinta, com ou sem alguns nutrientes específicos, evitará que os filhos fiquem expostos a substâncias tóxicas que podem ser consideradas fator de risco para o autismo ou estar associadas a possíveis causas, o que a criança come não causa autismo nem lhe reverte o quadro. Não existem pesquisas cientificamente comprovadas apontando a alimentação como elemento de causa ou de possível reversão do diagnóstico de autismo.

6 Glúten e caseína causam autismo: FALSO.

Estima-se que 1% da população mundial seja de pessoas celíacas, ou seja, que podem apresentar alergia ao glúten, o que não significa que toda pessoa com autismo esteja nessa condição de celíaca.

O glúten e a caseína irão provocar malefícios em qualquer pessoa que os consuma em excesso ou que lhes tenha intolerância; porém, é necessário examinar, a partir de testes específicos, se existe, de fato, alergia ou intolerância por parte da pessoa com autismo, para, assim, pensar na retirada de sua dieta desse ou de qualquer outro alimento que, de alguma forma, não lhe faça bem. Logo, se a pessoa com autismo não apresenta intolerância ao glúten ou quaisquer alergias associadas, não há motivos para esse rigor alimentar. Da mesma forma, não podemos afirmar que uma alimentação sem glúten possa reverter os sintomas do autismo, pois não há comprovação científica para essa afirmação.

7 Vacinas causam autismo: FALSO.

A aplicação de vacinas não tem relação comprovada com o desenvolvimento do transtorno do espectro do autismo. O problema neurológico começa ainda no útero da mãe, e não por um fator externo posterior ao nascimento. O que pode acontecer durante a gestação é uma associação a possíveis interferências de fatores externos que, de alguma forma, provoquem mutações genéticas que justifiquem o autismo. Esses múltiplos fatores externos, considerados de risco durante o processo gestacional, podem estar ligados a radiação, poluição, doenças infecciosas sofridas pela mãe, uso de substâncias tóxicas e agentes químicos, e isso hoje é considerado como multifatores de risco ou possíveis causas para o autismo e para qualquer outro transtorno do neurodesenvolvimento.

8 Uma pessoa com autismo será dependente a vida toda: FALSO.

Se uma criança com autismo recebe atenção e estimulação desde cedo, poderá ser um adulto autossuficiente e capaz de estabelecer relações sociais dentro das condições que seu quadro diagnóstico permite, com maior ou menor desempenho para as habilidades ou condutas adaptativas.

Então, para essa afirmação a resposta será “Depende!”, pois o desenvolvimento para uma vida adulta autônoma irá depender de uma infinidade de fatores que devem ser qualificados ainda na infância. Por esse motivo, é comum falarmos do autismo sempre associando-o à criança, pois a sua vida adulta irá depender do que fizermos por ela na sua fase de desenvolvimento infantil.

9 A pessoa com autismo pode gritar, espernear e provocar grande confusão ao seu redor: VERDADE.

A desmodulação sensorial, uma das apresentações do transtorno do processamento sensorial, é uma constante na vida da maioria das pessoas com autismo, pois sua capacidade de organização sensorial ou sensopercepção se encontra em desarmonia por falhas no repasse de informações neurais; logo, a percepção e a interpretação dos estímulos que chegam a esses indivíduos podem acontecer com falhas. Nesse sentido, as respostas linguísticas ou motoras apresentadas serão também alteradas, e sua capacidade de inibição para comportamentos inadequados ou capacidade de controle inibitório (córtex pré-frontal/função executiva) pode não funcionar de forma satisfatória para levá-los a uma adaptabilidade, de fato, coerente.

Daí os comportamentos desorganizados que provocam grande desconforto para quem está à sua volta e principalmente para eles mesmos. Portanto, ainda que muitas vezes afirmemos que se desorganizam sem razão, sempre que isso acontece é porque alguma coisa foi percebida e interpretada por eles como desconfortável e desorganizante.

10 Recursos tecnológicos como o tablet e o celular podem auxiliar no tratamento de pessoas com autismo: VERDADE.

O tablet e o celular, assim como outros tantos recursos tecnológicos, podem ser grandes aliados no processo de intervenção de pessoas com autismo; porém, precisam e devem ser utilizados com cautela e critérios, pois estamos falando de pessoas com dificuldades maiores ou menores para o processo de fala, comunicação e interação social, e elementos que reforcem o isolamento social podem acentuar cada vez mais essas dificuldades. Por isso, esses recursos precisam ser mediados para fins objetivos, buscando, assim, qualificar situações promotoras de um bom desenvolvimento global. A utilização dessas ferramentas de forma livre deve ser monitorada para que, então, os indivíduos autistas não passem tempo em demasia fechados nessa relação de isolamento a partir desses recursos.

11 Pessoas com autismo não olham nos olhos: FALSO.

Olhar ou não olhar nos olhos de alguém não é característica para o diagnóstico do autismo nem define esse quadro particular. Pode ser que algumas pessoas com essa condição diagnóstica tenham maior ou menor dificuldade de olhar no olho e de fixar esse olhar com boa capacidade de interpretação para as nuanças que a face humana pode apresentar.

Essa capacidade de interpretar mímicas, gestos e expressões diversas favorece a nossa comunicação não verbal, que pode se apresentar comprometida nas pessoas com autismo, especialmente por falhas de funcionamento dos neurônios-espelho (neurônios responsáveis pela imitação de gestos, mímicas ou de qualquer ação mecânica, para mais tarde interpretar a intenção de quem os realizou). Mas isso não significa que para ter o diagnóstico do autismo você tenha, necessariamente, que não olhar nos olhos de alguém. O contato visual para muitas pessoas com autismo é algo desconfortável, pois nem sempre entendem os significados das expressões manifestas por outras pessoas (melhor explicado pela Teoria da Mente e pela Teoria da Coerência Central).

12 Não há cura para o autismo: VERDADE.

O autismo é um transtorno neurobiológico, uma forma particular de funcionamento cerebral, que não pode ser considerado uma doença; portanto, não há cura. O que podemos afirmar é que existem diversas formas de tratamentos psicoeducacionais e medicamentosos que favorecem ao indivíduo com autismo mais possibilidades de uma vida funcional, mesmo continuando na sua condição de pessoa com autismo.

13 A maioria das pessoas com autismo tem problemas de fala, comunicação, interação social e comportamentos repetitivos: VERDADE.

Prejuízos na comunicação social (fala, comunicação e interação social) e presença de comportamentos com atividades e interesses restritos, repetitivos e estereotipados são as principais alterações observadas para se chegar ao fechamento de um diagnóstico de autismo, pois isso caracteriza a chamada díade do autismo, que, segundo o DSM-5 (APA, 2014), é elemento primordial para que se observe o autismo em alguém; os demais sintomas serão elementos que evidenciarão maior ou menor comprometimento para esse quadro diagnóstico.

14 O autismo pode ser hereditário: VERDADE.

O autismo é um transtorno neurobiológico de possíveis causas genéticas, ambientais ou multifatoriais; logo, quando falamos em genética, estamos nos referindo à possível herança parental em percentuais bem significativos, mas também pode estar associada a mutações de genes ocorridas durante o processo gestacional, a partir da interferência de fatores externos que podem comprometer o funcionamento cerebral do bebê. São vários os genes em estudos que podem estar afetados para a condição do autismo.

15 Existem mais meninos do que meninas com autismo: VERDADE.

Há, de fato, uma estimativa de 4 meninos para 1 menina com autismo; isso representa 80% dos diagnósticos de autismo em meninos. Essa explicação pode estar associada a uma maior resistência das mulheres no tocante a mutações de genes ou maior facilidade para o mascaramento dos sintomas; porém, existem outras explicações em estudo para essas diferenças de quantidades prevalentes.

Esses e outros mitos ainda iremos escutar no nosso dia a dia, e, agora, de posse de mais informações, temos capacidade para melhor esclarecer esses e outros equívocos que a falta de conhecimento pode gerar.

Os mitos são criados na tentativa de explicar algo ainda sem grandes esclarecimentos; a verdade é que precisa ser investigada para que, a partir do conhecimento, possamos nos embasar com mais segurança e argumentação e, assim, evitar quaisquer situações que reforcem comportamentos e posturas excludentes.

O que queremos e buscamos a cada dia são possibilidades que favoreçam a inclusão para todo e qualquer sujeito, independentemente de sua condição física, mental, intelectual e sensorial; logo, essas alterações temporárias ou permanentes não podem e não devem classificar a nossa capacidade ou incapacidade para a realização de algo, pois somos diferentes em tudo, e são exatamente essas diferenças que nos fazem semelhantes; não são elas que limitam ou dificultam nossos avanços. O que nos impede são as barreiras de acessibilidade estruturais e, principalmente, as barreiras atitudinais, pois uma ação de compreensão e acolhimento favorece, de forma significativa, todo e qualquer movimento de inclusão social, escolar e familiar.

Precisamos mudar as nossas atitudes para, dessa forma, oferecer maiores possibilidades a quem funciona de maneira diferente daquilo que convencionamos como normalidade; afinal de contas, esse conceito não existe e, se existe, tem uma descrição pontual para cada época, cada situação, cada pessoa e cada convenção estabelecida.

Normal é ser diferente. Normal é fazer a diferença, dando acesso, permanência e oportunidades para tentativas de sucesso, por menores que elas nos pareçam.


Wilson Candido Braga é terapeuta ocupacional; licenciado para o ensino da Biologia e de disciplinas específicas; professor da +Stimullus: Centro de Estudo, Formação e Consultoria; coordenador de pós-graduação da Faculdade do Maciço de Baturité (FMB); Especialista em Saúde Mental, Atendimento Educacional Especializado (AEE), Psicopedagogia Clínica e Institucional, Neuropsicopedagogia, Docência do Ensino Superior, Gestão de Programas de Saúde da Família, Ludopedagogia e Educação Infantil, Comunicação Alternativa e Educação Especial, Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD)/Autismo, Ciências da Educação, Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Educação Estruturada para Alunos com Autismo; Mestre em Ciências da Educação e Psicologia da Infância e da Adolescência; mestrando em Educação Especial.
Celular: (85) 98878.3532
E-mail: prof.wilsoncandido@gmail.com
Facebook: www.facebook.com/wilsoncandido
Instagram: wilsoncandidobraga

Referências
BRAGA, Wilson Candido. Autismo: azul e de todas as cores: guia básico para pais e profissionais. São Paulo: Paulinas, 2018.
CAMARGO JR., Walter. Intervenção precoce no autismo: guia multidisciplinar: de 0 a 4 anos. Belo Horizonte: Artesã, 2017.
SEABRA, Alessandra Gotuzo et al. (Org.). Inteligência e funções executivas: avanços e desafios para a avaliação neuropsicológica. São Paulo: Memnon, 2014.
LENT, Roberto. Cem bilhões de neurônios: conceitos fundamentais de Neurociência. São Paulo: Atheneu, 2001.
MOMO, Aline Rodrigues Bueno. O processamento sensorial como ferramenta para educadores: facilitando o processo de aprendizagem.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Maria Inês Corrêa Nascimento et al. (Trad.). Referência rápida aos critérios diagnósticos do DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.
RODRIGUES, Patrícia Maltez. Funções executivas e aprendizagem: o uso dos jogos no desenvolvimento das funções executivas. Salvador: Sanar, 2017.
SCHWARTZMAN, José Salomão; ARAÚJO, Ceres Alves de (Coord.). Transtornos do espectro do autismo (TEA). São Paulo: Memnon, 2011.

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