Edição 145

Mulheres Educadoras

Práticas de alfabetização e letramento: o poder da leitura do mundo


Paty Fonte
O legado de Paulo Freire “A leitura do mundo precede a leitura das palavras” nunca foi tão urgente. Em pleno século XXI, quando escrevemos, lemos e refletimos com auxílio da inteligência artificial, a realidade brasileira de alfabetização e letramento ainda é caótica. Segundo o Censo Demográfico de 2022, do IBGE, 7% da população brasileira com 15 anos ou mais — o que equivale a mais de 11 milhões de pessoas — não sabe ler e escrever sequer uma frase ou um bilhete simples.
De acordo com o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) de 2024, 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são considerados analfabetos funcionais. O que equivale a mais de 40 milhões de pessoas. Isso significa que, embora saibam ler e escrever frases simples, enfrentam dificuldades para compreender e interpretar textos mais complexos, argumentar, conectar ideias ou realizar operações matemáticas básicas no cotidiano.
Esses números não são apenas estatísticas. São vidas. São vozes que se perdem no silêncio da exclusão.
Práticas de alfabetização e letramento desde a mais tenra idade são urgentes!
Promover o contato com a leitura e a escrita na primeira infância, de forma lúdica e significativa, não apenas estimula o desenvolvimento cognitivo e linguístico, mas também desperta a curiosidade, a criatividade e o pensamento crítico. Ao imergir as crianças em um universo de palavras e histórias desde cedo, estamos garantindo que elas desenvolvam não só a capacidade de decodificar e codificar o mundo escrito, mas também de compreender e interagir plenamente com ele, construindo sua autonomia e sua voz no mundo. Ignorar essa etapa essencial é privá-las das ferramentas fundamentais para exercerem sua cidadania e se integrarem plenamente na sociedade letrada, condenando-as a uma participação superficial.
Em contrapartida, a importância das práticas de alfabetização e letramento transcende os anos iniciais de escolaridade, configurando-se como uma jornada contínua que se amplia em complexidade ao longo de toda a vida do indivíduo. Dominar a leitura e a escrita não é um ponto de chegada, mas, sim, a base para um desenvolvimento intelectual e social ininterrupto. À medida que o indivíduo avança em sua trajetória, a capacidade de interpretar textos cada vez mais complexos, produzir argumentos elaborados e interagir criticamente com as diversas formas de linguagem se torna essencial para a participação plena na sociedade, no mercado de trabalho e na vida democrática. Refinar essas habilidades permite não apenas a aquisição de novos conhecimentos e o aprofundamento do pensamento crítico, mas também a adaptabilidade diante das constantes transformações do mundo, garantindo que o indivíduo possa continuar aprendendo, expressando-se e se reinventando em qualquer fase da vida.
Quando o ser humano domina a leitura e a escrita, algo essencial se revela. Não se trata apenas de decodificar símbolos, mas de ganhar a capacidade de compreender o mundo, interpretar mensagens e interagir com as ideias. Essa habilidade de dar forma ao pensamento e de assimilar o conhecimento contido nas palavras é um divisor de águas. Ela conecta pessoas e saberes, permitindo que narrativas se encontrem, que a informação flua e que a criatividade se expanda. Em essência, a alfabetização e o letramento transformam vidas, oferecendo a autonomia e a liberdade de participar plenamente em todas as esferas, em que cada nova palavra assimilada ou expressa é um passo em direção a um futuro com mais clareza e possibilidades.

 

10 práticas imprescindíveis de alfabetização e letramento

Para um processo de alfabetização e letramento verdadeiramente eficaz e significativo, é fundamental integrar as seguintes práticas no cotidiano escolar e além:

  

 1. Leitura diária de textos significativos: Expor as crianças a uma vasta gama de textos autênticos (literários, informativos, de uso cotidiano) que circulam socialmente, lidos em voz alta pelo professor ou pelos próprios alunos, estimulando o prazer pela leitura e a compreensão de suas funções.

   2. Produção textual com função social definida: Propor atividades de escrita em que os alunos produzam textos com um propósito claro (escrever um convite, uma carta, uma lista, um cartaz, um bilhete) para um leitor específico, mesmo que o professor seja o escriba inicial.

   3. Análise linguística contextualizada: Refletir sobre as características da língua escrita (letras, sílabas, palavras, pontuação, ortografia, concordância) a partir de textos reais lidos ou produzidos, e não de forma isolada, buscando compreender como esses elementos contribuem para o sentido.

   4. Produção coletiva de textos com mediação qualificada: Desenvolver textos em conjunto com a turma, com o professor atuando como escriba, modelando o processo de escrita, explicitando as escolhas linguísticas e promovendo a reflexão sobre a transposição da fala para a escrita.

   5. Ampla exploração de gêneros textuais diversificados: Trabalhar com diferentes tipos de texto (quadrinhas, adivinhas, músicas, contos, notícias, receitas, anúncios), explorando suas características e suas funções e a forma como a linguagem se adapta a cada um.

   6. Rodas de leitura e escrita: Criar momentos de troca, em que os alunos compartilham suas leituras, suas produções textuais, suas descobertas e dúvidas sobre a língua, construindo, coletivamente, o conhecimento.

   7. Incentivo à escrita espontânea e ao levantamento de hipóteses: Valorizar as tentativas de escrita das crianças, mesmo antes de dominarem o sistema alfabético convencional, compreendendo que são etapas importantes no processo de construção da escrita e do letramento.

   8. Uso de materiais impressos variados no ambiente escolar: Organizar um ambiente rico em materiais escritos (livros, revistas, jornais, rótulos, cartazes, listas) que despertem a curiosidade e convidem à interação com a cultura escrita.

   9. Projetos de leitura e escrita significativos: Desenvolver projetos de longa duração que envolvam a pesquisa, a leitura de múltiplas fontes e a produção de textos complexos, culminando em produtos com relevância social (exs.: jornal da turma, livro de receitas, peça teatral).

   10. Conexão entre oralidade e escrita: Estabelecer pontes claras entre a linguagem oral e a escrita, mostrando como o que se fala pode ser registrado e como o que está escrito pode ser lido em voz alta, valorizando a fala do aluno como ponto de partida para a reflexão sobre a escrita.

É importante ressaltar que todas essas práticas, embora essenciais desde os primeiros anos, são plenamente adaptáveis a diferentes faixas etárias e níveis de desenvolvimento. Sua complexidade e a profundidade da reflexão sobre a linguagem podem e devem ser ampliadas progressivamente, garantindo que o processo de alfabetização e letramento seja contínuo, significativo e desafiador em todas as etapas da jornada educacional do indivíduo.

Que o eco dessas palavras e a força dessas práticas se espalhem e inspirem educadores a transformarem cada escola, cada sala de aula em pontes para um futuro mais justo e igualitário.

A autora
Paty Fonte é consultora educacional; filósofa; palestrante; Especialista em Pedagogia de Projetos; pós-graduada em Pedagogia das Infâncias e em Alfabetização e Letramento; escritora com vários livros publicados, dentre eles o recém-lançado em coautoria com Sandra Bozza Palavras que transformam: práticas de alfabetização e letramento, publicado pela Editora Rotas.
Contato: @professorapatyfonte

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