Edição 140

Fique por dentro

Sem bicho-papão

Filomena Santos Silva

Ter medo é uma situação absolutamente normal para qualquer criança de idade pré-escolar. Ajude a turma a enfrentá-lo.

Pesadelos, abandono, dentista, animais… A maioria dos medos infantis relaciona-se a situações que a criança não controla e que causam insegurança. Um dos mais frequentes é o medo do escuro. A criança até os 6 anos tem um jogo simbólico intenso, no qual a fronteira entre a realidade e a fantasia nem sempre é clara. Nesse contexto, os monstros surgidos nos sonhos, os barulhos no escuro ou as sombras do quarto transformam-se facilmente em ameaças terríveis e angustiantes. A criança acorda muitas vezes assustada e só se acalma com a presença dos pais. Ela precisa ser reconfortada e ouvida atentamente para sentir que seus medos são valorizados. Os pais devem ajudá-la a falar sobre seus temores, contando o que se passou, e orientá-la para criar uma solução para o problema: “O que poderá fazer para enfrentar os monstros?”.

Essa solução passa, frequentemente, pelo uso da criatividade, e a criança pode fazer uma magia para o mau desaparecer, transformar o monstro num amigo ou virar um super-herói invencível. Deve-se explicar que os sonhos maus assustam muito, mas que se passam dentro da cabeça e que é ela mesma que os controla, por isso ninguém pode entrar em sua cabeça para lhe fazer mal.

É muito positivo brincar com a molecada no “escuro” e fazer “explorações noturnas” com a ajuda de uma lanterna, mostrando como o espaço (escola, casa, etc.) é seguro. Assim, a criança aprende a enfrentar seus medos. É desejável tornar as situações previsíveis para que os pequenos possam controlar a ansiedade provocada por situações novas: se eles vão a uma consulta médica ou ao dentista, é necessário explicar-lhes o que vai acontecer, contando sempre a verdade; não se deve omitir a existência da dor, mas, para aliviar a tensão, pode-se dizer que vai passar depressa. É sempre bom recompensar o bom comportamento da criança.

Com o crescimento, os medos vão diminuindo de intensidade, à medida que a criança adquire maior autocontrole. O papel dos pais e educadores é ajudar a molecada a ultrapassá-los, promovendo a confrontação progressiva com os objetos fóbicos, ou seja, causadores do medo.

Mas atenção: existem também medos reais que são importantes para a sobrevivência da criança, como medo de altura, de animais selvagens e ladrões, e eles devem ser encarados com naturalidade, pois são protetores e levam a evitar os estímulos que os desencadeiam.

Estratégias para o professor

• Peça, em grupo, para cada criança falar sobre seus medos, descobrindo como são comuns e desbloqueando tensões.

• Permita que a turma partilhe as soluções já encontradas para ultrapassar os medos.

• Coloque, no cantinho das fantasias, adereços e máscaras para brincar com os medos (orelhas de lobo, lençol de fantasma, máscara de monstro, lanternas com raios mágicos).

• Organize dramatizações em que as crianças possam vivenciar os medos, podendo optar por papéis de “herói” ou de “mau”.

• Conte histórias que falem sobre os medos e as formas de ultrapassá-los, apoiando-se em livros e nas vivências pessoais.

• Se grande parte da turma não conseguir dormir sozinha, implemente um sistema de reforços positivos: ganhar estrelinhas, levar para casa a medalha do mais corajoso do dia, etc., reforçando perante o grupo a vitória de cada um (não se esqueça de valorizar também todos os que já dormem sozinhos, sem medo!).


Filomena Santos Silva é psicóloga.

Revista Coisas de Criança. O guia para pais e educadores. Barueri: Agepress, ano 1, n. 4, jul./2009. 3.

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