Edição 140
Em discussão
Na cama dos pais esse é um comportamento muito comum na hora de dormir, e, se não houver cuidado, transforma-se em definitivo
Filomena Santos Silva
Dormir na cama dos pais começa, geralmente, por situações desculpáveis e perfeitamente legítimas: “É só hoje”, “Está doente”, “Teve um pesadelo”, “O pai não está em casa”, “Tem medo de chuva”, “Fez xixi na cama”. No entanto, quando se percebe, essa “visita” noturna se transforma num estado definitivo. A criança deixa de conseguir dormir sozinha, apresenta um sofrimento autêntico e se sente, verdadeiramente, abandonada quando vai para o próprio quarto.
Existem crianças, ainda, que têm imensa relutância em ir para a cama, encontrando desculpas e procurando retardar a hora de deitar. Elas “exigem” a presença dos pais para adormecer, uma e outra história, o copo de leite e, em tempos modernos, a televisão ligada. Normalmente, essas crianças têm dificuldade em separar-se dos pais e uma grande necessidade de se preencher afetivamente com a presença deles.
É fundamental que a criança se habitue a ter um quarto diferente do dos pais e a adormecer sozinha: ela necessita de um espaço privado em que possa autonomizar, deixando de experienciar sentimentos de controle sobre os pais, uma vez que já não pode partilhar a intimidade do casal. O quarto da criança deve ser lúdico, colorido e gostoso de ficar. Ela deve senti-lo como seu: afinal, é o espaço onde dorme, sonha, brinca e pode enfrentar seus medos, suas frustrações e suas angústias. Se os pais estiverem “sempre ao lado”, acabam não permitindo que seu crescimento emocional se processe harmoniosamente.
Assim, se a criança ainda “não se mudou” para sua cama, os pais devem ficar atentos e, sobretudo, não ceder a choros e pressões do tipo “É só hoje”. Definir regras claras, como, por exemplo: “Pode ir para nossa cama quando já for dia” e “Amanhã, não há aula, e, por isso, pode ficar um pouquinho em nossa cama”. O importante, em todos os casos, é não transformar a hora de ir para a cama em uma batalha.
AQUI, FICAM ALGUMAS SUGESTÕES QUE PODEM SER DADAS AOS PAIS
• Criar rotinas: assim, tudo fica mais previsível, o que dá segurança. Tentar colocar a criança na cama sempre na mesma hora e criar um ritual (por exemplo, escovar os dentes e ler uma história).
• Tornar o ambiente calmo, escuro e confortável e evitar atividades que possam excitar a criança.
• Deitar a criança na própria cama e sair do quarto com ela ainda acordada.
• Se achar que ela se sente mais segura, deixar a porta aberta, uma luz de presença acesa e/ou uma música relaxante tocando.
• Habituar a criança a voltar a adormecer sozinha se por acaso acordar no meio da noite.
• Alimentá-la de madrugada ou levá-la para sua cama são procedimentos que devem ser evitados, pois prolongam os problemas.
• A cama não deve ser usada como “castigo”. O local onde dorme deve ser agradável, e não se deve castigá-la negando-lhe os rituais instituídos ou não se despedindo dela.
• Descobrir um boneco, uma fralda ou um pano com que a criança goste de dormir. Esse objeto transitivo funciona como substituto dos pais e pode ajudá-la a se controlar sozinha.
• Não se deve perder a calma nem quebrar a rotina estabelecida.
• Sempre que a criança aparecer no quarto dos pais, eles devem, calmamente, levá-la à cama dela, procurando não mostrar ansiedade. Se ela chorar, não se deve ir imediatamente a seu quarto, aumentando, progressivamente, o intervalo em que vai vê-la.
• Combinar alguns reforços positivos, como, por exemplo, se conseguir adormecer sozinha, no dia seguinte farão uma brincadeira em conjunto ou um programa especial. Não se deve castigar a criança, pois esse é justamente o comportamento que se quer evitar.
Lembre-se
Aprender a adormecer e voltar a dormir sozinha são comportamentos naturais da criança e estão relacionados com a maturação do sistema nervoso central, com o desenvolvimento da personalidade e com a aprendizagem.
Cabe aos pais usar o bom senso para decidir quando a visita à cama dos pais é uma forma de reforçar laços afetivos ou, ao contrário, uma incapacidade da criança em se autonomizar.
Filomena Santos Silva é psicóloga.
Revista Coisas de Criança. O guia para pais e educadores. Barueri: Agepress, ano 1, n. 4, jul./2009.
