Edição 144

A fala do mestre

Transformações da adolescência… como agir?

Nildo Lage

É necessário sensibilidade para reconhecer que a adolescência
é um presente cujo anseio pela experiência da vida ocorre no agora.

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Os pais estão cientes de que os filhos passarão por transformações. Por que não se organizaram para lidar com a questão que gera desconforto? Como administrar essas transformações? Desprovidos de fundamentos para encarar a realidade, são evasivos em relação à indagação: “Como agir?”.

Diante do impacto, recuam e, de forma ainda mais alarmante, cientificam que estão imersos em conflitos emocionais, dificuldades comportamentais e dependências, pois cresceram como indivíduos híbridos, decorrentes do desenvolvimento em meio a famílias marcadas por violações e desamor.

A percepção dessa realidade suscita a reprovação. Mediante uma análise detalhada, evidencia-se que o primeiro aviso enfatiza a rápida evolução do adiantamento físico, incluindo alterações na tonalidade vocal, incremento da massa muscular e surgimento de pelos corporais. Num relance, é evocada a lembrança: os filhos cresceram, e agora?

Uma nova observação identifica o aparecimento de pelos pubianos e axilares, que estimulam o aumento da transpiração, resultando em odor corporal, devido à produção de hormônios sexuais, como o estrogênio e a testosterona, os quais provocam conflitos de sentimentos e emoções, culminando em alterações frequentes de humor.

Ao investigar a verdade, surgem as dúvidas: qual é a abordagem eficaz para interagir com uma pessoa cujos hormônios encontram-se em efervescência? Sem norte para se posicionar, alarmam: “O que fazer?”. A consideração é espontânea: o que ofereceram no período de formação e transmissão de valores? Não obstante a ausência de expressão, a realidade é contrária: “Nada!”.

Perplexos, interrompem a trajetória, buscam um ponto de estabilidade e, ao revisitar o passado em busca de referências, surpreendem-se ao constatar a imensa distância que os separa dos filhos, alertando que não desperdiçaram tempo com indagações insignificantes, afastaram-se na busca por respostas.

O que é isso?

Adolescência! Esse processo de transição é o momento em que o indivíduo mais necessita da orientação dos pais, em razão das alterações sexuais, sociais, psicológicas, físicas, emocionais e biológicas que caracterizam uma fase repleta de descobertas e experiências que auxiliam na construção da identidade.

Da mesma forma que ocorre em qualquer processo de evolução física e humana, a falta de apoio pode tornar a jornada mais desafiadora, uma vez que sinaliza a passagem da dependência na infância para os desafios relacionados à obtenção da autonomia. É, com exatidão, a busca por essa autonomia que impulsiona a ação independente; entretanto, muitos podem sucumbir a armadilhas se não estiverem adequadamente preparados para fazer escolhas corretas.

O indicativo de um progresso nocivo é a falta de comunicação entre pais e filhos. O conjunto de conflitos tem início quando a discordância de ideias prejudica a convivência, em virtude da escassez de elementos que se tornam cada vez mais infrequentes no âmbito familiar: afeto, carinho, comunicação, respeito e autoridade.

A ausência de uma linguagem que favoreça a interação leva à desintegração de valores e normas familiares, uma vez que o adolescente não se submete a imposições que não estejam alinhadas ao seu sistema. Foca em sua meta e, ignorando perdas e consequências, avança na busca do objetivo de consolidar a identidade, visando à conquista da independência, que se apresenta como a principal alternativa para evoluir em direção à liberdade.

A etapa em si implica num convite à experiência completa, e a deficiência de orientação e atenção apropriada pode comprometer a integridade pessoal durante o processo de transformações. Isso acontece devido ao desenvolvimento físico, que ocorre de maneira extremamente rápida, não sendo supervisionado pelos responsáveis; e, quando fatores invisíveis se manifestam, o amadurecimento dos órgãos reprodutivos, com seus processos biológicos e hormonais, provoca desestabilizações emocionais.

Para agravar, a desestruturação familiar e o acesso restrito aos filhos produzem uma disputa entre gerações, que ocorre não somente no contexto familiar, mas também na esfera escolar, dado que é nesse ambiente que se consolidam as identificações com o grupo.

Isso gera tanto evolução quanto retrocesso, uma vez que experiências coletivas moldam condutas, intensificam ou diminuem desordens psicológicas e emocionais que provocam ansiedade e estresse e, como a própria fase, trazem incertezas quanto ao futuro e aumentam as tensões emocionais, que incentivam a procura de alternativas para escapar da pressão familiar.

Se a estrutura familiar estiver fragilizada, há o início do processo de desregulação emocional. Porque a inexistência de debates que promovam diálogos francos, visando a compreensão de um indivíduo que, ao entrar em contato com a vida, requer orientação para não se afastar de seus objetivos, gera relação de fugas e conflitos.

O desafio primordial é restringir o descarrilhamento originado na base. Pais confusos acreditam possuir competência para moldar os caminhos da vida e, dessa forma, supõem saber como guiar seus filhos por meio do tempestuoso mar da existência em direção ao porto das realizações!

É necessário sensibilidade para reconhecer que a adolescência é um presente cujo anseio pela experiência da vida ocorre no agora; de tal forma que as repercussões das ações não realizadas se fazem sentir: os pais passam a ouvir, estes que nunca dispunham de tempo para orientar e, até mesmo, para permanecer em silêncio para ouvir os apelos de um eu que clama por apoio para seu desenvolvimento, porque, acompanhar o desenvolvimento do filho implica em proporcionar as condições essenciais para estabelecer uma relação fundamentada no afeto e no respeito, iniciando pelo ato de ouvir.

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Como proceder?

Silenciar e conservar-se em silêncio, a fim de que o grito contido possa ser liberado; na sequência, permitir que sentimentos e emoções se expressem em resposta a ações, gestos e reações que possibilitam ao adolescente compreender que atitudes coerentes geram resultados positivos e conduzem a soluções justas. Nesse processo, uma comunicação transparente e acolhedora atenua os conflitos e favorece a autonomia por permitir a estipulação de limites.

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Enfrentar um período de transformações complexas requer uma estrutura que atue como referência para o indivíduo que se encontra imerso em um turbilhão de emoções mutáveis. Esse fenômeno resulta do aumento da sensibilidade e das reflexões contraditórias, que provocam indagações, inclusive acerca de valores e princípios, os quais necessitam de respostas imediatas, dado que a busca por aceitação social se torna o objetivo primordial.

A falta de entendimento provoca ações e reações que acentuam a confusão emocional ao impulsionar um fluxo de explosões afetivas, que podem resultar em comportamentos de risco, levando muitos pais a questionar: “Como agir?”. A resposta à razão ocorre de forma automática: estão dispostos ao diálogo sem preconceitos, preparados para ouvir e oferecer apoio, de modo que as emoções possam ser manifestadas e respeitadas, aliviando, consequentemente, as ansiedades?

É preciso direcionamento para perceber que o percurso mais seguro é o que se constrói mediante um diálogo cordial, pois facilita a aproximação. É por meio desse entrosamento que é possível compreender sentimentos, anseios e até percepções, que se convertem em referências para aceitar distintas perspectivas.

A família que atinge esse nível de interação com os filhos atinge o objetivo mais desejado: promover o equilíbrio ao respeitar a autonomia do adolescente sem renunciar aos limites e valores. A importância dessa questão para a formação do caráter e da personalidade é tão significativa que as deliberações ocorrem em um contexto que favorece a reflexão sem transgredir normas ou gerar repercussões nas decisões. Essa prática constrói a conexão que solidifica a relação de apoio, o respeito e a afeição entre progenitores e descendentes.

A criação de filhos assemelha-se à modelagem de um recipiente de argila: é necessário aprimorar cada curva e contorno para que eles saibam navegar nas águas emocionais da existência. Essa abordagem deve apresentar orientações para desenvolverem habilidades no manejo de emoções e sentimentos, constituindo, dessa forma, uma fortaleza psicoemocional que lhes permita lidar com os desafios e contornar as frustrações, uma vez que, na turbulência própria da adolescência, tudo se assemelha a um furacão de inseguranças. Manter uma conduta ética e responsável orienta o percurso, prevenindo que se ingresse na vida adulta portando as cicatrizes de uma transição conturbada.

Como obter sucesso no interior de uma família desestruturada?

Criar filhos sem presença, diálogo, afeto e suporte emocional é comparável a apanhar um pássaro, mutilar suas asas e libertá-lo em uma área habitada por gaviões famintos. Com a Geração Alfa, não é necessário inseri-los nos labirintos de uma sociedade desmantelada, uma vez que a carência de estrutura, por si só, transforma-se em um caminho que conduz à atração atual: os dispositivos digitais! O universo virtual se configura um refúgio, no qual indivíduos se reúnem e se divertem, uma vez que dispõem de alternativas e estímulos, mas estes os levam a se tornar adultos dependentes e desprovidos de ideais.

A intranquilidade funciona como um sinal de alerta para a família, permitindo que os pais percebam que uma presença acolhedora suaviza os conflitos e promove a convivência em um período crucial para o envolvimento. Oferecer uma estrutura que possibilita avanço prudente e liberdade que favorece a tomada de decisões e autonomia propicia um crescimento sem obstáculos.

Para promover o desenvolvimento humano isento de impedimentos, é essencial a comunicação através do diálogo! Proporcionar escuta implica em fomentar apoio e confiança, a fim de atrair os componentes que fortalecem as relações: respeito e responsabilidade.

É imprescindível lembrar que, independentemente das circunstâncias, falhas ou deslizes, os responsáveis devem estar acessíveis e prontos para acolher, auxiliar e possibilitar um progresso seguro. Os filhos não são dispositivos que chegam configurados no sistema familiar. Apesar dos avanços da inteligência artificial, caráter e personalidade não são softwares configuráveis no contexto familiar. Por representarem as bases que formam o conjunto de características psicológicas, emocionais, morais e éticas que singularizam cada indivíduo, devem ser cultivados por meio do convívio humano no ambiente familiar para que amor, respeito, responsabilidade e limites sejam transmitidos, e não adquiridos em ambientes comerciais.

Para isso, é fundamental perceber que não existe aprendizado sem a ocorrência de erros, assim como não há progresso sem a experiência de desafios. Isso requer a definição de diretrizes sem o uso de gritos, e, ao educar por meio do exemplo, promovemos mudanças de comportamento e edificamos uma relação de respeito recíproco, dado que ações condizentes se transformam em orientações que auxiliam o adolescente na compreensão de suas questões.

A efetividade do diálogo é de tal magnitude que evidencia que a vivência consiste na superação de desafios diários e no respeito aos limites alheios; pois, ao se converter em normas pautadas pela flexibilidade, favorece o processo de tomada de decisões. Tal ocorrência decorre do fato de que a maturidade, que sinaliza o percurso a ser seguido, é guiada pela responsabilidade, que adverte que decisões e escolhas influenciam o êxito ou o insucesso.

Lamentavelmente, os genitores não conseguem compreender ou não receberam de seus antecessores a essência da interação familiar. A escuta desprovida de julgamentos, quando acompanhada de correções apropriadas, contribui para o desenvolvimento humano, a autonomia e a maturidade. Através da prática da reflexão e da ação, beneficia a compreensão de que as ações resultam em consequências e ocasionam perdas; e, ao atribuir responsabilidade aos atos, impede equívocos e enfatiza que a liberdade eleva a autoconfiança e fomenta a saúde mental; contudo, requer dedicação para a realização de obrigações.

Considerando a importância desse momento decisivo na trajetória do desenvolvimento humano, é fundamental que o indivíduo reconheça suas competências e limitações ao enfrentar situações que evidenciam a relevância da autoconfiança durante uma transição repleta de emoções, anseios, desejos e obstáculos.

Apesar dos avanços da inteligência artificial, caráter e personalidade não são softwares configuráveis no contexto familiar.

A contribuição da família

É tudo! Dado que os fatores familiares, sociais e educacionais são essenciais para um desenvolvimento seguro, pois criar filhos em um ambiente que propicia o processo favorece a constituição de uma personalidade estável, solidificando uma identidade fundamentada em bases firmes, capazes de suportar as pressões sociais.

Na condição de tutor de um jovem, asseguro que uma infância desprovida de normas e limites culmina em uma adolescência repleta de conflitos com os pais e responsáveis, resultando, por consequência, em um adulto sem autocontrole, amor, domínio, referências, apreço, limitações… Trata-se de sementes que devem ser irrigadas e alimentadas com princípios.

Sem a realização da semeadura, não ocorrerá a colheita. Dessa forma, torna-se desafiador comprometer-se em uma trajetória em que a liberdade clama por oportunidade, pois o tempo reservado para aproximar-se, envolver, atuar e servir como exemplo foi desgastado por artifícios, apelos, recuos e hostilidades.

Muitos pais, mesmo posicionados na transição entre a primeira e a segunda infância, chegam a ser presentes e, até mesmo, coerentes e sinceros; entretanto, trocam abraço, colo e momentos de descontração, que simbolizam expressões de amor e afeto, por dispositivos eletrônicos e presentes. Estão presentes, e não envolvidos! Qual o motivo? Foi devolvido o que foi recebido dos pais? “Empreendemos todos os esforços disponíveis para suprir a ausência de amor e afeto que nunca vivenciamos!” Qual é a intenção? “Não sabemos! Os filhos estão em um estado de confusão e carecem de proatividade. Quais são os aspectos em que incorremos em erros? Oferecemos conforto e segurança. Tudo o que foi solicitado!”

Examine o roteiro e avalie se, na logline “Formação dos Filhos”, constam ações que visaram a proteção do bem-estar emocional e psicológico. Em vez de se tornarem heróis, passaram a ser considerados vilões! A construção da narrativa destaca, por meio de episódios dramáticos, as consequências das ações indesejadas: gritos, conflitos, agressões e abandono, que enfraqueceram a base do protagonista: a ausência de acolhimento, que comprometeu a estrutura que sustenta a estabilidade emocional.

Sem essa conexão que cria o vínculo com os filhos, torna-se complicado o desenvolvimento de adolescentes resilientes e autoconfiantes, uma vez que os pais, apesar de terem vivenciado as oscilações dessa fase, não percebem que as transformações enfrentadas pelos filhos durante a adolescência reforçam a relação entre pais e filhos, fundamental na vida adulta. O papel dos genitores é essencial para fomentar a confiança, não somente no período em que ações e decisões moldam a identidade, mas ao longo da vida.

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Atenção, pais!

Na qualidade de responsáveis, é essencial compreendermos o que define uma educação que forma para a vida! Não basta inscrevermos nossos filhos numa instituição de ensino de renome! A entidade educacional mais eficaz é a família, que proporciona a disseminação de saberes que fortalecem o eu, além de estabelecer normas e valores que configuram o caráter e moldam a personalidade.

A crise estabelece que o alicerce humano seja formado com respeito, limitações e obrigações, para que, em períodos de instabilidade, os obstáculos de uma sociedade com valores superficiais possam ser superados por atitudes que expressem a verdadeira essência do indivíduo.

O vínculo do adolescente com a família revela se ele é um indivíduo equilibrado ou problemático na escola, já que a educação familiar é o processo de transmissão de valores. Se nossos pais nos educaram de um jeito específico, causando traumas, é adequado repassar essas experiências para nossos filhos?

Devemos nos conservar silenciosos diante de tais erros e permitir que os filhos ultrajem colegas, professores e colaboradores? Até quando vamos camuflar a verdade por receio de enfrentar a realidade? Como procederemos caso sejamos convocados pelo Conselho Tutelar ou seja necessário comparecer à delegacia para prestarmos esclarecimentos acerca das atitudes de nossos filhos?

Não vamos negligenciar! As repercussões de gritos, agressões, desrespeito e insultos não são nada além de gerar filhos delinquentes! Trata-se do reconhecimento de que, enquanto pais, falhamos por não incorporar, na educação dos nossos filhos, os princípios que ressaltam os objetivos da vida. Essa afirmação demonstra a ausência de empenho em fomentar uma educação orientada para a vida. Vida que surgiu a partir de um incidente em um relacionamento e não foi devidamente valorizada, pois não foi planejada nem desejada com amor.

Se exibimos comportamentos violentos, nossos filhos, que se desenvolvem em um ambiente familiar tenso, exposto a várias formas de violência, reproduzirão essas vivências, sejam elas de caráter psicológico ou físico, em suas relações com colegas e educadores.

Ameaçamos, agredimos e, dessa forma, fomentamos a violência, promovemos o afastamento, mesmo cientes de que a adolescência é o período do desenvolvimento do caráter e da personalidade. Todavia, nossas ações, palavras, reações e comportamentos funcionam como golpes que empurram para o fundo do poço um eu que precisa de aceitação, e, ao prejudicarmos o seu desenvolvimento humano, ceifamos as suas chances de vitória!

Com tais comportamentos, cultivamos a erva daninha que se prolifera no ambiente familiar: a desordem. Isso causa danos psicológicos e emocionais a um ser que não possui a maturidade necessária para compreender as origens das incertezas, resultando na deformação da personalidade.

Ao lidarmos com todas as situações com gritos e agressões, estamos motivando nossos filhos a vencerem os obstáculos da vida através do uso de violência. Este é, efetivamente, o cenário constatado no ambiente escolar: estudantes agressivos, carentes de respeito em relação aos colegas e educadores; indivíduos desprovidos de idealismo, de consciência sobre limites, de respeito e, sobretudo, da compreensão de que o outro não representa um mero recurso para satisfazer suas necessidades.

A desordem ressalta um cenário educacional onde os intervalos não são somente momentos de alívio para os professores, mas também oportunidades para ultrapassar obstáculos entre os estudantes. Isso ocorre devido à dificuldade dos pais em criar vínculos com seus filhos, resultando na falta de habilidades sociais.

Considerando a deterioração da estrutura familiar, torna-se fundamental questionar: qual é a justificativa para a alta incidência de violência no ambiente escolar? Essa situação reflete uma formação escassa de afeto e uma liberdade desamparada de apoio. Porque a formação foi fundamentada em abusos, mesmo com a compreensão de que sanções violentas não favorecem a aprendizagem, elas geram medo, incitam desrespeito… Modificam a personalidade, cujos efeitos se manifestam no contexto escolar… Se meus pais me agridem, por que não posso fazer o mesmo com os meus colegas?

As repercussões de gritos, agressões, desrespeito e insultos não são nada além de gerar filhos delinquentes!


E-mail: nildolage7@gmail.com

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