Edição 117

Em discussão

Valorizar e empregar o diálogo como forma de esclarecer conflitos e tomar decisões coletivas

Laura Monte Serrat Barbosa

Diálogo e decisões coletivas dizem respeito ao desenvolvimento grupal. A escola precisa desenvolver a “grupalidade” como instrumento de convivência. Não estamos mais no século da certeza, no qual o saber era único e transmitido como algo pronto e acabado. Encontramo-nos, sim, no século da dúvida, no qual o questionamento e a pergunta passam a ser a melhor forma de ensinar e aprender.

Salas de aula com carteiras enfileiradas durante o tempo todo não combinam com diálogo, com coletivo, com grupo. O professor que sabe tudo e não pergunta nada, só expõe o seu saber, não combina com diálogo e com coletivo. O aluno que só repete e não questiona não combina com diálogo e com coletivo. Sendo assim, percebemos que a necessidade de diálogo impõe uma nova forma de ensinar e de aprender.

Se continuarmos a funcionar de forma tradicional, não conseguiremos dialogar. Costumo dizer que trocar a posição das carteiras não muda, por si só, a concepção de ensino de ninguém, mas pode interferir na forma como o professor vai se posicionar diante da turma e pode, também, gerar um incômodo que inquieta e leva a novas descobertas.

img-2Diálogo supõe mais de uma pessoa, supõe a expressão de pensamentos, as percepções,
as ideias, os sentimentos e a escuta de pensamentos, percepções, ideias e sentimentos de outro ou outros.

Essa forma de comunicação só é possível, na sala de aula, quando o professor deixa de ser o centro permanente do processo ensino-aprendizagem, quando o aluno também não centraliza o tempo todo e acaba por fazer do jeito que quer, sem precisar se frustrar e contar com opiniões diferenciadas em relação à sua.

Dialogar envolve disponibilidade para ouvir o outro, mesmo sem concordar com ele e conseguir falar dessa não concordância, abrindo uma possibilidade de mudança das duas posições iniciais.

As aulas, para serem dialogadas, necessitam de uma dinâmica diferente. As perguntas devem iniciar o processo, a discussão, no grande grupo ou em pequenos grupos; devem levantar as várias visões do assunto, oferecendo, aos participantes da conversa, alternativa interessante de encaminhamento para as questões.

O diálogo pode enriquecer aulas expositivas, apresentações e demonstrações; ele não se opõe às formas mais tradicionais de encaminhar o trabalho, mas complementa e pode auxiliar no aprofundamento de muitos temas. Além do uso do diálogo como elemento pedagógico capaz de ampliar a aprendizagem, sou defensora de que ele deve medir muitos conflitos que surgem no interior da instituição escolar, principalmente aqueles ligados às relações e à convivência na sala de aula.img-2

O exercício do diálogo passa também pela possibilidade de os alunos terem espaço para resolver seus conflitos pessoais nos momentos do intervalo. Atualmente, o adulto participa tanto
da solução de conflitos dos alunos que eles acabam por não desenvolver habilidades para argumentar de forma mais autônoma e resolver problemas. O professor, ao desenvolver um trabalho que envolve o diálogo, acaba ensinando uma ferramenta importantíssima para seus alunos. Em outros momentos, eles podem resolver situações sem, necessariamente, depender do adulto.

A atual sociedade de consumo acaba desenvolvendo pessoas mais individualistas. A prática do grupo e o exercício de decisões coletivas se tornam cada dia mais necessários em nosso meio. Conversar, cooperar e conviver são ações que precisam do outro e desenvolvem comportamentos mais humanos.

Temos, com certeza, muitas razões para desenvolver a capacidade de dialogar, porém razões poéticas para considerar o diálogo uma ferramenta importante para aprender podem nos tocar mais de perto, já que, às vezes, as mensagens não chegam só pela razão.

Hoje, corremos, olhamos uns aos outros, mas não nos enxergamos. Ouvimos, mas não escutamos. Cumprimentamo-nos, mas não desejamos, de fato, que o outro tenha um bom dia. O mundo do instantâneo faz com que sejamos autômatos.

O diálogo exige de nós que estejamos mais inteiros em uma situação, que falemos o que realmente queremos falar, que escutemos o que o outro tem a dizer, sem pressa, sem conclusões apressadas, que olhemos para o outro como ele é, e não como gostaríamos que fosse. Acalmar a corrida e acreditar que o outro é capaz são fortes razões para que a escola acredite que é importante desenvolver o diálogo.

Sozinha com a multidão. Que mundo apressado! 

Andando na rua, olho pro chão, não olho pro lado, vejo as horas, caminho mais rápido, esbarro nos outros, não peço desculpas, preciso chegar. O tempo é precioso. Subir ao vigésimo andar come minutos, atrasa o jantar.

Nessa corrida, não vejo você, não escuto seus pedidos, não seco suas lágrimas, não me dedico aos queridos…

Tenho medo dos perigos, não olho para os lados, olho para o chão.

Evito desagrados, vejo as horas, apresso os passos e chego então. Finalmente! O meu prato…

Vazio!?

Com a pressa, esqueço-me de comprar o alimento com o qual, sozinha, me aqueço.

Eis uma razão humana para defendermos o diálogo também na escola: as diferenças culturais, de crenças, de atitudes e a guerra que alimenta a venda de armamentos e incentiva o poder como forma de discriminação que indigna.

BARBOSA, Laura Monte Serrat. Temas transversais: como utilizá-los na prática educativa? Curitiba: Ibpex, 2007.

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