Edição 144
Professor Construir
Adolescência e a metáfora dos contos infantojuvenis: A jornada de transformação, descoberta e resiliência
Rosangela Nieto de Albuquerque

Matthias Stolt – stock.adobe.com
A adolescência é um período de transição intrincada e multifacetada, caracterizado por profundas mudanças biológicas, cognitivas, emocionais e sociais que pavimentam o caminho para a vida adulta. Longe de ser meramente uma fase de “crise” ou “problemas”, ela representa um tempo de “potencialidade” e “imensa riqueza”, fundamental para a formação da identidade e dos valores.
Para melhor compreensão das transformações dos adolescentes através da rica lente metafórica dos contos infantis, abordaremos as narrativas de Cinderela, O Patinho Feio, João e o pé de feijão, Chapeuzinho Vermelho, O Mágico de Oz e outras histórias infantojuvenis nos processos de puberdade e maturação cerebral, assim como a busca pela identidade, a dinâmica das relações sociais e os desafios inerentes a essa etapa. O objetivo é demonstrar como essas histórias ressoam com as experiências adolescentes, oferecendo insights sobre como pais, educadores e os próprios jovens podem navegar por essa jornada, promovendo resiliência, autonomia e um desenvolvimento saudável.
A adolescência constitui um período singular no ciclo de vida humano, servindo como uma ponte essencial entre a dependência da infância e a autonomia da idade adulta. É uma fase de desenvolvimento humano imediatamente posterior à infância e anterior à idade adulta, durante a qual ocorrem mudanças biológicas, sexuais, sociais e psicológicas significativas que culminam na formação de um indivíduo maduro. A Organização Mundial da Saúde (OMS) (2022) define esse período cronologicamente entre os 10 e os 19 anos de idade. Contudo, a literatura científica por vezes expande essa definição, abrangendo dos 9 aos 26 anos, dependendo da fonte e da lente de análise (psicossocial, temporal ou cultural). O próprio termo adolescência deriva do latim adolescere, que significa crescer, encapsulando a essência de transformação inerente a essa etapa.
Essa fase não é apenas um conjunto de mudanças físicas, mas um processo complexo de separação, no qual o adolescente, gradualmente, distancia-se da estrutura familiar para forjar o seu próprio espaço no mundo adulto. Esse movimento implica o desenvolvimento progressivo da autonomia e da autorregulação, capacitando o jovem a tomar decisões e a estabelecer os seus próprios limites. A variabilidade na definição etária da adolescência, que pode estender-se até os 26 anos, sugere que a adolescência transcende a mera biologia, sendo também um fenômeno psicossocial e culturalmente moldado. A prolongação da educação e o adiamento de marcos sociais, como o casamento e a parentalidade, contribuem para uma “moratória psicossocial”, um período em que os jovens adiam a assunção de papéis adultos para se dedicar à exploração da identidade. Essa perspectiva sublinha que as abordagens de apoio devem considerar não apenas a idade cronológica, mas também o estágio de desenvolvimento psicossocial do indivíduo e o seu contexto cultural.
A percepção popular, muitas vezes, estereotipa a adolescência como uma “aborrescência”, um período de rebeldia e crises. Contudo, a psicologia do desenvolvimento oferece uma visão específica, descrevendo-a como uma “crise esperada, normativa e saudável”, um tempo de “imensa riqueza” e “potencialidade” para a formação de valores e da identidade. É nesse contexto de profunda metamorfose que os contos infantis emergem como poderosas metáforas. Essas histórias, passadas de geração em geração, não são meros entretenimentos; elas são repositórios de sabedoria arquetípica, espelhando jornadas universais de crescimento, superação e autodescoberta. Ao articular as transformações da adolescência com os enredos e personagens desses contos, podemos desvendar camadas de significado e oferecer uma compreensão mais empática e acessível dessa fase vital.
Ao articular as transformações da adolescência com os enredos e personagens desses contos,
podemos desvendar camadas de significado e oferecer uma compreensão mais empática e acessível dessa fase vital.
Nesse contexto, utilizando os contos infantis como alegorias para ilustrar os desafios e as estratégias de apoio, teremos uma exploração das dimensões biológicas, cognitivas, emocionais e sociais da adolescência, desde o final da infância até a busca por autonomia. Assim, navegaremos nas complexas relações sociais como as jornadas de Cinderela, do Patinho Feio, de João, de Chapeuzinho Vermelho, de Dorothy, entre outros, que ressoam com a experiência adolescente, oferecendo insights valiosos sobre como agir para promover um desenvolvimento saudável e resiliente.
O despertar do corpo e da mente: a metamorfose biológica
A adolescência é inaugurada pela puberdade, um período de intensas transformações biológicas e hormonais que preparam o corpo para a reprodução e a vida adulta. Esse processo, impulsionado por uma programação genética, envolve um rápido crescimento físico e a maturação sexual, com o desenvolvimento de características sexuais primárias e secundárias. O crescimento acelerado e, por vezes, desigual das partes do corpo pode levar a uma temporária falta de coordenação, fazendo com que os adolescentes pareçam desajeitados, uma manifestação visível da assincronia entre o corpo em rápido desenvolvimento e o cérebro em maturação mais gradual.
O Patinho Feio
A metáfora da puberdade e da autoimagem

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A história de O Patinho Feio é uma poderosa alegoria das transformações físicas e da autoimagem na adolescência. O patinho, diferente de seus irmãos, é rejeitado e ridicularizado por sua aparência. Ele se sente feio e deslocado, uma experiência que ressoa com a vulnerabilidade da autoimagem e autoestima na adolescência. As rápidas mudanças corporais, o surgimento de acne, odores e pelos e a pressão social para se conformar a padrões estéticos irreais podem levar a sentimentos de inadequação e insatisfação corporal.
O patinho, ao longo de sua jornada, busca um lugar onde se encaixe, experimentando diferentes grupos e ambientes, mas sempre se sentindo um estranho. Isso reflete a busca por aceitação e pertencimento que se intensifica na adolescência, quando a conformidade com os pares se torna crucial para a autoestima. A “audiência imaginária”; a crença de que os outros estão constantemente focados em sua aparência e seu comportamento exacerba essa autoconsciência. O clímax da história, quando o patinho descobre ser um cisne, simboliza a aceitação de sua verdadeira identidade e a compreensão de que sua “fealdade” era, na verdade, a beleza de sua singularidade. Para o adolescente, isso representa a superação da insatisfação corporal e a construção de uma autoimagem positiva, que contribui para uma melhor autoestima, relacionamentos sociais mais robustos e maior resiliência. O apoio de um ambiente acolhedor, como o lago onde o cisne encontra sua família, é fundamental para que o adolescente possa florescer e reconhecer sua própria beleza e valor (Santos e Rodrigues, 2023).
Pinóquio
A maturação cerebral e a consequência da impulsividade

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A jornada de Pinóquio para se tornar um “menino de verdade” pode ser interpretada como uma metáfora da maturação cerebral na adolescência. No início, Pinóquio é impulsivo, facilmente distraído e propenso a mentiras, com seu nariz crescendo a cada falsidade. Isso reflete a imaturidade do córtex pré-frontal (CPF), a última área do cérebro a amadurecer, responsável pelo pensamento crítico, pelo autocontrole, pelo planejamento e pela tomada de decisão. O sistema límbico, responsável pelas emoções e pelos impulsos, desenvolve-se anos antes do CPF. Essa assincronia neurológica leva os adolescentes a usarem mais a amígdala (parte do sistema límbico) para tomar decisões, resultando em escolhas mais emocionais e impulsivas, e a uma maior propensão a comportamentos de risco. O nariz de Pinóquio, que cresce com suas mentiras, é uma representação visual das consequências imediatas da impulsividade e da falta de autocontrole, características comuns quando o CPF ainda não está plenamente desenvolvido.
Ao longo de suas aventuras, Pinóquio aprende com seus erros, enfrenta perigos e, gradualmente, desenvolve a capacidade de discernir o certo do errado, de resistir a tentações e de pensar nas consequências de suas ações. Essa jornada de aprendizado e amadurecimento reflete os processos de mielinização e poda sináptica no cérebro adolescente, que melhoram a eficiência do processamento de informações e fortalecem as conexões neurais, permitindo um maior controle cognitivo e uma tomada de decisão mais ponderada. A transformação final de Pinóquio em um menino de verdade simboliza a conquista da maturidade cerebral e a integração de um eu mais autônomo e responsável.
A busca pela identidade: “Quem sou eu?”
A adolescência é, por excelência, a fase da crise de identidade versus confusão de papéis, conforme a teoria psicossocial de Erik Erikson (2017). O adolescente busca definir “[…] quem a pessoa é, quais são seus valores e quais as direções que deseja seguir pela vida”. É um processo complexo de integração de diversas identidades (pessoais, sociais, sexuais, vocacionais) em um sentido de si coeso (Schoen-Ferreira; Aznar-Farias e Silvares, 2003).
Mulan
A metáfora da exploração de papéis e da autodescoberta
A história de Mulan, que se disfarça de homem para tomar o lugar de seu pai no exército, é uma poderosa alegoria da exploração de papéis e da formação da identidade na adolescência. Mulan, inicialmente, sente-se dividida entre as expectativas sociais de ser uma “boa noiva” e seu próprio senso de dever e coragem. Essa dicotomia reflete a “difusão de papéis”, um estado em que o adolescente ainda não estabeleceu compromissos firmes com atitudes ideológicas, ocupacionais ou interpessoais.
Ao assumir a identidade de um soldado, Mulan entra em uma “moratória psicossocial”, um período socialmente aceito para experimentar diferentes papéis e adiar compromissos definitivos. Longe das expectativas de sua família e sua comunidade, ela tem a liberdade de testar seus limites, descobrir suas habilidades e forjar uma nova versão de si mesma. As dificuldades que enfrenta no treinamento e no campo de batalha a forçam a desenvolver resiliência, inteligência e liderança, qualidades que ela não sabia possuir.
A revelação de sua verdadeira identidade e a sua aceitação como heroína, independentemente de seu gênero, simboliza a integração de suas diversas facetas em uma identidade coerente e autêntica. A jornada de Mulan demonstra que a formação da identidade não é um processo linear, mas uma exploração dinâmica, muitas vezes marcada por desafios e pela necessidade de desafiar normas sociais para descobrir o verdadeiro eu. O reconhecimento de suas realizações e o significado que elas adquirem em sua cultura são cruciais para a consolidação de sua identidade.
Chapeuzinho Vermelho
A metáfora da vulnerabilidade social e da influência de pares

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As relações sociais na adolescência passam por uma reconfiguração significativa, com a família e os grupos de pares desempenhando papéis cruciais e interligados. A família continua sendo a base de apoio, mas a importância dos grupos de pares cresce exponencialmente, tornando-se uma fonte vital de apoio emocional, validação e um espaço para a formação da identidade e o desenvolvimento de habilidades sociais.
A história Chapeuzinho Vermelho pode ser vista como uma alegoria da vulnerabilidade social na adolescência e da influência de pares, tanto positiva quanto negativa. Chapeuzinho, ao desviar do caminho seguro para colher flores, cede à tentação e à persuasão do Lobo Mau, que representa a influência negativa e os riscos que os adolescentes podem encontrar ao explorar sua independência.
A adolescência é um período de maior suscetibilidade à pressão de pares para comportamentos de risco, como o uso de substâncias ou a condução perigosa. O desejo de aprovação ou aceitação no grupo pode levar os adolescentes a assumirem riscos que, de outra forma, evitariam. O Lobo Mau, com sua astúcia e disfarce, simboliza a forma como as influências negativas podem ser enganosas e difíceis de serem identificadas.
A ausência de um adulto protetor (a mãe que a avisa, mas não a acompanha) e a ingenuidade de Chapeuzinho ilustram a necessidade de monitoramento parental e de normas claras de comportamento para proteger os adolescentes. A intervenção do caçador, que salva Chapeuzinho e sua avó, representa a importância de ter adultos de confiança e sistemas de apoio que possam intervir em situações de risco. A história, portanto, serve como um lembrete da necessidade de educar os adolescentes sobre os perigos do mundo e de capacitá-los a fazer escolhas seguras, mesmo quando confrontados com a tentação ou a pressão social.
O Mágico de Oz
A busca por pertencimento e as relações de pares
A jornada de Dorothy e seus companheiros em O Mágico de Oz é uma rica metáfora da busca por pertencimento e da dinâmica dos grupos de pares na adolescência. Dorothy, arrancada de seu lar, anseia por retornar, simbolizando a necessidade de segurança e de um “porto seguro” familiar. No entanto, sua jornada a leva a formar um grupo de amigos: o Espantalho, o Homem de Lata e o Leão Covarde — cada um buscando algo que acredita faltar em si (cérebro, coração, coragem, respectivamente).
Esse grupo de amigos representa a crescente importância dos grupos de pares na adolescência. Eles oferecem um “[…] senso de segurança, partilha de ideias e um espaço de apoio emocional e validação” durante os desafios da puberdade e as pressões culturais. Assim como Dorothy e seus amigos se apoiam mutuamente, os grupos de pares se tornam confidentes primários, por vezes mais do que os próprios pais (Maino, Sanches e Fontes, 2017).
A interação dentro do grupo de Dorothy também ilustra o desenvolvimento de habilidades sociais essenciais, como comunicação, colaboração e resolução de conflitos. Eles aprendem a trabalhar juntos, a valorizar as qualidades uns dos outros e a superar obstáculos em equipe. A influência social dos pares, embora possa ser negativa, é aqui retratada de forma positiva, com os amigos encorajando uns aos outros a enfrentarem seus medos e a descobrirem suas próprias forças. A história culmina com a descoberta de que o que eles buscavam no Mágico de Oz já residia dentro deles, reforçando a ideia de que a validação e o apoio dos pares são cruciais para a autodescoberta e a formação de uma identidade coesa.
O impacto das redes sociais: o espelho mágico e a floresta encantada

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As redes sociais são o “espelho mágico” e a “floresta encantada” da adolescência moderna, um ambiente dinâmico para a formação de identidades e a construção de relacionamentos. No entanto, sua influência é complexa, com impactos significativos na autoimagem e na socialização.
O “espelho mágico” das redes sociais, que reflete imagens idealizadas e padrões estéticos irreais, pode levar a sentimentos de inadequação, insatisfação corporal, ansiedade e depressão. A “floresta encantada” das interações online, embora ofereça conectividade e um senso de pertencimento, também pode diminuir as habilidades de comunicação face a face, aumentar a ansiedade social e dificultar a formação de relacionamentos próximos no “mundo real”. A ausência de contato visual nas interações virtuais pode levar a comunicações mais críticas e agressivas.
A vulnerabilidade dos adolescentes às redes sociais é acentuada pelo fato de os seus centros de recompensa social no cérebro ainda estarem em desenvolvimento, tornando-os mais suscetíveis a comentários e à validação online. Assim como as personagens dos contos precisam discernir entre o bem e o mal, os adolescentes precisam desenvolver literacia mediática crítica para navegar nesse ambiente digital, compreendendo que o que veem online é, muitas vezes, editado, encenado ou inteiramente fabricado.
Enfrentando os dragões: desafios e riscos comuns
A adolescência, embora seja um período de crescimento, é também uma fase de particular vulnerabilidade a diversos desafios e riscos que podem comprometer o desenvolvimento saudável.
João e o pé de feijão
A metáfora dos comportamentos de risco
A história João e o pé de feijão é uma alegoria da propensão a comportamentos de risco na adolescência. João, impulsionado pela curiosidade e pela busca por aventura, troca a vaca da família por feijões mágicos e escala um pé de feijão gigante, que o leva a um mundo desconhecido e perigoso. Essa atitude reflete o egocentrismo adolescente e um sentimento de invulnerabilidade, a crença de que coisas ruins só acontecem com os outros e nunca com eles, o que pode levar a decisões prejudiciais à saúde ou até fatais, como dirigir alcoolizado ou usar drogas.
A “fábula pessoal”, a crença de que são únicos e invulneráveis, reforça essa propensão ao risco. A busca por prazer e novas sensações e a partilha em grupo são fatores que influenciam a experimentação de drogas. O gigante no topo do pé de feijão representa os perigos e as consequências que podem surgir de comportamentos de risco não calculados. A história de João, no entanto, também mostra a importância da resiliência e da capacidade de aprender com as experiências. João, ao final, consegue superar o gigante e trazer riquezas para casa, simbolizando a possibilidade de transformar riscos em aprendizado e crescimento, desde que haja apoio e a capacidade de reflexão crítica.
A Bela e a Fera
A metáfora da saúde mental e da aceitação
A história A Bela e a Fera pode ser interpretada como uma metáfora das questões de saúde mental na adolescência, como depressão, ansiedade e transtornos alimentares. A Fera, isolada em seu castelo e amaldiçoada por sua aparência, vive em um estado de profunda tristeza e raiva, que pode ser associado a sintomas de depressão e isolamento social. A Bela, por sua vez, ao se sentir aprisionada e longe de sua família, pode experimentar ansiedade e desamparo.
Os transtornos alimentares, que frequentemente se desenvolvem na adolescência, podem ser um mecanismo de coping para lidar com baixa autoestima e emoções negativas. A Fera, com sua aparência distorcida, pode simbolizar a imagem corporal negativa e a insatisfação que muitos adolescentes sentem, levando a comportamentos não saudáveis.
A transformação da Fera em príncipe, impulsionada pelo amor e pela aceitação da Bela, simboliza a importância da aceitação incondicional e do apoio emocional para a recuperação da saúde mental. A Bela vê além da aparência da Fera, focando em sua bondade interior, o que reflete a necessidade de validar os sentimentos dos adolescentes e de criar um ambiente de apoio onde eles se sintam seguros para expressar suas emoções e buscar ajuda. A história nos lembra que a identificação precoce e a intervenção são cruciais para um prognóstico favorável e que a empatia e a conexão humana podem ser poderosas ferramentas de cura.
Os três porquinhos
A metáfora do bullying e da pressão acadêmica
A fábula Os três porquinhos oferece uma metáfora para o bullying e a pressão acadêmica na adolescência. O Lobo Mau, que tenta derrubar as casas dos porquinhos, representa o agressor, cujos “comportamentos agressivos intencionais, repetidos e prejudiciais” visam intimidar e causar sofrimento. Os porquinhos, especialmente os dois primeiros, que constroem casas frágeis, podem simbolizar a vulnerabilidade dos adolescentes ao bullying, que pode levar à baixa autoestima, ansiedade e depressão.
A pressão do Lobo para que os porquinhos saiam de casa pode ser comparada à pressão acadêmica, que pode vir de pais, professores ou da autoimposição de metas elevadas. O medo de não atingir essas metas pode levar a estresse, ansiedade e problemas de saúde mental. Os porquinhos que constroem casas de palha e madeira, cedendo à facilidade, podem representar a falta de estratégias de enfrentamento eficazes diante da pressão.
O terceiro porquinho, que constrói uma casa de tijolos, simboliza a resiliência e a preparação. Sua casa robusta resiste aos ataques do Lobo, mostrando que a preparação, o planejamento e a construção de uma base sólida (habilidades de enfrentamento, autocuidado, apoio social) são cruciais para resistir às adversidades. A história enfatiza que, embora o bullying e a pressão sejam desafios reais, a capacidade de construir “estruturas” internas e externas fortes permite que os adolescentes superem essas ameaças e prosperem.
A sabedoria da fada madrinha: estratégias de apoio e intervenção

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Compreender as transformações e os desafios da adolescência é o primeiro passo. O segundo, e mais crucial, é saber como agir para apoiar os jovens nesse período vital. As estratégias devem ser multifacetadas, envolvendo pais, educadores e os próprios adolescentes, como a sabedoria de uma Fada Madrinha que oferece orientação e ferramentas para a jornada.
Para pais e cuidadores (o papel da Fada Madrinha moderna)
Assim como a Fada Madrinha de Cinderela oferece apoio e recursos para que ela possa ir ao baile, os pais e cuidadores desempenham um papel fundamental no desenvolvimento adolescente, equilibrando liberdade e responsabilidade.
Comunicação aberta e escuta ativa
A Fada Madrinha ouve os desejos de Cinderela. Da mesma forma, pais devem criar um ambiente de diálogo e confiança, dedicando tempo para ouvir o adolescente sem julgamento, mostrando interesse genuíno e validando suas emoções. A escuta ativa permite que o adolescente se sinta compreendido e acolhido.
Estabelecimento de limites claros e justos
A Fada Madrinha impõe um limite claro: a magia acaba à meia-noite. Pais devem definir regras claras e consistentes para o comportamento, a comunicação e a socialização, garantindo a segurança enquanto o adolescente explora novas experiências. É crucial que os pais estejam abertos a discutir e, se necessário, rever as regras em conjunto com os adolescentes, adaptando-as às suas necessidades em mudança.
Fomento da autonomia e responsabilidade
A Fada Madrinha capacita Cinderela a agir por conta própria. Pais devem incentivar a participação em atividades seguras e supervisionadas (grupos de jovens, desportos, clubes, trabalho casual), permitindo que aprendam novas habilidades, assumam riscos positivos e desenvolvam um senso de pertença e resiliência. Envolvê-los em decisões familiares aumenta sua confiança e independência.
[…] os pais e cuidadores desempenham um papel fundamental no desenvolvimento adolescente, equilibrando liberdade e responsabilidade.
Gerenciamento construtivo de conflitos
O conflito, embora muitas vezes percebido negativamente, pode ser uma característica normal e até catalisadora do desenvolvimento da autonomia. Pais devem adotar uma abordagem positiva para a resolução de conflitos, fortalecendo o relacionamento e ajudando os adolescentes a desenvolverem habilidades cruciais de independência.
Para educadores e o ambiente escolar: o castelo do conhecimento e da empatia
O ambiente escolar, como um castelo do conhecimento, desempenha um papel crucial no apoio ao desenvolvimento adolescente, complementando o papel da família. A promoção da aprendizagem socioemocional (ASE) é fundamental para atender às necessidades dos jovens.
Cultivar uma cultura escolar segura e inclusiva
Assim como um castelo deve ser um refúgio seguro, a escola deve ser um ambiente acolhedor e inclusivo. Educadores podem estabelecer regras que priorizem o respeito, a empatia e a comunicação aberta, fomentando um senso de pertencimento.
Modelar e incentivar a regulação emocional
Professores têm a oportunidade de demonstrar habilidades de regulação emocional diariamente, ensinando técnicas de autogestão e mindfulness (como exercícios de respiração profunda).
Ensinar e praticar habilidades sociais
Atividades de aprendizagem colaborativa, onde os alunos trabalham em conjunto, partilham ideias e resolvem problemas em equipe, promovem o desenvolvimento de habilidades sociais essenciais como comunicação, colaboração e resolução de conflitos.
Incentivar a reflexão e a autoavaliação
Integrar oportunidades para reflexão e autoavaliação nas rotinas da sala de aula promove a autoconsciência, ajudando os alunos a obterem uma melhor compreensão de si mesmos.
Fomentar relações próximas com as famílias
Manter uma relação próxima com as famílias dos alunos é essencial para a troca de informações sobre as necessidades, dificuldades e habilidades dos alunos, melhorando o desenvolvimento socioemocional tanto na escola quanto em casa.
Para adolescentes o herói da própria história
Os adolescentes são os heróis de sua própria história, com um papel ativo e fundamental em seu desenvolvimento saudável, aprendendo a gerir as transformações e os desafios dessa fase.
Praticar o autocuidado
Assim como um herói se prepara para sua jornada, o autocuidado é essencial para o bem-estar geral. Isso inclui autocuidado psicológico (escrever um diário, ler), emocional (passar tempo com pessoas queridas, rir), físico (alimentação saudável, exercício, sono adequado) e espiritual (reflexão, contato com a natureza).
Desenvolver a resiliência
A resiliência é a capacidade de lidar com problemas, sobreviver e superar momentos difíceis sem ceder à pressão. Adolescentes podem desenvolvê-la ao enfrentar dificuldades como oportunidades de aprendizagem, observando adultos lidarem com desafios e normalizando momentos difíceis da vida.
Buscar ajuda quando necessário
Um herói sabe quando pedir ajuda. É fundamental que os adolescentes saibam que buscar ajuda é um sinal de força, não de fraqueza. Isso inclui identificar fontes de apoio (amigos, familiares, professores, conselheiros escolares ou profissionais de saúde mental) e utilizar recursos disponíveis como linhas de apoio telefônico ou centros de saúde mental. Normalizar a busca por apoio profissional antes que uma crise se instale modela a ideia de que a intervenção precoce é saudável e eficaz.
O “felizes para sempre”: resiliência e florescimento
O “felizes para sempre” dos contos de fadas, embora idealizado, representa o objetivo de um desenvolvimento adolescente bem-sucedido: a emergência de um adulto resiliente, autoconfiante e capaz de contribuir plenamente para a sociedade. A jornada da adolescência, com suas provações e seus triunfos, é um processo de amadurecimento que, quando bem apoiado, leva ao florescimento do indivíduo.
A compreensão de que muitos comportamentos adolescentes são manifestações de um cérebro em desenvolvimento ou de tarefas psicossociais normativas é fundamental para uma abordagem mais empática e eficaz. A assincronia entre o amadurecimento do sistema límbico e do córtex pré-frontal explica a impulsividade e a intensidade emocional, enquanto o egocentrismo adolescente e a moratória psicossocial de Erikson revelam a natureza exploratória e a busca por identidade. As dinâmicas familiares e dos grupos de pares, juntamente com o impacto pervasivo das redes sociais, influenciam profundamente a autoimagem e as habilidades sociais dos jovens.
As implicações para a prática são claras: um apoio eficaz aos adolescentes exige uma abordagem holística e colaborativa. Pais, educadores e a própria sociedade devem transcender a visão estereotipada da adolescência como uma “fase problemática” e abraçá-la como um período de imenso potencial e crescimento. Isso implica:

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Educação e consciencialização
Promover o conhecimento científico sobre o desenvolvimento adolescente para desmistificar comportamentos e fomentar a empatia.
Ambientes de apoio

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Criar ecossistemas familiares, escolares e comunitários que ofereçam segurança, validação e oportunidades para a exploração saudável da identidade e autonomia.
Desenvolvimento de habilidades
Ensinar ativamente habilidades de regulação emocional, comunicação, tomada de decisão e resolução de problemas, adaptadas ao estágio de desenvolvimento do adolescente.
Promoção da resiliência
Capacitar os jovens para lidarem com a adversidade, para aprenderem com os erros e para buscarem apoio quando necessário.
Literacia digital
Educar sobre o uso consciente e crítico das redes sociais, promovendo interações offline significativas.
Intervenção precoce
Estar atento aos sinais de sofrimento e procurar ajuda profissional sem estigma, garantindo que os jovens com dificuldades recebam o suporte necessário.
Considerações finais
A magia do crescimento
A adolescência é uma jornada épica, tão rica e complexa quanto os contos de fadas que nos encantam desde a infância. Ao reconhecer os paralelos entre as transformações biológicas, cognitivas, emocionais e sociais dos adolescentes e as provações e triunfos de personagens como Cinderela, Patinho Feio, João, Chapeuzinho Vermelho e Dorothy, ganhamos uma perspectiva mais profunda e compassiva. Essas metáforas não apenas tornam a ciência do desenvolvimento mais acessível, mas também reforçam a universalidade da experiência humana de crescimento.
A magia do crescimento na adolescência reside na capacidade de transformar desafios em oportunidades, de forjar uma identidade autêntica e de construir relações significativas. Ao agir com compreensão, apoio e estratégias baseadas em evidências, pais, educadores e a sociedade podem ser as “fadas madrinhas” e os “guias sábios” que ajudam os adolescentes a escreverem seus próprios “felizes para sempre”, tornando-se adultos resilientes, autoconfiantes e prontos para o mundo.
Referências
MAINO, Monica, SANCHES, Simone; FONTES, Maria Alice. O papel dos Grupos de Discussão na formação da identidade dos adolescentes. Clínica Plenamente. 2017. Disponível em: https://clinicaplenamente.com.br/o-papel-dos-grupos-de-discussao-na-formacao-da-identidade-dos-adolescentes-monica-maino-simone-sanches-maria-alice-fontes/. Acesso em: 24 jun. 2025.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). 2022. Adolescent health. Genebra: OMS. Disponível em: https://www.who.int/health-topics/adolescent-health#tab=tab_1 Acesso em: 25 jun. 2025.
REVISTA EDUCAÇÃO. Erik Erikson e a construção da identidade. 2017. Disponível em: https://revistaeducacao.com.br/2017/05/08/erik-erikson-e-construcao-da-identidade/. Acesso em: 25 jun. 2025.
SANTOS, Tânia Cristina Alves dos; RODRIGUES, Karen Lúcia Abreu. Impactos das redes sociais em relação à autoestima e autoimagem. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação. 2023. Disponível em: https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/8724. Acesso em: 25 jun. 2025.
SCHOEN-FERREIRA, Teresa Helena; AZNAR-FARIAS, Maria; SILVARES, Edwiges Ferreira de Mattos. A construção da identidade em adolescentes: um estudo exploratório. 2003. Disponível em: https://www.scielo.br/j/epsic/a/X5DFFZCZsb4pmrLchTsQVpb/abstract/?lang=pt. Acesso em: 24 de jun. 2025.
A autora
Rosangela Nieto de Albuquerque é ph.D. em Educação (Universidad Tres de Febrero), pós-doutoranda em Psicologia, Doutora em Psicologia Social, Mestre em Ciências da Linguagem, psicanalista clínica, neuropsicopedagoga, neuropsicóloga clínica, pedagoga, psicopedagoga clínica e institucional, professora universitária de cursos de graduação e pós-graduação, licenciada em Letras (Português/Espanhol), autora de projetos em Educação e da implantação de uma clínica-escola de Psicopedagogia Clínica como projeto social e autora e organizadora de treze livros nas áreas da Educação e da Psicologia.
E-mail: rosangela.nieto@gmail.com
