Edição 118

Espaço pedagógico

A educação bilíngue e o contexto atual

Magna Oliveira de Lima

helloNas últimas duas décadas, testemunhou-se em nosso país uma mudança ideológica que reconhece e incentiva o multilinguismo brasileiro e que legitimou a educação bilíngue em diferentes contextos. Além disso, assiste-se ao grande crescimento no número de escolas bilíngues português-inglês de prestígio. Essa forma de educação está em expansão no Brasil, mas ainda não possui uma legislação em âmbito nacional que a regulamente.

Com a grande demanda para aprender inglês, no mercado, existe uma tendência forte de os estabelecimentos de ensino buscarem o diferencial do ensino bilíngue. O bilinguismo perpassa muitos desafios; um deles é a abordagem comunicativa, que é um novo olhar sobre a prática docente no qual o aluno está no centro da aprendizagem.

Planejar essas ações demandam o mínimo de conhecimento acerca do processo de construção das relações do Brasil com a língua inglesa. Vale salientar que, para a conscientização dessas ações, esse tipo de ensino vai além do modismo e da mera concorrência mercadológica de quem oferece mais, no intuito de atrair o cliente para a escola.

Anualmente, diversas escolas bilíngues desse tipo são abertas nas grandes capitais, e muitas escolas regulares monolíngues passaram a adotar currículos bilíngues a fim de serem nomeadas bilíngues e, com isso, atingirem uma maior parcela da população brasileira de alta renda.

Com o tempo, as escolas regulares passaram a terceirizar o ensino de idiomas estrangeiros a fim de melhorar esse serviço, considerado ineficiente por várias razões, como falta de fluência dos professores, número de aulas insuficiente e muitos alunos em sala de aula. É nesse momento, então, que surgem as escolas bilíngues brasileiras. Essas escolas tiveram grande adesão das famílias brasileiras, que passaram a percebê-las como uma oportunidade cômoda para conseguir duas funções tão importantes e necessárias na educação de seus filhos: uma educação de qualidade e o ensino de um idioma.

Os modelos e tipos de educação bilíngue são variados e diferem quanto aos objetivos, às características dos alunos participantes, à distribuição do tempo de instrução nas línguas envolvidas, às abordagens e práticas pedagógicas, entre outros aspectos do uso das línguas e do contexto em questão.

De forma geral, a educação bilíngue está relacionada à instrução que ocorre na escola em pelo menos duas línguas. As escolas bilíngues têm como foco oferecer aos alunos altos níveis de proficiência nas duas línguas utilizadas na escola, por meio de uma abordagem baseada na aprendizagem de conteúdo.

bilingueMovimento maker na educação bilíngue

O movimento maker, conhecido como o movimento de colocação da mão na massa na educação bilíngue, tem se destacado e apresentado como de suma importância nos dias atuais. Surgiu da filosofia de que qualquer um poderá consertar, modificar e construir seus próprios objetos.

Hoje, descobrir como se faz algo é muito prático, fácil e acessível a qualquer pessoa. Daí a importância dessa “onda pedagógica” tendenciosa, que proporciona as descobertas de modo a otimizar o “fazer acontecer”.

Maker, do inglês, significa fazer, acontecer, que, em sentido prático, significa “Faça você mesmo”, ou “Do it yourself”. Surgiu da ideia de que qualquer pessoa poderá ser a inventora de suas próprias criações, apropriando-se de suas próprias ferramentas e sendo criadora de máquinas geniais. Uma de suas fundamentações se centra no compartilhamento de informações e uniões de tecnologias. A título de exemplo, cita-se a Campus Party, as invenções de Steve Jobs logo no início da Apple e a Maker Faire na China.

Há algumas características que fazem parte do movimento maker nas escolas bilíngues, a saber:

1. Os alunos são autores de suas descobertas, eles criam e constroem suas ideias e motivações.
2. A ideia principal é se ilimitar, ou seja, sair do universo dos livros, estimular sua criatividade, autonomia, aproveitando o máximo de conhecimento já obtido com o objetivo de alcançar o máximo de descobertas com a mão na massa.
3. Colocar em prática experimentos a partir de ideias construídas em teorias ou descobri-las na prática mesmo.
4. O foco do movimento é também proporcionar políticas públicas, com a finalidade de socorrer e proporcionar impacto social com soluções criativas e eficazes no meio onde está inserido.

Na verdade, esse movimento trouxe mais vida às práticas pedagógicas. Não se trata apenas de criar ambientes tecnológicos, modernos, mas de proporcionar um aprendizado mais dinâmico, mais inovador, mais moderno, mais divertido, superando ainda mais o aprendizado, já que ultrapassa barreiras de aprendizado antes limitadas às escolas dogmáticas que apenas transmitiam conhecimentos.

Algumas competências são necessárias para desenvolver, de modo eficaz, a educação maker, a saber: o envolvimento da equipe pedagógica, a criatividade nas escolhas das temáticas, as práticas argumentativas, a capacidade para trabalhar em equipe, o pensamento crítico, além de pensamento inovador. Tudo isso, aliado ao engajamento dos alunos do ponto de vista emocional e afetivo, consegue auxiliá-los a construir ideias, conhecimentos, comportamentos, hábitos, dando-lhes a possibilidade de escolhas quanto aos conteúdos, em que amplitude trabalhar, o que trabalhar, com que trabalhar, que recursos utilizar, onde fazer e como fazer.

A finalidade desse processo se centra na união de tecnologias, no desenvolvimento de competências, na criatividade, na autonomia e na empatia. A sala de aula deixa de ser algo passivo por parte dos alunos, e estes, por sua vez, passam a compor o polo ativo de produção acadêmica. As aulas teóricas são substituídas por práticas, ou seja, há a elaboração de produtos desenvolvidos pelos alunos em laboratórios, tendo, como consequência, o entendimento acerca do processo de elaboração, produção, processo até a conclusão do seu conhecimento. A prática facilita o aprendizado do seu alunado, quebrando o paradigma de que a sala de aula é um ambiente monótono, cansativo, sem graça e pouco estimulante. É exatamente o contrário do que proporcionam os modelos antigos, centrados no uso de técnicas desatualizadas, tradicionais, desmotivadas e com pouca aplicabilidade da teoria na prática.

O que se observa, concluindo a esta abordagem, é que ainda é bem primitiva essa implantação do processo maker nas escolas. A grande dificuldade, no entendimento dos autores, é a falta de preparo dos envolvidos no processo, já que exige a implantação de novas ideias, tecnologias e descobertas do processo pedagógico, ainda caminhando a passos lentos no meio escolar.

Bilinguismo e educação bilíngue no século XXI

De fato, uma pessoa que conhece bem uma língua estrangeira pode também conhecê-la bem em determinado nível de competência linguística e não em outro. O que vai acontecer no meio acadêmico, por exemplo, é saber ler tranquilamente um texto na área de competência do estudante, de forma a compreendê-lo e replicá-lo ao seu estudo, sem, necessariamente, conseguir se comunicar naquela língua: essa pessoa não tem a competência da compreensão auditiva e de expressão, embora tenha a de leitura.

O inglês é a língua oficial do mundo, e isso não se discute. Hodiernamente, existem mais de 360 milhões de nativos e cerca de 500 milhões de pessoas bilíngues, ou seja, que falam a sua língua materna e têm o inglês como segunda língua. Além disso, dominar o idioma é sinônimo de melhores oportunidades profissionais, acesso à informação e outras culturas, mais comodidade e conforto em viagens ao exterior e mais abertura para relações internacionais.

A noção de bilinguismo se tornou cada vez mais ampla e difícil de se conceituar a partir do século XX. À primeira vista, definir o bilinguismo não parece ser uma tarefa difícil. De acordo com o dicionário Oxford (2000:117), bilíngue é definido como: “ser capaz de falar duas línguas igualmente bem porque as utiliza desde muito jovem”. Na visão popular, ser bilíngue é o mesmo que ser capaz de falar duas línguas perfeitamente; esta é também a definição empregada por Bloomfield (1935, apud HARMERS e BLANC, 2000:6), que define bilinguismo como “o controle nativo de duas línguas”. Opondo-se a esta visão que inclui apenas bilíngues perfeitos, MacNamara (1967, apud HARMERS e BLANC, 2000:6) propõe que “um indivíduo bilíngue é alguém que possui competência mínima em uma das quatro habilidades linguísticas (falar, ouvir, ler e escrever) em uma língua diferente de sua língua nativa”.

Na realidade, está muito mais atrelado à questão de fazer um planejamento interdisciplinar onde o aluno construa o seu aprendizado na língua portuguesa e na língua inglesa, e isso deverá ocorrer de forma bem natural, para que o aluno vivencie as disciplinas da base nacional comum de forma bilíngue.

O bilinguismo na escola é muito importante para a formação do aluno, sobretudo no contexto atual. O aprendizado do inglês pode contribuir em diversos âmbitos da vida do estudante, inclusive no mercado de trabalho e na construção de relações e de uma comunicação internacional.

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