Edição 133

Profissionalismo

Acolhimento escolar

Nildo Lage

 

Quem afiança que não se precisa de acolhimento nem anseia se abrigar no conforto de um abraço afetuoso para se evadir das garras da nostalgia? Mesmo durão, o coração admite necessitar dessa ação empática, que atrai o outro para perto, e essa simples atitude faz compreender o essencial num momento de dor, perda ou, até mesmo, naqueles instantes em que a solidão sitia.

Acolher é abarcar o vazio que dilacera o outro, a ponto de irromper a distância que separa e sobrepuja as diferenças que são excedidas pelo desprendimento de nós, por amor ao outro. Assim, acolher é um ato de amor; ser acolhido, uma ação que acalenta; e, quando o abrigar e ser abrigado sobrevêm espontaneamente, sem exigências e ponderações, ganhamos o outro como próximo, tão somente pelo que ele é: humano.

É na magia desse envolvimento que a essência humana flui e dissemina para se encontrar com o eu do outro. Nesse compasso, é possível irmos além do acolher, porque ouvimos.

Ao ouvirmos, proporcionamos o subsídio mais extraordinário para promover a aproximação, pois dilatamos os horizontes da esperança daqueles a quem oferecemos, muitas vezes, um simples gesto, mas que ampara a ponto de se sentirem fortalecidos num grau tão altivo que acalenta o íntimo.

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No espaço escolar, essa necessidade é, sobretudo, maior. Muitos chegam sem o mínimo de autoestima. Ante tamanha deficiência de acolhimento, é preciso consciência de que escola, além de ser um lugar de formação, é espaço de convivência diária e requer mais que ferramentas inovadoras. É urgente ter profissionais preparados que amem ou que sejam, no mínimo, receptivos.

Num país onde a violência se inicia no lar, esparge-se pela sociedade e adentra pelos portões das escolas, originam-se traumas que precisam ser superados num espaço que não concilia aplicação de conteúdos com aprendizagem e desenvolvimento humano.

Todavia, as sequelas têm que ser superadas. Pois o processo que intensifica a tensão, acendendo temor e aflições, significa que acolher é mais que amabilidade. Para muitos, é uma necessidade tão imperativa que os braços cruzados do sistema podem intentar indisposições maiores.

Se não houver um despertar para agenciar o acolhimento escolar e, assim, transformar uma realidade inevitável, a escola não atrairá os frutos do desequilíbrio social e familiar para convertê-los em cidadãos coerentes.

Atenção e foco no emocional são trilhas que devem ser escoltadas para transformar, sem mais retrocessos, esse ambiente tenso num espaço de formação afável. Porque o formar requer mais que ferramentas tecnológicas e metodologias inovadoras, há que atrair e acolher para fortalecer a base do humano.

Se não houver comprometimento do sistema, progredir será uma missão cada vez mais impossível. Para formar indivíduos que conduzem fardos de problemas sociais e familiares, além de perdas de vidas, que abrangem toda a sociedade, é decretada, à escola, a urgência de ser acolhido para se readaptar à nova realidade, não apenas para suavizar os conflitos emocionais, mas facilitar o desenvolvimento dos trabalhos em sala de aula.

Enquanto a escola receber o aluno como carga para desempenhar obrigações constitucionais, tratar o professor como ferramenta remunerada para transmitir conteúdos e o pessoal de apoio como máquinas para sustentar a escola de portas abertas, permaneceremos na mesma. Pois, assim como o aluno, o professor e o técnico pedagógico necessitam de valorização, suporte, respeito, reconhecimento e acolhimento.

Temos que admitir: o que estava ruim ficou pior. Apatia no espaço escolar aufere grandeza no decorrer da patética trama: “A responsabilidade não é minha!”. Para agravar, a avalanche tecnológica que submergiu o planeta sem abarcar o espaço escolar hostiliza o processo de ensino-aprendizagem. Porque tamanho avanço tecnológico não despertou o sistema para a mínima noção da importância de se conectar ao novo para promover uma aprendizagem substancial.

Devaneando ao som da mesma trilha melodiosa, o professor finge que não percebe que o mundo além da escola sofre mutações dantescas: o analógico foi digitalizado, e a inteligência humana foi suplantada pela artificial, impondo que a automatização se torne a rota para aliciar o mercado de trabalho e, como cartão de visitas, apresentando as soft skills, as chamadas habilidades socioemocionais, para que indivíduo e máquina não se embatam.

O que faremos com o humano em formação, imergido nesse universo digital, que é gerido pelo humano formado, todavia analógico?

O sistema não contesta, contudo decidiu trilhar o caminho inverso. Insensato, não pensou no futuro! Não pensou na vida! Pois, no seu trono de impulsividade, rejeitou o amanhã, denegando ao educador formação, e, para camuflar, inseriu no currículo competências para preencher lacunas.

Ante tamanha insensibilidade, é preciso questionar: qual é a importância do acolhimento escolar?

Atenção e foco no emocional são trilhas que devem ser escoltadas para transformar,
sem mais retrocessos, esse ambiente tenso num espaço de formação afável.”

Para o país que mais manteve as escolas com as portas cerradas na pandemia, acolher deve ir além de cartazes, faixas e acenos de boas-vindas. É preciso proteger o que o aluno tem de mais fragilizado: o emocional; é preciso ambicionar o seu crescimento humano. Porque crescimento humano sobrevém com o fortalecimento do eu à base de conteúdos ricos que promovem conhecimentos intrínsecos para que a desconexão entre ensino e oportunidades não arremesse vidas pelo desfiladeiro do submundo social.

Compreendemos que não é impossível, para quem determina o que acontece, ouvir os clamores de quem necessita desse advir. Ouvir o que o outro tem a dizer para ser é tão somente acolher num espaço onde delegações de funções, aplicações de conteúdos e correções são feitas aos gritos e, nas situações mais amenas, com indiferença.

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Como ninguém apreende o sentido de acolhimento, porque família, escola e sociedade permitem que o individualismo impere como regra de sobrevivência, o aluno se perde nesse vácuo, em que calha o desenvolvimento do cognitivo, sequenciando o ritmo dos fracassos.

Visto que a escola não proporciona um ambiente propício a um aprendizado progressivo, ele se torna nocivo à vida, por absorver a confiança, a autoestima e o próprio entusiasmo para prosseguir, porque os vínculos afetivos saudáveis para um relacionamento sem conflitos não subsistem.

Nesse processo de aniquilamento de valores, sentimentos e emoções, a apatia se encarrega de asfixiar os sussurros de socorro procedentes da sala de aula, pois a comunidade escolar descarta a postura ética, mesmo consciente de que a escuta é a rota para atender às demandas e compreender os fracassos. Ao ignorar reclamações, corta pela raiz o protagonismo discente, afetando a aprendizagem e a própria saúde, porque o compartilhamento de saberes é obstruído pelo altruísmo de um sistema que não visualiza o saber do aluno como roteiro de ensino.

É a partir desse ponto que se inicia a quebra de braços professor x gestão. Conteúdos? Exclusivamente, os escassos saberes docentes, que atuam como protagonista de um processo em que o aluno é tratado como esponja seca que deve, impreterivelmente, absorver tudo e se sujeitar a esse tudo, como mola propulsora para se auto-orientar na busca de realizações pessoais.

O grito é de misericórdia! É urgente se ter uma escola acolhedora, que mire na ótica individual para elevar a autoestima, a afeição e a confiança, que são a plataforma para assentar vínculos afetivos, não apenas com colegas, mas com a comunidade escolar, para que tais valores sejam disseminados na sociedade.

O desafio maior não é atrair o novo para aliciar o aluno, é converter a escola num espaço afável para superar as barreiras naturais arremessadas pela comunidade escolar, porque se tornou tradição o repasse automático de responsabilidades.

O sistema não acolhe os seus servidores, convertendo o espaço num amontoado de profissionais que desempenham tarefas para cumprir protocolos, o que faz da sala de aula um espaço gerido por agitações. Quem grita mais alto domina.

São tantos conflitos que poucos se arriscam a uma aproximação para experimentar se o diálogo intercala aplicação de conteúdos com relacionamento humano. Pois salas, corredores e pátios se constituíram em recintos georreferenciados para que todos encontrem atalhos para camuflar ações, reações e fracassos.

Nessa trama, o vilão sistema escolta a ferramenta “Código do Servidor” para determinar que procedimentos sejam cumpridos à risca; o professor é preciso no cumprimento dessa missão e desempenha o único protocolo que não o afeta profissionalmente: o repasse de conteúdo. Para dissimular, exibe, ao final de cada período, um diário preenchido sem rasuras, como prova de que as suas ações promoveram o desempenho almejado pelos seus alunos, ou seja, protocolos exercidos com sucesso e aluno impelido para o próximo ciclo sem o mínimo de estrutura. Assim, a vida prossegue sem tantos tropeços e também sem vitórias.

Vida? A quem importa? Pais? Sistema? Professor? Governo? Quem dará o primeiro grito em defesa dos direitos do fragilizado aluno?

Podemos recorrer à BNCC, que, assim como a nossa Constituição, é perfeita no papel e decreta, categoricamente, que um ambiente escolar acolhedor é quando há respeito aos direitos do aluno, que se vê contemplado num espaço que promove um convívio atraente, explora o seu potencial, facilita a participação, até brinca para exaltar valores e culturas e, nessa magia, além de impelir o aluno para descobrir a si mesmo, prepara-o para se converter num cidadão concluído, prevenido para afrontar os desafios do mercado de trabalho.

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Falácias que são desmentidas por aquele que é asfixiado no mesmo espaço: o professor que regressa para asseverar que, assim como não foi acolhido, o sistema maior — a universidade — não o aprontou para administrar os mesmos conflitos. Nada mudou.

Assim como na trajetória escolar, o mesmo sistema persiste em ignorar a importância dessa formação para promover o desenvolvimento de atividades escolares e metodologias que acolham os frutos desse despreparo, que absorvem o conteúdo sem fortalecer a base humana, tampouco sendo preparados para o mercado de trabalho.

Porque o acolhimento que deveriam ter recebido não veio, e, como o próprio cognitivo foi abortado por inexistência de abrigo, o aprendizado à base de valores fracassou, ceifando a confiança e a autoestima, que não foram desenvolvidas, e, com o mesmo olhar, regressou para a própria sala de aula — como professor — desprovido de vínculos afetuosos saudáveis.

Como compreender a importância do acolhimento escolar se o mestre não consegue criar, para a própria vida, uma estrutura que promova um convívio afetivo com os colegas? Ele até consegue inserir, nos objetivos do planejamento, tais propósitos, com estratégias perfeitas, mas, no momento de praticá-las, a deficiência de competência o impede.

Acolhimento é uma prática pedagógica, e, como a escola é carente dessa ação, até mesmo para dar felicitações ao professor, ela prossegue a cadência de fatos e ações incoerentes, oferecendo tudo que o aluno não necessita.

Para muitos educadores, não é querer ser nem desprendimento. É, unicamente, deficiência de estrutura profissional e motivação para que essa ação, que é a conexão que acopla convenção com confiança, atinja o maior propósito do sistema: humanizar o processo de ensinar para agenciar o crescimento uniforme do aluno.

Educação forte estabelece profissionais fortes, e só teremos impactos positivos na aprendizagem quando esse olhar for dilatado o suficiente para visualizar os servidores como humanos fragilizados que necessitam de apoio e contribuição para proporcionar o mesmo aos que são postos sob a sua regência.

Autoestima e autoconfiança são base edificada num processo que estabelece envolvimento recíproco para resguardar o eu. Sem inclusão, valorização e respeito, as diversidades não serão trabalhadas; quando metodologias atraentes não são aplicadas, é impossível seduzir. Porque a ausência de tais ações obstrui o processo de aprendizagem por não haver aproximação aluno-professor, impedindo condições que dilatam as oportunidades para facilitar o aprender e ceifando objetivos pessoais.

Outro entrave é a carência de projetos que promovam o trabalho em grupo para delinear eventos que motivem, por meio de atividades extracurriculares que impactam o eu, a atenuação de conflitos emocionais, como angústia e estricção. Do contrário, o acolhimento não atingirá a meta de promover a relação escola-aluno-família por descartar os desígnios da BNCC, que constitui um ensino humanizado para não apenas preservar a integridade do aluno, mas também aliciar uma aproximação que promova relacionamento em equipe.

Atingir esse nível é respeitar os direitos do aluno de contemplar resultados dos próprios esforços num processo em que o aprender aconteça por meio da expressão, exploração, participação… Para que o conhecer a si mesmo sobrevenha numa convivência agradável.

Se o relógio cronológico do sistema não se ajustar ao fuso horário do aluno, vai o alerta: é hora de descartar o retórico que sobrecarrega, pois obter resultados planificados não é recepção! Acolhimento escolar é acatar para arremessar para o mundo cidadãos afáveis, com competências para proporcionar à sua volta uma atmosfera saudável.

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Contudo, o planeta foi arremessado no abismo das perdas, estabelecendo que acolher mais é garantia para avançarmos mais. Não se esquive o professor desse momento. Pois chegou o tempo de contribuir. Assim, avalie seu agir, o seu doar e, excepcionalmente, o seu não contribuir. A profissão de professor é instigante! No entanto, por mais penosa e desafiante que seja, somos responsáveis por vitórias ou fracassos daqueles que são postos sob a nossa responsabilidade.

Seja coerente, retroceda o olhar e entreveja quantos atalhos adotou como veia de escape para granjear tempo e se evadir dos desafios e reflita se o ensino que oferece para os seus alunos é o que gostaria que o seu filho recebesse do colega.

Formar para a vida estabelece atenção, envolvimento, reciprocidade, acolhimento, mesmo não estando aqui para discutirmos o que deu certo ou errado, tampouco o destino dos que adentram pelas salas de aulas sem propósitos definidos. Vamos focar na relação com a vida, e não travar uma batalha entre maturidade e imaturidade e podar oportunidades.

Se ambicionamos que os nossos filhos voem alto, por que não exercitar as asas do filho do outro — nosso aluno? Não me refiro ao paternalismo, entretanto à afeição ao humano que ambiciona ser por meio da educação. Tudo o que ele necessita pode ser um gesto de carinho ou um ato de amor para acender a sua esperança.

Temos ciência de que, ante tantas desavenças, é complexo amar o próximo como a nós mesmos. Todavia, por mais que o coração esteja dilacerado pelas perdas, decepções e tentativas fracassadas, ele detém fragmentos de amor como plataforma para ostentar a esperança e atrair o próximo.

Se a semente está em nós, vamos regá-la com perdão, cultivá-la com comprometimento… Para que a afeição germine, cresça, floresça e possa ser compartilhada, e, se as situações não permitirem resultados positivos, podemos recorrer à perseverança para recomeçar sem tantos empecilhos.

O que não podemos é negar uma segunda oportunidade, deixar de acolher… Pois, ao acolhermos, compartilhamos amor; e, ao disseminarmos amor, a vida flui e se torna mais bela, porque a acolhida, muitas vezes, pode não surtir efeito em nós nem alterar o que somos, mas pode transformar o outro numa pessoa melhor. Afinal, amar é externalizar o que há de mais nobre em nós e pode se tornar o presente mais sublime que oferecemos ao outro.

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