Edição 115

Espaço pedagógico

Anemia falciforme: o fazer pedagógico com alunos falcêmicos na Educação Infantil

Ana Bárbara C. de Araújo

A anemia falciforme é um distúrbio genético, de caráter autossômico recessivo, muito comum no Brasil, sendo predominante entre negros e pardos e ainda em pessoas brancas. Caracteriza-se por anemia hemolítica crônica e por eventos repetidos de vaso-oclusão, provocando complicações clínicas e elevada mortalidade.

Esses sintomas são decorrentes da presença de eritrócitos em forma de foice nos quais se observa uma mutação no gene da globina ᵝ, que resulta na substituição de um resíduo ácido glutâmico por uma valina na posição 6. Crianças com anemia falciforme podem se afastar da sala de aula devido à necessidade de acompanhamento regular por uma equipe de saúde. Tais eventos, em menor ou maior grau, provocam ausências escolares que devem ser acompanhadas de perto por pais, professores e gestores, em vista de não trazer implicações para o desenvolvimento escolar da criança.anemia-falcemica-2

De acordo com Rodrigues et al. (2014), crianças com anemia falciforme possuem o mesmo potencial intelectual que as sem essa patologia. Entretanto, quando o aluno necessita de afastamento, o tratamento pedagógico precisa ser diferenciado para que não fique alheio ao componente curricular.

É válido ressaltar que essa temática ainda é pouco discutida; portanto, quanto mais pesquisas direcionadas em descrever a situação escolar de crianças falcêmicas, melhor serão as descobertas de medidas pedagógicas cabíveis que ajudem no desenvolvimento desses escolares.

Sabe-se que a anemia falciforme é encontrada principalmente em negros de origem africana. Essa doença afeta cerca de 250 mil crianças a cada ano no mundo, sendo 100 mil somente na Nigéria (SIMÕES et al., 2010). No Brasil, onde se verifica diversificado grau de miscigenação, estima-se que entre 700 e 1.000 casos novos ocorrem anualmente. Entretanto, no Estado da Bahia, onde há um predomínio de afrodescendentes, a incidência dessa doença é de 1:650 entre os nascidos vivos (SILVA et al., 2006; CURY et al., 2010), o que a torna particularmente importante para a saúde pública nesse estado.

Apesar de números tão elevados de pessoas com essa patologia, a discussão sobre a doença é rara. É necessário propagar a temática a fim de que haja mais investigação sobre a anemia falciforme e, dessa forma, surjam novas contribuições para um fazer pedagógico adequado a crianças falcêmicas. A invisibilidade e o desconhecimento da doença em toda a sociedade é marcante e acabam levando à (re)produção de mitos e preconceitos.

Diante desse cenário, o presente artigo teve como objetivo conhecer as dificuldades enfrentadas por crianças com anemia falciforme no contexto escolar de Educação Infantil. Para tanto, buscou-se refletir o fazer pedagógico para com as crianças com essa patologia a partir de levantamentos bibliográficos, de análise das complicações causadas pela doença e da identificação de possibilidades para que o desenvolvimento pedagógico da criança com essa patologia não seja prejudicado.

A criança falcêmica e o âmbito escolar:

DESAFIOS

De acordo com Rodrigues et al. (2014), crianças com doenças crônicas são mais vulneráveis a ter dificuldades acadêmicas, sociais e emocionais. Segundo Paiva (2007), toda criança falcêmica tem o mesmo potencial intelectual que as sem a patologia, com exceção das que tiveram derrame cerebral com comprometimento neurológico. Entretanto, alguns fatores podem dificultar o processo de aprendizagem do escolar.

A crise vaso-oclusiva, ou episódio doloroso, é o principal sintoma clínico da anemia falciforme e a principal causa de hospitalizações em busca de tratamento médico e, consequentemente, de afastamento da escola. Essa crise “[...] é percebida como uma experiência sensorial e emocional desagradável, relacionada a um dano real ou potencial, capaz de desencadear inúmeras reações psicológicas, sobretudo em crianças” (RODRIGUES et al., 2014, p. 133).

A frequência e a participação regular na escola são essenciais para o desenvolvimento educacional e bem-estar psicossocial da criança com anemia falciforme (MAIA et al., 2013). Entretanto, a doença exige da criança e de seus familiares mudanças em seu cotidiano, principalmente no que tange às atividades relacionadas às experiências educacionais. Essas crianças, devido ao acompanhamento médico, precisam se ausentar com frequência da sala de aula para tratamento ou internamento.

São alunos que precisam de um trato pedagógico diferenciado; no mais, são completamente iguais, com as mesmas potencialidades intelectuais das crianças sem a patologia. Os professores precisam ser informados da presença de aluno com anemia falciforme em sua sala de aula e receber as orientações necessárias sobre as possíveis complicações da doença.

O professor de Educação Física tem que estar informado de que o aluno com doença falciforme deve evitar esforços físicos exaustivos, respeitando seus limites, além de se manter hidratado durante a prática de exercícios. É imprescindível que os profissionais da educação conheçam as particularidades sobre o crescimento e o desenvolvimento da criança com essa patologia para que possam dar o suporte necessário e, dessa forma, contribuam para uma aprendizagem de qualidade.

É importante salientar que, caso o aluno apresente febre ou dor, o professor deverá observar se há mudanças no comportamento, avaliar a intensidade da dor, pedindo que ele identifique através de escalas de dor; entrar em contato com pais ou responsáveis; e estimular a ingestão de líquidos. Em caso de febre, orienta-se ao professor: havendo termômetro, medir a temperatura e, na impossibilidade de entrar em contato com a família, procurar uma Unidade Básica de Saúde (BRASIL, 2009, p. 6-8).

O papel do docente na mediação da aprendizagem da criança falcêmica

A anemia falciforme é uma doença com altos índices de acometidos no Brasil. De acordo com Brasil (2014), foram detectados 1 caso a cada 1.000 nascidos vivos com a patologia e 1 para cada 35 com traço falciforme; sendo, somente na Bahia, 1 a cada 650 nascidos vivos com a doença falciforme e 1 para cada 17 com traço falciforme.

Entre as crianças que nascem com anemia falciforme, a letalidade pode atingir até 25% nos primeiros cinco anos de idade (DINIZ et al., 2009). A Bahia, em decorrência de sua história de povoamento, é o estado com maior prevalência dessa patologia no País (SILVA et al., 2006).

Apesar dos altos índices, a doença é pouco discutida, e poucos educadores conhecem os sintomas e a causa dela. Entretanto, o professor deve estar atento aos mais diversos problemas de saúde que possam prejudicar o desenvolvimento educacional de seu aluno, inclusive doenças crônicas como esta analisada neste estudo.

É imprescindível que o educador conheça as causas e os sintomas dessa patologia para que saiba agir frente às intempéries que podem surgir com as manifestações dos sintomas provocados pela doença. Vale ressaltar a importância da formação continuada. O educador precisa conhecer as causas e a origem das doenças crônicas para prestar assistência adequada ao aluno com a referida patologia.

Dessa forma, o professor adotará atitudes que poderão ajudar o aluno falcêmico, de modo a não superproteger e tampouco negligenciar as necessidades do escolar. O educador entenderá que a criança necessita beber muita água, consequentemente precisará ir ao banheiro mais vezes. E, caso haja uma crise de priapismo, ele saberá que se trata de uma ereção involuntária e dolorosa, e não um ato obsceno, pois o priapismo é uma persistente e dolorosa ereção do pênis, e os episódios, às vezes, podem durar horas. Homens com anemia falciforme sofrem de priapismo por conta das células sanguíneas, que ficam presas no pênis.

De acordo com a Lei nº 7.692, de 20 de dezembro de 1988, a prática de Educação Física, em todos os graus e ramos de ensino, é facultativa para os estudantes com afecções congênitas ou adquiridas, infecções, traumatismo ou outras condições mórbidas, determinando distúrbios agudos ou agudizados.

É importante evitar exposição ao frio ou ao calor intenso, bem como atividade física exaustiva ou intensa, para que não ocorram as crises de dor. Não é aconselhável a prática de exercícios em jejum, e é preciso beber bastante líquido antes, durante e após as atividades para prevenir a desidratação (CEHMOB, 2009).

O educador poderá enviar atividades para que o aluno as realize em casa ou no hospital, caso esteja em condições de as fazer. Essas ações são importantes para que a criança não fique alheia aos conteúdos e o retorno ao âmbito escolar seja tranquilo. Direito que é assegurado ao aluno falcêmico através do Decreto nº 1.044/1969 e da Lei nº 7.853/1989.

Portanto, cabe ao professor, como mediador da aprendizagem, proporcionar ao aluno possibilidades de ensino além da sala de aula, respeitando seus limites. Além do professor, todos os funcionários da escola devem ter conhecimentos sobre a anemia falciforme. É importante que eles saibam o que fazer se a criança apresentar crises dolorosas; é necessário que aprendam a reconhecer os sinais de um AVC nesses alunos e os escutem quando se queixarem de mal-estar, assim evitarão danos graves à saúde do aluno.

Outra medida importante é reservar um espaço adequado para que, quando necessário, a criança com anemia falciforme possa descansar e ficar afastada das atividades escolares enquanto se recupera.

Considerações finaisanemia-falcemica

Há poucos estudos na literatura relacionados ao conhecimento de educadores sobre a anemia falciforme. Os existentes analisam as alterações celulares e a manifestação clínica da doença. Poucas são as publicações que abordam o falcêmico no âmbito escolar e referenciam o conhecimento de educadores na assistência ao aluno com essa patologia. A anemia falciforme é uma doença com graves consequências e merece atenção.

Com altos índices de acometidos e com seus problemas pouco discutidos, a sociedade costuma ficar alheia às informações sobre essa doença. Professores de Educação Infantil devem estar atentos e buscar conhecimento sobre essa patologia, visto que, com índices tão altos de falcêmicos na Bahia, cedo ou tarde haverá um aluno com anemia falciforme na classe. Portanto, é importante promover reflexões sobre a doença durante as aulas.

Os professores e funcionários da escola devem ficar atentos a atitudes preconceituosas e discriminatórias contra alunos falcêmicos. Esse é um tema que deve ser abordado sempre que se falar da doença falciforme, a fim de que a criança tenha uma educação de qualidade, supere seus limites e alcance a formação acadêmica em vista de ser um cidadão ativo na sociedade, como os demais.

Através deste estudo fica evidenciado que os sintomas causados pela anemia falciforme, em especial as dores, são as maiores dificuldades enfrentadas pelo aluno falcêmico, que acaba por se ausentar por longos períodos da sala de aula, e isso resulta em perdas pedagógicas.

Cabe ao educador a responsabilidade de cuidar para que o aluno não seja exposto a atividades exaustivas e, assim, complicar seu quadro clínico, uma vez que é ele a conviver, por mais tempo, com a criança falcêmica enquanto ela se encontra no ambiente escolar. Faz-se necessário também que medidas sejam tomadas para que o aluno não seja prejudicado com as ausências em sala de aula e possa realizar as atividades em casa ou no hospital, caso seja clinicamente possível.

Dessa forma, este estudo poderá possibilitar aos educadores uma reflexão sobre o fazer pedagógico com crianças com anemia falciforme e direcionar para futuras investigações sobre essa temática a fim de que aconteçam discussões com o objetivo maior de diminuir os riscos para problemas de desenvolvimento pedagógico do aluno falcêmico, garantindo-lhe uma melhor qualidade de vida.

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