Edição 115

Refletindo...

Inversão de valores nas famílias modernas

Leandro Silva

Uma leitora me enviou um e-mail em que comentava acerca de algumas atitudes educativas que, segundo ela, diversas famílias do tempo presente cobram de algumas escolas. Ao ler aqueles escritos repletos de sensatez, pude perceber que ainda existem pessoas ajuizadas que conseguem distinguir, ainda que ambos tenham um papel de extrema importância na formação de uma sociedade consciente quanto aos seus direitos e deveres, o papel da família e da escola nesse processo educativo.

Essa leitora me fez refletir um pouco mais sobre esse assunto, que, diariamente, martela minha mente. Vivemos numa sociedade em que algumas famílias estão perdendo completamente a sua identidade porque terceirizam seu ofício no que corresponde à criação dos seus filhos. É, decerto, uma inversão de valores. A tarefa de educação dos filhos é de responsabilidade estritamente da família, em primeiro plano, e do Poder Público de forma secundária.

Mas o que tem acontecido nos dias de hoje é que muitas pessoas estão confundindo educação (formação de uma pessoa) com escolarização (pedaço da educação). Compete à escola, dessa maneira, a escolarização do seu alunado. Para haver uma formação sólida de qualquer cidadão, além da parceria com a escola, a família tem de cumprir na íntegra o seu majestoso papel em fornecer afeto, companheirismo, diálogo, limite, persistência, humildade e responsabilidade à criança.

O que tanto me intriga, nesses anos que estou exercendo a docência, como professor e coordenador pedagógico, é a normalidade que alguns pais têm de se ausentar da educação dos seus filhos. Eles deixam claro que não sabem o quanto é importante a sua presença na formação do caráter do seu filho. Em vez de estarem por perto, consentem que estranhos os doutrinem. Por esse motivo, muitos pais desconhecem algumas atitudes que os seus filhos cometem quando estão distantes deles. Para algumas famílias, a escola é um depósito de crianças de pais ausentes. E algumas crianças, por sua vez, se deparam com alguns professores que classificam como pais. É triste, mas é real.

Essa inversão é uma versão moderna do conceito de algumas famílias, que tentam culpar a má educação dos filhos em escolas da rede pública ou privada. Filhos tomando decisões; filhos dando ordens aos pais; filhos que têm autonomia excessiva. Da intervenção de leis educativas a programas televisivos, é fácil perceber que algumas famílias perderam o comando dos seus filhos e, por conseguinte, estão concebendo uma geração de indivíduos que terão dificuldades em se adequar às regras de uma sociedade.

Embora haja objetivos comuns entre todos os que estão envolvidos no desenvolvimento cognitivo de qualquer criança ou adolescente, a família nunca será substituída por nenhum elemento, quer seja na figura de um professor ou do próprio Poder Público. Ela é a primeira e única escola onde se aprendem as virtudes sociais.

Afinal, eu acredito veementemente na família.

 

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