Edição 133

Fique por dentro

Como escolher uma escola para seu filho

Marcos Meier

Gostaria de matricular meu filho de 3 anos de idade em uma boa escola, mas não sei decidir diante de tantas possibilidades. Tenho medo de cair na armadilha de colocá-lo numa escola que faz uma boa propaganda, mas, na prática, enfia conteúdo goela abaixo nas crianças. Você sugere alguma? Ou poderia me dizer o que tenho que observar para decidir melhor?

Ansiosa por sua resposta, agradeço.

Alessandra

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Respondendo

Oi, Alessandra! Para escolher uma escola adequada ao seu filho, você deve levar em conta não somente o que a escola diz fazer, mas o que ela, realmente, faz. Além disso, há escolas que são excelentes para uma criança, mas não seriam boas para outra. É preciso observar a personalidade do seu filho e os valores da sua família. Faça a pergunta: em que tipo de escola seu filho seria feliz e desenvolveria todo o seu potencial?. A escola que mais estiver perto desse perfil desejado é a melhor. Escola ideal não existe. No entanto, você pode tomar cuidado com algumas armadilhas: parquinhos maravilhosos nem sempre são usados. Há escolas com parquinhos quase “novos” de tão pouco uso. Bosques, algumas vezes, são para os pais acharem que ali se trabalha com a natureza. Ecologia virou artigo comercial da moda. Quanto mais visíveis forem os projetos “ecológicos”, mais sensibilizados os pais ficarão, por isso é que muitas delas aumentam a propaganda sobre projetos ditos ecológicos. Na prática, como os alunos se envolvem? De que forma mudam a realidade local ou familiar em função do conhecimento ecológico construído e declarado ali?

Muitos laboratórios de informática nada mais são que salas de digitação de textos previamente escritos no caderno ou, simplesmente, um momento para joguinhos. O verdadeiro trabalho de criação, de aprendizagem e de desenvolvimento da criatividade ocorre em sala de aula com caneta e caderno. Digitar um texto já feito é apenas “trabalho escravo”. Quantas vezes seu filho vai participar das maravilhas computadorizadas por semana? De que forma? E por que o uso da tecnologia vai facilitar a compreensão dos conceitos? Com certeza, não será porque são utilizados cores e sons. Se a resposta for apenas essa, provavelmente a escola subutiliza os softwares ou equipamentos. Além disso, há alguns softwares com um nível de interação tão insignificante que seria mais prático o aluno ler o conteúdo curricular em um livro ou na apostila.

Salas coloridas repletas de materiais didáticos maravilhosos podem não corresponder a uma metodologia coerente. Há muitas salas assim, mas com alunos petrificados, um atrás do outro, copiando o que a professora escreveu no quadro-negro. Algumas vezes usam o material, mas de forma mecânica e totalmente dirigida pelo professor. Ou seja, o aluno não tem espaço para criar, explorar o potencial do material e muito menos fazer suas descobertas pessoais.

E, por fim, há muitas escolas que não investem em cursos e treinamentos de seus professores. E, pior ainda, há professores que acreditam que a responsabilidade de sua formação continuada é exclusiva da escola. Ficam anos a fio sem atualização, sem aprender nem pesquisar nada a respeito de educação numa sociedade cada vez mais diferente do que era quando começaram a lecionar. Não pesquisam nada sobre comportamento, sociedade, evolução da sociedade, valores, comportamento infantil, adolescência, sexualidade, redes sociais, softwares interativos ou de comunicação interpessoal, novas tecnologias, celulares, etc. Ou seja, ensinam o mesmo que aprenderam há décadas.

Visite a escola e tente conversar com alunos, funcionários ou professores. Adquira o maior número de informações possíveis. Há muita escola boa que sabe o que está fazendo, que ajuda o aluno a desenvolver autonomia, criatividade, conhecimento acadêmico e de mundo, mas, infelizmente, existem as outras. Além de todos esses fatores relacionados à construção do conhecimento, você deve observar também algumas outras coisas muito importantes: a escola tem algum projeto permanente de construção da paz, de combate ao bullying, ou  ela diz que ali não existe conflito? A escola é justa no tratamento aos seus alunos, dando-lhes espaço para diálogo, ou ali os alunos não têm voz? A forma de avaliação valoriza a nota ou o aprendizado? Os alunos são incentivados e apoiados a contribuir com dinheiro, e a escola faz alguma assistência social pontual só para tirar uma foto? Talvez nesse momento algumas características da escola não sejam relevantes para uma criança de 3 anos, mas podem dizer muito sobre como a escola valoriza seus alunos.

Portanto, escolher uma boa escola realmente não é nada fácil, mas leve em consideração as reflexões anteriores, que a possibilidade de errar será menor. Boa escolha!

Um pouco de teoria

Tipos de escola

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Os tipos de escola dependem das crenças dos educadores de como uma criança aprende. Se os professores acham que uma criança aprende se ela ficar em silêncio ouvindo e copiando as explicações, a escola é de um tipo bem específico. Se ela crê que o aluno precisa construir seu próprio aprendizado, e o professor será o mediador desse processo, então ela é totalmente diferente da primeira. Vamos aprofundar melhor essa explicação.

A grande pergunta para às concepções de educação é: “Como uma criança aprende a se desenvolver?”. A resposta a essa questão gera tais concepções e, consequentemente, posturas de sala de aula e de interação com as crianças. “Cria escolas.” Vamos ver.

Resposta A (concepção inatista). Uma criança aprende e se desenvolve porque recebe, como herança genética, todas as condições físicas para que isso ocorra. Com o tempo, ela vai crescendo e amadurecendo. Com isso, vai dando as respostas esperadas pelos adultos e se tornando adulta também. Nessa forma de pensar, uma escola inatista é uma escola onde o professor é o centro de tudo, já que ele é o adulto, aquele que “detém o conhecimento”. O professor transmite os conteúdos para que as crianças absorvam tudo. Manda copiar, decorar, resumir textos, fazer ligações repetidas e resolver listas e mais listas de exercícios. Há muitas escolas que ainda agem assim. O foco do trabalho é o excessivo movimento do aluno, que é quem precisa prestar atenção no professor, copiar tudo o que ele diz e reproduzir o conhecimento da forma como o professor determina.

Criança é criança e precisa se desenvolver aprendendo.
Aprende interagindo com o conhecimento e com outras crianças.”

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Resposta B (concepção ambientalista). Uma criança aprende e se desenvolve porque o ambiente tem estímulos suficientes para provocar nela seu crescimento e amadurecimento. Esse tipo de escola acredita que a estimulação precoce faz a criança se desenvolver antes. Quanto melhor for o ambiente, melhor será o desenvolvimento infantil. Nessa forma de pensar, uma escola ambientalista é uma escola onde o professor fornece ao aluno tudo o que há de melhor em termos de materiais didáticos diferenciados. Quanto mais estimulada, mais a criança se desenvolve. Aulas-show e livros didáticos multicoloridos ou apostilas completas são materiais necessários para o bom andamento da aprendizagem. Alunos passivos esperando tudo acontecer. Professores que, mesmo em aulas de laboratório, fazem tudo sozinhos, e os alunos assistem a isso. O aluno permanece numa postura passivo-aceitante mesmo em contato com vários suportes de ensino, como quadro-negro e giz, vídeos, softwares de apresentação de conteúdos, laboratórios, objetos digitais de aprendizagem.

O foco dessas escolas é no ambiente, nos materiais, nos aparelhos, nos sistemas, em softwares, enfim, em tudo o que é externo ao aluno e que pode ser assimilado por ele.

Resposta C (concepção interacionista). Uma criança aprende interagindo com seus objetivos de aprendizagem. O foco não é no aluno (inatismo) nem no ambiente (ambientalismo), mas na interação do aluno com os conceitos, com as pesquisas, com o conhecimento. É o interacionismo. Nada está pronto, o aluno vai construindo o conhecimento interagindo, pesquisando, perguntando, respondendo previamente para, depois, pesquisar e testar suas hipóteses, refletindo, conversando com colegas, abstraindo de participar de situações já conhecidas, etc. Quanto maior for a autonomia, maior será o desenvolvimento. O papel do professor é fazer o aluno pensar e agir. É incentivar, provocar, desequilibrar conhecimentos prévios, disparar novas reflexões, etc. O aluno é incentivado a interagir, da melhor forma possível, com os objetos do conhecimento. O eixo central dessas escolas (quando realmente fazem o que proclamam) é a interação do aluno com o objeto de conhecimento, ou seja, com os conceitos a serem aprendidos.
O professor deve ser mediador desse processo de construção.

As escolas

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É importante deixar claro que as críticas às escolas jamais podem ser contra as tradicionais ou contra as modernas, pois há escolas tradicionais que estão sempre inovando, crescendo, aprendendo a ser melhores. Nessas escolas, a tradição é o resultado de uma história de décadas de educação de qualidade; portanto, não podemos criticar todas elas. E há escolas recém-inauguradas que fazem um trabalho retrógrado, ultrapassado e inadequado. Fazem uma verdadeira mescla das concepções A e B. Inatismo e ambientalismo. Para saber que linha a escola segue, não adianta perguntar, ler nos fôlderes ou verificar o site na Internet. Tem que olhar o dia a dia, perguntar às crianças como são as aulas, como são avaliadas e, principalmente, como lidam com o próprio conhecimento. Se o que elas já sabem não é levado em conta e o importante é o que o professor traz, então é uma escola de concepção inatista, ambientalista ou uma mistura de ambas.

É importante alertar também que a maioria das escolas declara ser interacionista. Dentre elas, algumas se dizem construtivistas. Uma escola construtivista é interacionista. A ênfase está no trabalho da criança com respeito à fase em que ela se encontra. O foco é no trabalho do aluno e na interação com o objeto de conhecimento. O professor ajuda o aluno na construção do conhecimento. O trabalho de Jean Piaget é muito valorizado e respeitado como base da ação educativa nessas escolas. Criança é criança e precisa se desenvolver aprendendo. Aprende interagindo com o conhecimento e com outras crianças.

Além de Piaget, estuda-se também, como fundamento teórico, outros autores, como Vygotsky, Paulo Freire, Wallon e Emilia Ferreiro. Algumas escolas muito atualizadas estão estudando também um dos maiores educadores do mundo: Reuven Feuerstein. Esse educador criou a Teoria da Modificabilidade Estrutural Cognitiva, que dá todo o suporte científico para que o professor possa se tornar um mediador cada vez melhor.

Dessa forma, não basta perguntar aos coordenadores pedagógicos que autores são estudados, mas, principalmente, como esses autores aparecem na prática, no dia a dia de sala de aula. Em outras palavras: não basta conhecer os fundamentos teóricos de uma educação de qualidade, mas colocá-los em prática na sala de aula, fazê-los reais na relação com os alunos.

MEIER, Marcos. Desligue isso e vá estudar: orientações práticas para os pais. São Paulo: Fundamento Educacional, 2014.

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