Edição 133

Espaço pedagógico

Quem olha para o professor?

Kelly Cartaxo Costa

Vivemos numa sociedade em que o consumo é cada vez mais estimulado e os protagonistas são os influencers digitais. Crianças, jovens e adultos “consomem” diariamente os “conteúdos” desses novos profissionais, que, muitas vezes, não têm conteúdos; pelo contrário, influenciam negativamente as pessoas. É evidente que a maioria desses profissionais está a serviço do capitalismo e de uma realidade ilusória.

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As pessoas, a cada dia que passa, estão mais egoístas, individualistas e insensíveis. Por mais que se fale em compaixão e empatia, menos se vê, na prática, a vivência de tais palavras. A sociedade está doente. Ela precisa de uma educação que faça sentido, por isso é urgente a mudança do nosso sistema educacional, mudança esta que passe pela valorização do professor e das suas condições de trabalho, porque “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”, como disse Paulo Freire.

O preconceito e os maus-tratos a idosos, crianças e animais aumentam exacerbadamente. A falta de respeito para com o outro e para com o mundo está cada vez mais explícita. Nesse contexto, aparecem o desrespeito e a desvalorização desenfreada aos professores. O professor é um profissional que deveria ser enaltecido e reconhecido por todos, pois é a partir dele que surgem muitos outros profissionais. Mas, pelo contrário, o que se vê todos os dias são professores lutando pela sobrevivência e, agora, por sua vida. Eles saem de casa sem saber se voltarão. Estão quotidianamente a se perguntar: o que aconteceu conosco? Quem olha para o professor?

Até quando os governantes continuarão desvalorizando o trabalho docente? Até quando os governos ficarão indiferentes a esse profissional?

Paulo Freire (1991, p. 74), como sempre atual, tinha um sonho…

O sonho de mudar a cara da escola. O sonho de democratizá-la, de superar o seu elitismo autoritário, o que só pode ser feito democraticamente.
Freire (1991, p. 24) tinha a esperança, o sonho de que um dia a escola fosse:
Uma escola democrática em que se pratique uma pedagogia da pergunta, em que se ensine e se aprenda com seriedade, mas em que a seriedade jamais vire sisudez. Uma escola em que, ao se ensinarem necessariamente os conteúdos, se ensine também a pensar certo.

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As palavras de Freire simbolizam o seu desencanto com o fazer educativo, representam a sua ousadia perante a sociedade e o sistema como um todo. Enaltecem a sua inquietude e rebeldia face ao contexto educativo, mas, ao mesmo tempo, destacam a sua esperança e o seu sonho frente à escola e ao professor.

Infelizmente, a escola sonhada e esperançada por Freire ainda permanece adormecida, por isso a desvalorização docente, na sociedade atual, continua escancarada, continua em evidência; parece que a escola e o professor são meros “objetos” do sistema governamental e de uma sociedade cada vez mais elitista, egoísta e competitiva. É por este e outros motivos que não vejo ninguém comemorar ou parabenizar, nas redes sociais, a aprovação de si próprio, de um filho ou de um amigo num curso universitário para exercer a docência. O que mais se ouve falar são agressões e ameaças de alunos e famílias aos professores. Até quando isso será permitido pelos nossos governantes? Quem olha para o professor?
O que mais se ouve falar são agressões e ameaças de alunos e famílias aos professores.
Até quando isso será permitido pelos nossos governantes? Quem olha para o professor?”

Segundo Malinoski e Malinoski (2019, p. 3) citando Oliveira (2010),

O magistério é visto, tradicionalmente, como uma profissão de pouco prestígio, pois os próprios meios de comunicação divulgam uma ideia de que para ser professor não é necessário ter alguma especialidade. Frequentemente, existem campanhas solicitando voluntários para o exercício da docência, promovidas pelo próprio governo, para ofertar escolarização à população. Para exemplificar, a autora cita o Programa Brasil Alfabetizado, que conta com a ajuda de voluntários para alfabetizar a população de jovens, adultos e idosos, o que sugere uma iniciativa para diminuir o analfabetismo no Brasil: de 13.163 milhões de pessoas com mais de 18 anos, conforme dados consultados pela autora no IBGE, em 2012. Esse é apenas um exemplo que, somado a tantos outros, contribui para a constituição da representação social acerca da carreira docente como um campo profissionalizado.

Repito a mesma pergunta: quem olha para o professor? Até quando a docência ficará à margem da sociedade atual?

É muito importante que, o quanto antes, seja desenvolvida uma política de reconhecimento e valorização social e financeira da carreira docente, assim como de segurança nas escolas.
Um professor feliz e motivado no seu ambiente de trabalho
é capaz de estimular  e contagiar cada um dos seus alunos
para aprender, para respeitar, para ser protagonista e para ser feliz.”

Com base nos dados da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE), constata-se que:

O piso salarial de professores brasileiros dos níveis Fundamental e Médio é o mais baixo entre 40 países avaliados. Isso demonstra a falta de reconhecimento por parte das gestões municipais e estaduais quanto ao pagamento desses trabalhadores. Em acréscimo ao baixo salário, há diversos empecilhos de trabalho, como a falta de materiais, a indisciplina de alunos e o excesso de carga horária, que trazem danos à saúde mental e física de professores. Tudo isso leva, por exemplo, à queda na procura por cursos de licenciatura pelos jovens, o que traz ainda mais desapreço à área (BRASILESCOLA.UOL, 2022).

A valorização do professor é o primeiro passo para uma educação de qualidade e, por consequência, para o progresso de um país. Para isso, é necessária uma remuneração digna para que o professor não precise correr de uma escola para outra e trabalhar horas infinitas, bem como formação contínua, apoio emocional, recursos adequados e voz ativa na comunidade educativa. Um professor feliz e motivado no seu ambiente de trabalho é capaz de estimular e contagiar cada um dos seus alunos para aprender, para respeitar, para ser protagonista e para ser feliz, porque:

A escola é: o lugar em que se fazem amigos.
Não se trata só de prédios, salas, quadros,
Programas, horários, conceitos…
Escola é, sobretudo, gente.
Gente que trabalha, que estuda,
Que alegra, se conhece, se estima.
O diretor é gente,
O coordenador é gente,
O professor é gente,
O aluno é gente,
Cada funcionário é gente.
E a escola será cada vez melhor,
Na medida em que cada um se comporte
Como colega, amigo, irmão.
Nada de “ilha cercada de gente por todos os lados”,
Nada de conviver com as pessoas e, depois,
Descobrir que não tem amizade a ninguém.
Nada de ser como tijolo que forma a parede,
Indiferente, frio, só.
O importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar,
É também criar laços de amizade,
É criar ambiente de camaradagem,
É conviver, é se “amarrar nela”!
Ora, é lógico…
Numa escola assim vai ser fácil
Estudar, trabalhar, crescer,
Fazer amigos, educar-se, ser feliz.
É por aqui que podemos começar a melhorar o mundo…
Paulo Freire

Quanto à temática, há de se refletir, ainda, sobre o que dizem alguns estudiosos da educação. Para Vasconcellos (2003, p. 77),

O professor deve se assumir como sujeito de transformação, no sentido mais radical (novos sentidos, novas perspectivas e dimensões para a existência, nova forma de organizar as relações entre os homens), e se comprometer também com a alteração das condições de seu trabalho, tanto do ponto de vista objetivo (salário, carreira, instalações, equipamentos, número de alunos por sala, etc.) quanto subjetivo (proposta de trabalho, projeto educativo, relação pedagógica, compromisso social, vontade política, abertura para a mudança, disposição democrática, etc.).

Assunção e Oliveira (2009, p. 367) acrescentam dizendo que:

O processo de intensificação do trabalho vivido pelos docentes das escolas públicas brasileiras na atualidade pode, além de comprometer a saúde desses trabalhadores, pôr em risco a qualidade da educação e os fins últimos da escola.

Santos (2015, p. 351) destaca a importância do reconhecimento e da valorização salarial dos educadores, deixando claro que o aumento do custo de vida e os baixos salários desses profissionais dificultam a continuidade da sua formação, bem como o seu bem-estar físico, social e emocional, uma vez que precisam fazer jornada dupla ou tripla para conseguirem sobreviver. Segundo ele, a questão salarial compromete a sua vida pessoal e profissional e:

Inviabiliza economicamente sua ascensão social, restringe o acesso aos bens culturais, ao lazer, aos bens de necessidade imediata e ao material de consumo e principalmente, no caso dos professores, é impeditiva à obtenção de novos conhecimentos necessários ao aprimoramento pessoal e profissional.

Considera-se, conclusivamente, que a mudança da sociedade atual, na qual o professor deixou progressivamente de ter o seu valor, depende totalmente da forma como a comunidade educativa e o sistema governamental olham para ele. O professor deixou de acreditar em si próprio porque não consegue ver sentido naquilo que faz, pois a sua luta parece em vão. Por mais que estude, que trabalhe e que faça, ninguém o vê, parece um ser invisível na sociedade. O professor só é visto quando comete algum erro. E isso precisa parar! A carreira docente grita por valorização e apoio. É hora de olharmos, com amor e respeito, para o professor, porque sabemos que é por meio dele que a sociedade terá a oportunidade de ser melhor, de ser mais justa, mais segura, mais amiga… e verdadeiramente mais humana.

Educação não transforma o mundo.
Educação muda as pessoas.
Pessoas transformam o mundo.”

Paulo Freire

ASSUNÇÃO, Ada Ávila; OLIVEIRA, Dalila Andrade. Intensificação do trabalho e saúde dos professores. Educação e Sociedade. v. 30,
n. 107, 2009.

BRASIL ESCOLA UOL. Valorização do professor e educação libertadora – banco de redações. Disponível em: https://vestibular.brasilescola.uol.com.br/banco-de-redacoes/18974. Acesso em: 04 ago. 2023.

FERACINE, Luiz. O professor como agente de mudança social. São Paulo: EPU, 1990.

FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade e outros escritos. 6. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

______. A educação na cidade. São Paulo: Cortez, 1991.

______. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 35. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

______. Pedagogia da esperança. 13. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2006.

______. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Unesp, 2000.

______. Pedagogia do oprimido. 24. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

FREIRE, P.; SHOR, Ira. Medo e ousadia: o cotidiano do professor. 11. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2006.

MALINOSKI, Vanessa; MALINOSKI, Sabrina. Política, desvalorização e impactos na representação social dos professores. Anais de Filosofia de Educação. Editora PUC/RS, 2019. Disponível em: https://editora.pucrs.br/edipucrs/acessolivre//anais/filosofiadaeducacao/assets/edicoes/2019/arquivos/32.pdf. Acesso em: 04 ago. 2023.

MELLO, Guiomar Namo de. Cidadania e competitividade: desafios educacionais do terceiro milênio. 7. ed. São Paulo: Cortez, 1998.

OLIVEIRA, Dalila Andrade. Os trabalhadores da educação e a construção política da profissão docente no Brasil. Educar em Revista, n. especial 1, p. 17-35, 2010. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/er/nspe_1/02.pdf. Acesso em: 03 ago. 2023.

PRYJMA, Leila Cleuri. Ser professor: representações sociais de professores. Universidade Estadual Paulista. Programa de Pós-graduação em Educação. Tese de Doutorado. Presidente Prudente, 2016.

SANTOS, Westerley A. Uma reflexão necessária sobre a profissão docente no Brasil, a partir dos cinco tipos de desvalorização do professor. Sapere Aude – Belo Horizonte, v. 6, n. 11, p. 349-358 – 2º sem. 2015.

VASCONCELOS, Celso dos Santos. Para onde vai o professor? Resgate do professor como sujeito de transformação. 10. ed. São Paulo: Libertad, 2003.

Kelly Cartaxo Costa é pedagoga; Especialista em Ciências da Educação, Psicopedagogia e Tecnologia Educacional; e Mestre em Ciências da Educação.

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