Edição 133

A fala do mestre

O temperamento da criança

Damiana Aparecida Oliveira Santos

Todos nós temos um temperamento que determina as nossas ações e os nossos comportamentos e que deve ser observado pelos pais e professores para que possam conduzir a criança rumo ao crescimento e à aprendizagem. Em seu livro A pedagogia afetiva (2001), a psicóloga Rossini nos apresenta, de forma detalhada, os temperamentos das crianças, suas características e as preferências e aptidões atribuídas a eles, bem como a ação pedagógica que deve ser aplicada tanto pelos pais quanto pelos professores. O livro traz também observações importantes quanto aos riscos que cada criança pode correr ao chegar na fase adulta se alguns fatores não forem observados e trabalhados na infância.

A seguir, são apresentados os quadros representando os quatro temperamentos: sanguíneo, melancólico, colérico e fleumático para melhor compreensão do leitor.

1. Temperamento sanguíneo

Características

• Alegre e saltitante.
• Rosto mutável (alegre e triste).
• Fácil adaptabilidade.
• Dificuldade de aprendizagem.
• Sono instável.
• Alimentação variada.
• Imaginação fértil
e fantasiosa.
• Dentre os elementos da natureza, prefere o ar.

Preferências

• Gosto variado, no paladar e no modo de se vestir.
• Gosta de dançar.
• Cor predileta: amarelo.
• Ritmo musical favorito: alegre e saltitante.
• Preocupa-se com o tempo presente.
• Movimento gráfico: pontos soltos no ar.
• Palavras escritas de forma seccionada.

Ação pedagógica

• Proporcionar atividades ao ar livre.
• Introduzir outros elementos da natureza.
• Explorar atividades variadas.
• Usar a dança.
• Estimular a alimentação com mingau e sopas.
• Envolver-se com afeto e segurança.

A criança sanguínea pode também ser chamada de aérea. Seu corpo leve e ágil parece viver acima do chão. Portanto, Rossi (2001) alerta aos pais e aos professores que essas crianças, na idade adulta, adaptam-se a funções variadas. Serão excelentes na área de relações públicas e como agentes de turismo, atores/atrizes, bailarinos/as, mas não aceitam rotinas. Ela faz uma observação, principalmente aos pais: uma pessoa com esse temperamento acentuado pode apresentar um desinteresse por tudo o que a cerca. Para ajudar a criança sanguínea, é necessário muito afeto, firmeza e segurança (ROSSINI, 2001, p. 97–99).

2. Temperamento melancólico

Características

• Preocupa-se com o mundo, com a humanidade e a eternidade.
• Tem tendência ao misticismo.
• Oferece amizade real.
• Espera fidelidade dos outros.
• É séria e superficial.
• Resiste e reage a obstáculos.
• Obcecada, sempre consegue o que quer.
• Dá pouco sorriso.
• Anda arrastando os pés.
• Faz leitura rápida.
• Apresenta dores nas juntas.
• Dificilmente se esquece de fatos ocorridos.

Preferências

• Gosta de atividade intelectual.
• Cores favoritas: marrom, azul-marinho e roxo.
• Na alimentação, dispensa proteína e gosta de caldos e fluidos.
• Ritmo musical favorito: lento.
• Relação com o tempo voltada para o passado.
• Movimentos gráficos irregulares.
• Não gosta de esportes.
• Seu elemento natural é terra.

Ação pedagógica

• Explorar atividades intelectuais (jogos).
• Fazer atividades ao ar livre.
• Estimular exercícios físicos; introduzir arte.
• Não menosprezar o seu estado de sofrimento, pois para ela é real.
• Ouvir com respeito.
• Deixar que ela faça confidências.
• Mostrar que outros também sofrem e têm até sofrimentos maiores que os seus.
• Estimular a cooperação com as pessoas.
• Enriquecer seu cardápio com proteínas.

As crianças melancólicas criam dentro de si um mundo imaginário e gostam de se isolar. Seu próprio corpo parece ser um fardo. São obcecadas e sempre conseguem o que querem. Os pais e professores podem usar os trabalhos artísticos para ajudar nas emoções, além de ouvir com atenção e respeito. Segundo Rossini (2001, p. 100–102), “Na fase adulta, pessoas com esse temperamento serão excelentes profissionais na área de humanas, ótimos assistentes sociais, psicólogos, orientadores e líderes religiosos”. A autora faz uma observação: o exagero desse temperamento pode levar à melancolia profunda; portanto, cuidado com a ação pedagógica para evitar que isso aconteça.

3. Temperamento colérico

Características

• É ativa, firme, resoluta e decidida.
• É robusta, entroncada, com pescoço curto.
• Tem andar forte e gestos firmes.
• Apresenta olhar penetrante.
• Suas brincadeiras são violentas; até o carinho que faz é de forma violenta.
• Assume as responsabilidades de suas ações.
• Desperta respeito e admiração dos que a cercam.
• Tem forte liderança.
• Seu olhar de raiva é terrível.

Preferências

• Sua alimentação é forte no tempero, gosta de carne, feijão e ovos.
• Seu elemento natural é fogo.
• Cor predileta: vermelho.
• Seu tempo é o futuro, as possibilidades de realizar as expectativas do que está por vir.
• Ritmo musical favorito: forte, bem marcado, com instrumentos de percussão.
• Movimentos gráficos irregulares.

Ação pedagógica

• Deve ser conquistada pelo respeito, e não pela força e pela imposição.
• A serenidade e o equilíbrio são suas maiores armas para o trabalho.
• Promover atividades com força física, com tarefas que exijam mais do que possa realizar.
• Reconhecer suas dificuldades nas tarefas mais difíceis.
• Para demonstrar descontentamento com suas atitudes, basta isolá-la, isso é o que mais a incomoda.

A criança colérica é ativa e decidida, tem uma aparência robusta. Anda com passos fortes, tem gestos firmes e apresenta um olhar penetrante e brilhante.
Seus pais e educadores deverão ter serenidade, equilíbrio e firmeza, reconhecendo suas dificuldades e habilidades nas tarefas mais difíceis. “As pessoas com predominância desse temperamento, quando adultas, serão aptas a exercer cargos de liderança em qualquer área de atividade humana” (ROSSINI, 2001, p. 98).

É preciso ajudá-las na infância. Pedro Silva (2013, p. 21) afirma que “Piaget sempre defendeu a noção de que o conhecimento é construído pelo próprio sujeito; por consequência, ele não nasce pronto […]. Para ele, ainda, o sujeito constrói ou reconstrói o seu conhecimento se interage com o meio físico e social”.

É aí que entra a família e a escola com orientações e disciplina para ajudar a criança a se posicionar de maneira correta e se tornar um líder com muita propriedade na sociedade.

4. Temperamento fleumático

Características

• É uma criança calma e calada.
• Come e dorme muito bem.
• Gosta de brincar com bichinhos, miniaturas e jogos de montar.
• Gosta de atividades de rotina, qualquer alteração pode provocar um descontrole.
• Apresenta expressão corporal e gestos calmos.
• Glândulas e secreções são seus maiores incômodos.
• Normalmente tem excesso de peso.
• É lenta e preguiçosa.
• É fácil de se contentar.
• Às vezes vence pelo cansaço.

Preferências

• Gosta de brincar sozinha e de balanços.
• Seu elemento natural é água.
• Cores prediletas: azul e branco.
• Ritmo musical favorito: lento, valsas, gosta de piano e harpa.
• Movimentos gráficos ondulantes.
• Sua alimentação é composta de massas e doces.

Ação pedagógica

• Promover atividades com seus movimentos preferidos: saltitantes e angulares.
• Não promover sons de alta potência e gritos.
• Atividades artísticas são favoráveis para esse temperamento.
• Alimentação: evitar massas e doces e estimular um cardápio variado.

A criança com o temperamento fleumático geralmente não aceita mudanças. Normalmente tem excesso de peso. Diante das características do fleumático, o que deve ser levado em conta é que os pais e a escola, bem como os educadores, deverão oferecer atividades artísticas. Na idade adulta, serão excelentes profissionais ligados às seguintes profissões: dentistas, médicos, cirurgiões, técnicos de alta precisão, religiosos e cozinheiros. Segundo Rossini (2001, p. 105) “O exagero desse temperamento é preocupante, pois pode levar à lentidão de respostas”.

Considerações finais

Os quatro temperamentos, apresentados no livro A pedagogia afetiva, de Rossini, são fatos recorrentes na vida do ser humano; não há como fugir, cada pessoa já nasce com o seu temperamento. O indivíduo necessita de ajuda, tanto dos pais como dos professores. As orientações que a autora apresenta são de uma propriedade fantástica.

Portanto, cabe aos pais e aos professores observar as crianças com o seu respectivo temperamento, a fim de que possam ajudá-las nas suas necessidades físicas, mentais, emocionais e religiosas, para que cresçam saudáveis e com uma aprendizagem bem-sucedida.

                                                                                                                                                                                                                                                           

Damiana Aparecida Oliveira Santos é Mestre em Ciências da Religião (PUC/GO); bacharel em Teologia com Ênfase em Educação Cristã (STBG); licenciada em Pedagogia (UEG); Especialista em Psicopedagogia Inclusiva e Educação Infantil (Estácio de Sá), em Educação Inclusiva com Ênfase em Atendimento Educacional Especializado (AEE) e em Arteterapia e Saúde (FTP); pós-graduada em Autismo (Radiante), Docência Universitária (FAN) e Psicomotricidade (Radiante); psicopedagoga e arteterapeuta no Espaço Terapêutico no STBG; e tem Complementação Clínica em Psicopedagogia (FTP).

E-mail: damianaoliveira7@gmail.com.

Referências

ROSSINI, Maria Augusta Sanches. A pedagogia afetiva. Petrópolis: Vozes, 2001.

ALMEIDA, Ana Rita. A emoção na sala de aula. São Paulo: Papirus, 2001.

GOLSE, B.O. O desenvolvimento afetivo e intelectual da criança. Porto Alegre: Artmed, 1993.

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