Edição 120

Em discussão

Cultura de Paz: reflexões para uma escola contemporânea

Kelly Simões Cartaxo Lima Costa

A paz não é aausência deconflito, mas a presença de alternativas criativas para responder ao conflito. Alternativas para as respostas passivas ouagressivas, alternativas à violência.
Dorothy Thompson

Numa sociedade na qual se percebe, cada vez mais, o distanciamento de valores como: respeito, ética, colaboração e diálogo, em que a violência passou a fazer parte do dia a dia nas ruas, famílias e instituições, gerando instabilidade, medo e insegurança, torna-se imprescindível desenvolver ações nas escolas que promovam uma Cultura de Paz.

As discussões solapis_massa_modelar_AdobeStock_394928769bre uma Cultura de Paz, nos dias de hoje, estão cada vez mais fortes. Os professores, coordenadores e diretores estão saturados dos inúmeros casos de desrespeito e violência dentro das escolas. É preciso investigar de onde surgem tais ações e buscar estratégias preventivas para evitar o caos vivenciado nas instituições escolares, é necessário chegar ainda mais próximo das famílias e atuar na raiz do que pode estar gerando tais situações. Segundo Fernández (2005, p. 36), a família é “[...] o primeiro modelo de socialização de nossas crianças”. É na família que se aprende a respeitar, a amar e ser amado, a dialogar, a ter ética, a ser solidário e amigo do outro, enfim, a família é o alicerce educacional na vida de crianças e jovens.

Se esse alicerce não tem uma boa estrutura, tudo pode desmoronar, ou seja, Pais emocionalmente despreparados, que convivem com brigas, crises conjugais, sociais, profissionais e/ou financeiras, muitas vezes não percebem que seus filhos crescem cercados por amigos e inimigos, com conflitos gerados por informações transmitidas pela mídia, pela Internet e por todo o tipo de infortúnio (CONTE, 2009, p. 5).

A boa estrutura familiar é de grande relevância para a evolução do processo educativo, pois é na família que se constroem valores humanos sólidos para a formação de cidadãos conscientes do seu papel na sociedade. Nesse contexto, inclui-se a escola como instituição parceira da família e como espaço propício para a construção de uma geração mais humana e pacifista que saiba cumprir seus deveres e galgar seus direitos alinhados pelo diálogo, amor e respeito ao próximo. Geração que saiba ser generosa, saiba olhar para além do que é material, que saiba rir e chorar com o outro, que saiba gerir conflitos e se solidarizar com os menos favorecidos e, acima de tudo, que saiba buscar a paz.

Sobre isso, Martinelli (2006, p. 10) esclarece que:

Os valores humanos conscientizados e vivenciados individualmente, em família e na escola serão certamente o fermento que fará crescer a fraternidade, a compaixão, a reverência e a cooperação como esteios da criação de uma nova sociedade.

Bádue Freire (2011, p. 391) acrescenta dizendo que:

Precisamos desde a mais tenra idade formar as crianças para a “Cultura da Paz”, que necessita desvelar e não esconder, com criticidade ética, a tolerância com o diferente, o espírito de justiça e de solidariedade.

A escola, como local que deve fomentar a ética, o respeito, a solidariedade, a tolerância, dentre outros princípios e valores, precisa ter plena consciência de que tipo de sociedade e de cidadão deseja construir.

Sobre isso, Bádue Freire (2011, p. 29) esclarece:

Um dos principais papéis da educação é contribuir à construção do Homem. Para construir o Homem, é preciso, antes, saber que homem se quer construir. É saber qual tipo de sociedade se estará servindo: cooperativa ou coercitiva, tolerante ou permissiva, democrática ou autoritária.

A partir da compreensão de Homem e sociedade que a escola deseja formar, estruturam-se as suas estratégias de transformação, que devem estar pautadas numa educação para a paz, uma vez que, nos dias atuais, as instituições escolares foram invadidas pela “cultura da violência”, seja por meio do bullying, do desrespeito com os professores, seja pelo não apoio, na maioria da vezes, das famílias às escolas, isto é, “[...] a violência é uma forma de negociação de poder que exclui o diálogo” (Abramovay e Rua, 2002, p. 295). Dizer não à violência, seja ela física, sexual, psicológica, verbal, étnica, seja outra, é o pilar para se promover a Cultura de Paz. Mas o que significa uma Cultura de Paz? globo_terrestre_maos_pessoas_AdobeStock_111051739_ChristArt

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU, 1999),

Uma Cultura de Paz é um conjunto de valores, atitudes, tradições, comportamentos e estilos de vida baseados: no respeito à vida, no fim da violência e na promoção e prática da não violência, por meio da educação, do diálogo e da cooperação; no pleno respeito e na promoção de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais; no compromisso com a solução pacífica dos conflitos; nos esforços para satisfazer as necessidades de desenvolvimento e proteção do meio ambiente para as gerações presente e futuras; no respeito e fomento à igualdade de direitos e oportunidades de mulheres e homens; no respeito e fomento ao direito de todas as pessoas à liberdade de expressão, opinião e informação; na adesão aos princípios de liberdade, justiça, democracia, tolerância, solidariedade, cooperação, pluralismo, diversidade cultural, diálogo e entendimento em todos os níveis da sociedade e entre as nações; e animados por uma atmosfera nacional e internacional que favoreça a paz.

É evidente que, para a sociedade ser mais tolerante e pacífica, as escolas precisam se libertar da competitividade e do individualismo, mudar os seus objetivos e valores, passando a disseminar verdadeiramente a unidade, a fraternidade e a solidariedade. Isso não significa ausência de conflitos, pois “O conflito é um processo natural e necessário em toda sociedade humana, é uma das forças motivadoras da mudança social e um elemento criativo essencial nas relações humanas” (ARENAL, 1989, p. 26). Em outras palavras, conflito é “[...] o processo de tomada de consciência da existência de um desacordo entre as partes, associado a algum nível de oposição entre os objetivos de ambas as partes ou da ameaça de interesses de uma das partes. (FERREIRA; NEVES; CAETANO apud PEDREIRA, 2017, p. 8). Para haver aprendizagem, é necessário desconstruir paradigmas e entender que é natural acontecerem conflitos, pois é por meio deles e mediados pelo diálogo e apoio dos educadores que se aprende a resolver problemas e a administrar as situações com sabedoria.

Freire (1979, p. 42) já dizia que:

O diálogo é o encontro entre os homens, mediatizados pelo mundo, para designá-lo. Se, ao dizer suas palavras, ao chamar ao mundo, os homens o transformam, o diálogo impõe-se como o caminho pelo qual os homens encontram seu significado enquanto homens; o diálogo é, pois, uma necessidade existencial.

Nunes (2011, p. 46) corrobora dizendo que

O diálogo, visando resolver o problema, passa a ser uma ação educativa, pois todos os envolvidos, sem julgamentos prévios ou definições, passam a se responsabilizar e a criar solução para o caso. [...] Em vez de culpar e punir, o foco é restaurar as relações entre as pessoas envolvidas no conflito, criando uma cultura de diálogo, respeito mútuo e paz.

A escola é o espaço para a construção de diferentes saberes, é ensino e é aprendizagem, é afeto e é diálogo, é respeito e colaboração. Escola é alegria, é vida. “A alegria na escola fortalece e estimula a alegria de viver. [...] Lutar pela alegria na escola é uma forma de lutar pela mudança do mundo” (FREIRE, 1993, p. 2). A mudança do mundo se dá pelas transformações sociais, pelo aperfeiçoamento das relações humanas, pela sensibilidade, pela cooperação, pela tolerância, pelo equilíbrio entre os conflitos e pela paz.

A educação para a paz [...] não pretende significar uma educação que nega ingenuamente a presença de conflitos, fingindo não existirem; pessoas que assim creem certamente se frustram e acabam abandonando o ideal de viver a paz. Significa, ao contrário, aceitar que os conflitos fazem parte da vida das pessoas comuns e que é possível e desejável considerá-los como oportunidade de desenvolvimento. Para isso, procura formas criativas de enfrentá-los, de resolvê-los ou de minimizá-los sem violência, seja ela física, verbal ou psicológica (BÁDUE FREIRE, 2011, p. 36).

familia_feliz_AdobeStock_26844437_Valua_VitalyA educação para a paz requer o esforço de cada um e de todos e precisa se fazer presente em tudo o que se expressa, em tudo o que se faz e em todas as situações vivenciadas dentro dos muros escolares, porque paz é vida, é construção, e ela se apresenta verdadeiramente pelas atitudes. Não adianta apenas falar e documentar sobre educação para a paz, tem-se que vivenciar no dia a dia escolar; portanto, não basta dizer que é importante e necessária, mas é fulcral viver e ser exemplo, pois “[...] para que relações de paz, respeito e cooperação prevaleçam numa escola ou comunidade não bastam boas intenções e belos discursos” (MILANI, 2003, p. 31). É preciso compreender que uma Cultura de Paz se constrói por meio das relações interpessoais e pela prática diária de ações que indiquem respeito, solidariedade, compaixão, amor e diálogo, ou seja,

As relações sociais efetivamente vividas, experienciadas, têm influência decisiva no processo de legitimação das regras, se o objetivo é formar um indivíduo respeitoso das diferenças entre pessoas, não bastam belos discursos sobre esse valor: é necessário que ele possa experienciar, no seu cotidiano, esse respeito, ser ele mesmo respeitado no que tem de peculiar em relação aos outros. Se o objetivo é formar alguém que procure resolver conflitos pelo diálogo, deve-se proporcionar um ambiente social em que tal possibilidade exista, onde possa, de fato, praticá-lo. Se o objetivo é formar um indivíduo que se solidarize com os outros, deverá poder experienciar o convívio organizado em função desse valor. Se o objetivo é formar um indivíduo democrático, é necessário proporcionar-lhe oportunidades de praticar a democracia, de falar o que pensa e de submeter suas ideias e propostas ao juízo de outros. Se o objetivo é que o respeito próprio seja conquistado pelo aluno, deve-se acolhê-lo num ambiente em que se sinta valorizado e respeitado. Em relação ao desenvolvimento da racionalidade, deve-se acolhê-lo num ambiente em que tal faculdade seja estimulada. A escola pode ser esse lugar. Deve sê-lo (PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS, 1997).

Salles Filho (2018, s/p) acrescenta que:

A Cultura de Paz é um guarda-chuva que abriga cinco campos: valores humanos; educação para direitos humanos; mediações de conflito e práticas restaurativas; questões ligadas ao meio ambiente, que chamamos de ecoformação; e vivências e convivências escolares. Quanto mais a escola conseguir realizar atividades desses cinco campos, mais estará trabalhando esse tema. Por exemplo, apenas discutir valores humanos — como o conceito de responsabilidade ou solidariedade — deixa de fora o contexto social que gera a violência. Para isso, trabalhos de direitos humanos podem colaborar. O mesmo vale para o diálogo e a restauração de vínculos pela mediação de conflito. Caso contrário, corre o risco de a instituição de ensino apenas chamar os alunos para desenharem pombinhas, cantarem uma música ou darem um abraço coletivo no prédio, como se a paz já se instaurasse imediatamente a partir daí. O que não é verdade.

Em outras palavras, Callado (2004) apud Dusi (2006, p. 18) diz que:

A Cultura de Paz pode ser pensada como filosofia de vida, como forma de regular os conflitos e como estratégia política para a transformação da realidade, caracterizando-se pela busca coletiva de um modo de vida e de relacionamentos que contribuam para a construção de um mundo marcado pela justiça, solidariedade e paz.

A arco_iris_massa_modelar_AdobeStock_192696933_Kansitangescola precisa aprender a transcender a mera função de “ensinar conteúdos”, de apenas se focar nas “matérias” a serem estudadas, pois “A matéria mais difícil da escola não é a Matemática ou a Biologia; a convivência, para muitos alunos e de todas as séries, talvez seja a matéria mais difícil de ser aprendida” (FANTE, 2005, p. 91). A escola tem que estar atenta à forma como a sua comunidade se relaciona: aluno com aluno, aluno e professor, professor com professor, gestão e alunos, gestão e professores, funcionários e alunos, funcionários e funcionários, funcionários e gestão. A convivência pacífica e harmoniosa entre todos promove tranquilidade e bem-estar, contribuindo para um ambiente de paz e de aprendizagem, ou seja, a escola deve educar na convicção de reconstruir os laços de solidariedade, amor, respeito e ética.

Investir e acreditar numa educação pautada em uma Cultura de Paz fará a escola ter um diferencial em termos sociais e humanos, tão importante e necessário para a sociedade contemporânea, pois a comunidade educativa passará a ter maior sensibilidade pelo outro. Ela aprenderá “a ser e a conviver”, a mediar conflitos, a preservar o planeta e a redescobrir a solidariedade e a tolerância, princípios fundamentais para o século XXI, uma vez que gradativamente as pessoas estão se distanciando, fisicamente, uma das outras em função da vivência cotidiana com as tecnologias. O isolamento humano fortalece o egoísmo e o individualismo e contribui para o aumento de doenças psicossociais, consequentemente por atos de violência e mortes prematuras, bem como para a desvalorização planetária. Todavia, considerando a importância das interações globais, faz-se necessário ressaltar que as relações virtuais têm o seu valor no que tange às aspirações por um mundo de paz, mas manter apenas relações virtuais não é salutar para a existência humana.

Cultuar a Paz é cultuar a vida. A Cultura de Paz nas escolas é essencial para a continuação da vida, pois corrobora a conscientização da comunidade educativa no combate aos diversos tipos de violência e na preservação sagrada do planeta. Paz é sinônimo de amor! Amor por si, pelo outro, pelo planeta… pela vida.

[...] Só o amor muda o que já se fez,

e a força da paz junta todos outra vez.

Venha, já é hora de acender
a chama da vida

e fazer a Terra inteira feliz.

Venha, já é hora de acender
a chama da vida

e fazer a Terra inteira feliz.

Inteira feliz [...]
- Banda roupa nova

 

Kelly Simões Cartaxo Lima Costa é pedagoga, Especialista em Psicopedagogia e Tecnologia Educacional, Mestre e doutoranda em Ciências da Educação.
E-mail: kelycartaxo@hotmail.com

Referências
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FERNÁNDEZ, I. Prevenção da violência e solução de conflitos: o clima escolar como fator de qualidade. São Paulo: Madras, 2005.

FREIRE. Nádia Maria Bádue (Org.). Educação para a paz e a tolerância: fundamentos teóricos e prática educacional. São Paulo: Mercado das Letras, 2011.

FREIRE, Paulo. Prefácio. In: SNYDERS, Georges. Alunos felizes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.

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MARTINELLI, Marilu. Aulas de transformação. São Paulo: Petrópolis, 1996.

MILANI, F. (2003). Cultura da paz x violências: papel e desafios da escola. In: MILANI, F. M.; JESUS, R. C. D. P. (Orgs.). Cultura de paz: estratégias, mapas e bússolas. Salvador: Inpaz, 2003.
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NUNES, A. O. Como restaurar a paz nas escolas. São Paulo: Contexto, 2011.

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