Edição 119
Professor Construir
“E aí, prof. tudo ‘manero’?”
Rosangela Nieto de Albuquerque
Rapport – uma linguagem entre estudante e professor
É indiscutível a importância da linguagem na práxis pedagógica entre ensinante e aprendente. Na dinâmica de ensinagem e aprendizagem, independentemente da faixa etária ou do ciclo de educação (Básica ou Ensino Superior), o relacionamento em sala de aula certamente irá direcionar a eficiência e eficácia da aprendizagem.
No processo de ensinagem-aprendizagem, todas as partes envolvidas trocam experiências, conhecimentos e informações numa dialética que utiliza a linguagem, e essa dinâmica se estabelece melhor com uma relação positiva, falando-se o “mesmo idioma”, o que também contribui para se manter a motivação em aula.
Rapport é algo fundamental na relação pedagógica; conforme etimologia, Rapport é uma palavra de origem francesa, que significa “criar uma relação” ou “trazer de volta”. Na perspectiva da Psicologia, representa um estilo de comunicação de maneira cordial e um relacionamento harmonioso e próximo no qual indivíduos ou grupos estão em sintonia uns com os outros e entendem os sentimentos e as ideias uns dos outros.
Certamente, os múltiplos tipos de linguagem envolvem o estudante em sala de aula, e Rapport é fundamental para o engajamento de todos. Em seu significado, a palavra representa comportamentos recíprocos, isto é, aquilo que uma pessoa encaminha para a outra lhe será enviado de volta por esse indivíduo. Nesse trânsito, as pessoas envolvidas compartilham crenças, ideias, valores e conhecimentos similares, um engajamento mútuo com interações verbais e não verbais.
Através das múltiplas linguagens, o educador poderá construir um Rapport com sua turma utilizando um conjunto de técnicas apropriadas, tais como: linguagem corporal (a postura, os movimentos, as expressões); o contato visual com a prática de sinais com que se tenta manter uma conexão; o vocabulário específico da idade (por exemplo, com adolescentes); a combinação de intervalos de tempo e respiração rítmica; comportamentos verbais de positividade. Enfim, no diálogo em sala de aula, o comportamento verbal associado a Rapport oportuniza um clima de positividade. Afinal, ter uma boa convivência com os estudantes é uma ótima forma de garantir um ambiente saudável, muito mais propício ao aprendizado.
Certamente, um ambiente de sala de aula com tensões e conflitos, com desarmonia, com estudantes desafiando o professor e com comportamento de intimidação não oportuniza uma convivência positiva entre professores e estudantes. Observa-se que, muitas vezes, a tensão é ocasionada pelo fato de que os estudantes assumem uma posição crítica, dispostos a impor a sua argumentação, com informações preestabelecidas (às vezes, devido ao acesso à Internet), promovendo, assim, tensões e conflitos.
Numa sala de aula, transitam vários tipos de personalidade, e, com essa diversidade, algumas pequenas divergências são naturais, mas há aqueles que possuem dificuldades específicas e que necessitam de um olhar mais cuidadoso. O professor é um verdadeiro facilitador, orientador, gestor de conflitos e impulsionador do equilíbrio entre todas as personalidades. Esse papel do educador irá promover o crescimento pessoal de cada um, e, assim, os educandos aprenderão a conviver com opiniões e pensamentos diferentes, uma construção da empatia e da cidadania.
Para uma relação de convivência positiva, é importante que a sala de aula seja um espaço de diálogo, de relação de confiança, de transparência (critérios didáticos – notas/trabalhos) e de pertencimento; um ambiente em que seja possível questionar e discutir sobre temas e assuntos, portanto de aprender juntos; um ambiente confortável para expressar suas dúvidas livre de julgamentos; um espaço de sentimento de afeto (Wallon).
É importante que o estudante se sinta pertencente àquela classe/turma, àquele espaço de aprendizagem; o espírito de grupo e de pertencimento irá estimular o engajamento nos estudos e também na vida social escolar como um todo. Quando o estudante não constrói um pertencimento, ele se sente excluído, e as técnicas de inclusão são necessárias. Assim, as atividades em grupo, os projetos, os seminários em equipe, as discussões em sala, as dinâmicas de grupo são um estímulo à cooperação e à aprendizagem.
O bom relacionamento entre a tríade aprendente-ensinante-família é fundamental, pois todos se responsabilizam pela aprendizagem. A relação entre escola e família conduzirá ao melhor aproveitamento do ensino porque o processo de aprendizagem vai muito além da sala de aula e perpassa pela tríade, e não apenas pela escola.
O processo de ensinagem-aprendizagem deve ser a interação entre a pessoa que aprende (estudante) e a que ensina (professor); dessa maneira, o ato de aprender e ensinar transita pela atenção, pela relação dos sujeitos humanos, que envolve afetividade e uma boa comunicação.
No que tange à relação professor-aluno, Piaget (1975) enfatiza que a aprendizagem está baseada na cooperação entre ambos. Assim, o processo do desenvolvimento cognitivo se dará através do debate e da discussão entre iguais, e o professor deverá assumir o papel apenas de provocador e instigador num clima de cooperação. Piaget apresenta uma tendência construtivista em sua teoria, apresentando dimensão interacionista, com ênfase na aprendizagem através do objeto.
Para Vygotsky, a relação entre educador e educando perpassa a relação de cooperação e respeito, com o estudante como sujeito interativo e ativo no processo de construção do conhecimento. Nunca uma relação de imposição.
Vygotsky (2007) apresenta uma concepção sócio-histórico-cultural — portanto, com o sujeito e o mundo como indissociáveis —, na qual um atuará sobre o outro estimulando a transformação e o desenvolvimento do sujeito no contexto em que vive (VYGOTSKY, 2007).
Como enfat
izam os teóricos e estudiosos acerca da aprendizagem, o bom desempenho escolar se pauta na questão do diálogo, no qual ocorre a troca de informações e experiências, e na relação ensinante-aprendente. Assim, o Rapport tem se mostrado benéfico na educação em sala de aula, além de contribuir significativamente em outras áreas, como na psicoterapia, na medicina e nas organizações. Em cada uma dessas áreas, o Rapport permeia a linguagem e as relações entre vários membros ou uma dupla (por exemplo, um professor e um aluno, um doutor e um paciente). Os benefícios são significativos e permitem aos participantes estabelecerem melhor suas ações e construírem um relacionamento com benefícios mútuos, o que tem sido geralmente chamado de aliança de trabalho.
Os jovens e adolescentes sempre apresentaram linguagens específicas da faixa etária, porém, na atualidade, eles apresentam novas formas de comunicação, e essas formas podem ser inseridas nas atividades pedagógicas, proporcionando melhor interação e oportunizando a efetiva aprendizagem.
Os estudos da sociolinguística enfatizam que a linguagem do sujeito é a representação do meio social em que ele vive; assim, é importante considerar que o tipo de linguagem utilizada pelo estudante pode ser uma ferramenta para atividades em sala de aula.
Os PCN consideram os estudos da linguagem somente como conteúdos nos vários ciclos da Educação Básica, sem enfatizar a prática da oralidade na construção do pensamento. Entretanto, é fundamental entender a importância da linguagem oral de forma subjetiva, proporcionando a interlocução de ideias, do ponto de vista entre os interlocutores e de sentido.
A linguagem é uma esplêndida forma de comunicação e expressão social, de manifestação das emoções, da cultura e das ideias e, certamente, possui uma grande variedade linguística.
Nos estudos acerca da língua e da linguagem, transitamos pela corrente estruturalista de Saussure e Chomsky, segundo a qual a língua é concebida como uma estrutura ou regras, competências e desempenho, mas não se considera o uso social da língua (FARACO, 2006).
Os estudos de Bakhtin consideram a língua um fato social existente da necessidade de o indivíduo se comunicar, valorizando a fala e manifestando a teoria da enunciação. Para Bakhtin (2006, p. 25), “O enunciado não é somente a matéria linguística. Outra parte, não verbal, correspondente ao contexto de enunciação, é de fundamental importância”.
Para uma efetiva aprendizagem, é importante termos uma sala de aula pautada na aprendizagem significativa (Ausubel), na qual se fundamenta a práxis pedagógica, a teoria perpassando a prática e vice-versa; portanto, atividades contextualizadas, com significados, em que os estudantes utilizarão aquela aprendizagem.
É preciso, mais do que nunca, reconhecer que as novas linguagens estão interligadas às tecnologias; assim, é comum os jovens apresentarem uma linguagem diferente, com novos códigos linguísticos e significados. Então, se o professor falar e interagir com os novos códigos, que os estudantes vivenciam, com certeza ele construirá um Rapport.
É importante que o educador trabalhe com as múltiplas linguagens, entrelaçado ao contexto social, para que, de maneira diversificada, possa oportunizar a participação e o desenvolvimento do estudante. Certamente, o Rapport contribuirá para a aprendizagem.
Considerações Finais
Rapport é um fenômeno que acontece quando se transita pelo comportamento, pensamento e nível de energia da outra pessoa. O Rapport acontece com naturalidade, de maneira cooperativa e harmoniosa, no processo comunicativo e é uma interação entre pessoas. E, através da linguagem, facilita o processo de ensinagem-aprendizagem. O professor pode usar as palavras que o estudante usa, o importante é o significado.
Para uma melhor interação comunicativa, o professor poderá fazer uso de jargões, dos termos preferidos pelos estudantes, usar a mesma tonalidade, velocidade e volume de voz, a postura e os gestos. Falar as palavras do seu contexto social e cultural também ajudará. O professor poderá utilizar a repetição dos pontos-chave das palavras da pessoa que está interagindo (backtracking); isso é estabelecer Rapport.
Ensinar é um processo de mediatização do conhecimento; desse modo, o educador precisa estar capacitado para desenvolver e estimular o processo de aprendizagem, incentivando quem tem sede de aprender. Afinal, ensinar requer bom relacionamento com o outro, empatia, dedicação, capacidade de dividir conhecimento e, certamente, representa um desafio, requer afetividade. Educar é um ato de amor.


