Edição 136

A fala do mestre

É sempre bom conversar com vocês!

Lourdinha Cunha

Hoje eu vou começar o tema da nossa conversa mostrando duas situações:

1ª situação:

Profa.:
— Olá, gente, tudo bem? E aí, garotada, como foi o final de semana de vocês?
Pausa.
— Pronto, todo mundo já se sentou? Vamos começar! Onde foi mesmo que a gente ficou na sexta-feira passada?
Um aluno responde:
— Acho que foi na página 124.
Outro aluno rebate:
— Não, foi na página 122.
— Não foi, não — interrompe outro aluno —, as páginas 122 e 123 estavam no dever de casa.
Profa.:
— Obrigada, já sei, abram aí na página 125.

2ª situação:

Profa.:
— Oi, gente, tudo bem com vocês? Foi legal o final de semana?
Pausa.
— Vamos começar? Todo mundo firme para entrar na dinâmica de hoje? Leram sobre os mamíferos aquáticos? Fizeram novas descobertas? Será que descobriram alguma utilidade das baleias na vida dos seres humanos?
Um aluno interrompe:
— Professora, posso lhe fazer uma pergunta? A senhora por acaso tem um chip na cabeça?
A professora, tomada de surpresa, responde:
— Não! Por quê?
Aluno:
— Porque a senhora lembra de tudo e sempre responde a qualquer coisa que a gente pergunta.
Profa.:
Chip, eu não tenho, não! Vamos dizer que eu sou tão curiosa quanto vocês! Gosto de pesquisar, tenho a preocupação em estudar os assuntos, gosto de fazer os planejamentos.


Bem, gente! Isso é apenas para ilustrar a nossa conversa e para mostrar que, de fato, isso acontece em muitas escolas dentro deste país. Temos professores comprometidos com a educação, professores que despertam competências e desenvolvem habilidades para que seus alunos aprendam, professores que se engajam no projeto político-pedagógico da escola, alavancando o processo educativo, mas temos também aqueles que acham que fundamental é apenas resolver as questões dos livros. Para esses professores, isso basta!

Eles estão errados? Não podemos julgá-los! Eles até podem desejar as mudanças, mas, de repente, não têm acesso às ferramentas que os ajudariam na transformação.

Uma coisa é certa: planejar suas atividades lhe confere organização dentro da sala de aula, interesse dos alunos em aprender e segurança ao repassar os conteúdos. O que não podemos é ficar enraizados aos conteúdos preestabelecidos e vivenciar a nossa prática desgarrados de outros setores da escola, ignorando que fazemos parte de uma estrutura, onde existem gestores que acompanham e se adaptam às novas ideias de reconstrução do processo escolar, e esquecendo que é preciso um plano global de ação para que toda a escola caminhe junto.

Planejamento na sala de aula, de Danilo Gandin e Carlos Cruz, foi um livro que muito me ajudou a ter uma visão mais ampla de educação, a olhar a educação além dos muros da escola, a perceber meu aluno como um ser social e a modificar minha maneira de planejar, embora muitas vezes não acontecesse como desejava.

Acho bem oportuno transcrever aqui algumas citações dos autores, assim presenteio vocês com essas importantes reflexões e deixo a sugestão para uma leitura mais detalhada, que, com certeza, será o ponto de partida para novas mudanças. Nada é novo, mas nem por isso não seja tão atual. Na rotina de uma escola — com a cobrança de pais exigindo livros didáticos concluídos, o desenvolvimento da falsa ideia de que muitos conteúdos trabalhados fazem a escola “parecer a melhor”, aquele planejamento feito sem uma prévia avaliação da turma ou, então, repassado via online depois de ter sido organizado por duas pessoas de um grupo de seis —, tem-se conhecimento das necessidades de mudança, mas, no fundo, muita coisa continua igual.

Vamos ler e nos autoavaliar, analisar, refletir e pôr em prática.

Danilo Gandin e Carlos Cruz dizem assim:

Se pensarmos a educação escolar como parte de um processo de construção da pessoa e, mais, de uma sociedade, se compreendermos que muito conteúdo preestabelecido é completamente antieducativo e inútil, então precisaremos muito do planejamento. Não de qualquer planejamento, muito menos de quadrinhos que os professores preencham para a manutenção do faz de conta, mas de um planejamento que tenha como perspectiva a construção de uma realidade, através da transformação da realidade existente.”

Danilo Gandin

É necessário, portanto, que nos mova a todos um compromisso de cidadania com as transformações possíveis da prática educacional. E que se tenha, também, cuidado para buscar um aprofundamento sempre maior sobre educação.”

Carlos Cruz

Planejar é uma ação contínua, por isso não deve ser feita apenas para o começo das atividades de um ano letivo. O professor deve olhar o seu aluno como cidadão do mundo, e uma das suas principais funções é veicular os conteúdos a serem desenvolvidos com ideias de justiça social, fraternidade e solidariedade humana, princípios éticos de uma sociedade. Por isso, mudem, transformem-se, abracem o projeto político-pedagógico de sua escola, tenham, segundo Gandin, “[…] a clareza de uma transformação em proveito de todos”.

Um abraço fraterno,
Lourdinha Cunha


Lourdinha Cunha é formada em Pedagogia, Especialista no Ensino Fundamental Anos Iniciais, com experiência de 48 anos como professora do Ensino Fundamental I.

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