Edição 134

Matéria Âncora

Fraternidade e Amizade Social

Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB/Campanha da Fraternidade 2024

6. A amizade, esse sentimento fiel de estima entre as pessoas, é um dom de Deus, um fenômeno humano universal, que nasce da livre oferta de si mesmo para abrir-se ao mistério do outro. É um caminho de humanização e de renovação das relações fraternas, que nos permite existir e viver com a responsabilidade e o compromisso de transformar a própria vida e a vida do outro. Como é bom ter amigos!

7. Os tempos atuais e o Papa Francisco nos desafiam a “ir além dos grupos de amigos e construir a amizade social, tão necessária para a boa convivência (…) [fugindo] da inimizade social, que só destrói (…). Isso nem sempre é fácil, principalmente hoje, quando parte da sociedade e da mídia se empenha em criar inimigos para derrotá-los em um jogo de poder. O diálogo é o caminho para ver a realidade de uma maneira nova, para viver com entusiasmo os desafios da construção do bem comum”. “Como seria bom, salutar, libertador, esperançoso, se pudéssemos trilhar este caminho! Sair de si mesmo para se unir aos outros (…)” (EG, n. 87).

8. Existem, contudo, palavras e expressões difíceis de comunicar em um único conceito. Amizade é uma delas. Há, igualmente, conceitos que, de tão usados e tão mal-usados, perdem a capacidade de expressar o que realmente significam. Fraternidade é um deles. Por isso, é muito importante que busquemos nos clássicos o conhecimento dos seus significados. A amizade no mundo clássico tem um papel central. É o modelo de todas as relações humanas pessoais, familiares, políticas e espirituais. Os gregos consideravam a amizade como hoje consideramos o amor.

16. Mas o que é amizade social? Deixemos que o próprio Papa Francisco nos responda: amizade social é “amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço” (FT, n. 1); amizade social é “uma fraternidade aberta, que permite reconhecer, valorizar e amar todas as pessoas, independentemente da sua proximidade física” (FT, n. 1); amizade social é um amor “desejoso de abraçar a todos” (FT, n. 3); amizade social é “comunicar com a vida o amor de Deus, recusando impor doutrinas por meio de uma guerra dialética” (cf. FT, n. 4); amizade social é viver livre “de todo desejo de domínio sobre os outros” (FT, n. 4); amizade social é “o amor que se estende para além das fronteiras” (FT, n. 99), “para todo ser vivo” (FT, n. 59); amizade social é o “amor que rompe as cadeias que nos isolam e separam, lançando pontes; o amor que nos permite construir uma grande família na qual todos nós podemos nos sentir em casa (…). Amor que sabe de compaixão e dignidade” (FT, n. 62); amizade social é “a capacidade diária de alargar o meu círculo, chegar àqueles que espontaneamente não sinto como parte do meu mundo de interesses, embora se encontrem perto de mim” (FT, n. 97); amizade social é “o amor [que] implica algo mais do que uma série de ações benéficas. As ações derivam de uma união que propende cada vez mais para o outro, considerando-o precioso, digno, aprazível e bom, independentemente das aparências físicas ou morais. O amor ao outro por ser o que é impele-nos a procurar o melhor para a sua vida. Só cultivando essa forma de nos relacionarmos é que tornaremos possível aquela amizade social que não exclui ninguém e a fraternidade aberta a todos” (FT, n. 94).

17. Como vimos, a amizade social é o amor presente nas relações sociais; é o amor como base da relação entre as pessoas e os povos; é o amor feito cultura. E “o amor coloca-nos em tensão para a comunhão universal. Ninguém amadurece nem alcança a plenitude isolando-se. Por sua própria dinâmica, o amor exige uma progressiva abertura, uma maior capacidade de acolher os outros, em uma aventura sem fim, que faz convergir todas as periferias rumo a um sentido pleno de mútua pertença. Disse-nos Jesus: ‘Todos vós sois irmãos’ (Mt 23,8)” (FT, n. 95).

18. Conjugando os conceitos de amizade e sociedade, retomando a amizade social aristotélico-tomista, o Papa Francisco quer não apenas apontar a valorização da vida em todas as suas etapas e condições (cf. GeE, n. 101) como fundamental para qualquer desenvolvimento social possível, mas também acentuar que a verdadeira valorização da vida se dá quando esta não é compreendida à parte da sociedade (cf. FT, n. 111). Tal separação, tão comum ao modelo socioeconômico neoliberal, gera a categoria dos supérfluos, base para o que o Papa chama de “cultura do descarte” (cf. FT, n. 18-19). Migrantes, pobres, velhos, pessoas com deficiência, nascituros, desempregados são suas primeiras vítimas. A amizade social é uma convocação a valorizar o direito à vida, o direito ao seu desenvolvimento integral, sobrepondo-se ao individualismo utilitarista, que fecha as pessoas à transcendência de si mesmas, que surge na interação social. A amizade social é, para Francisco, o antídoto contra um ser humano fechado em si mesmo e, consequentemente, contra um mundo fechado aos vulneráveis e “improdutivos”. Para tanto, é absolutamente necessário que o valor recaia na pessoa humana, com a qual se relaciona socialmente, e não no produto dessa relação.

21. “O amor social se traduz em atos de caridade que criam instituições mais sadias e estruturas mais solidárias. Estruturar a sociedade, por exemplo, ‘de modo que o próximo não venha a se encontrar na miséria’ é um ato de caridade que, segundo o Papa, tem a conotação de ‘amor político’. A política é o mais alto grau da caridade, afinal dar de comer a um desempregado é expressão de amor, mas assegurar o direito de trabalho a muitos, pela ação política, é expressão intensa de amor, porque os emancipa e os dignifica. Embora a caridade política englobe a todos, ‘o núcleo do autêntico espírito da política’ é o ‘amor preferencial pelos últimos’. Por isso, o Papa Francisco propõe à humanidade, particularmente às lideranças religiosas e políticas, a construção da cultura do diálogo, da reconciliação e da paz, atuando juntos em favor do bem comum e da promoção dos mais pobres. Assim se expressa o Papa, demonstrando a necessidade de toda a humanidade abraçar a causa da fraternidade universal para superar seus perpétuos conflitos culturais, econômicos e políticos, que se manifestam até mesmo na forma de ‘guerras fratricidas’.”

VER: Onde está o teu irmão? (GN 4,9)

O homem conheceu Eva, sua mulher, e ela engravidou e deu à luz Caim, dizendo: “Ganhei um filho homem, graças ao Senhor”. Ela tornou a dar à luz e teve Abel, irmão de Caim. Abel tornou-se pastor de ovelhas; e Caim, agricultor. Tempos depois, aconteceu que Caim trouxe frutos do solo para oferecer ao Senhor. Abel, por sua vez, trouxe os primogênitos do seu rebanho e a gordura deles. E o Senhor se agradou de Abel e de sua oferta, mas de Caim e de sua oferta não se agradou. Caim ficou muito irritado e com o rosto abatido. Então o Senhor perguntou a Caim: “Por que andas irritado e com o rosto abatido? Porventura, se agires bem, não serás aceito? Mas, se não agires bem, o pecado espreitará à tua porta. Ele te deseja, mas tu deves dominá-lo”. Caim falou ao seu irmão Abel: “Vamos ao campo!”. Logo que estavam no campo, Caim atirou-se sobre seu irmão Abel e o matou. O Senhor perguntou a Caim: “Onde está Abel, teu irmão?”. Ele respondeu: “Não sei. Acaso sou o guarda do meu irmão?” (Gn 4,1-9).

22. “Com a sua pergunta, Deus coloca em questão todo tipo de determinismo ou fatalismo que pretenda justificar, como única resposta possível, a indiferença. E, em contrapartida, habilita-nos a criar uma cultura diferente, que nos conduza a superar as inimizades e a cuidar uns dos outros” (FT, n. 57).

23. Sabemos que, ao longo de sua história, a Campanha da Fraternidade tem abordado vários temas, todos muito concretos, diretamente ligados à vida das pessoas, das comunidades e, é claro, de todo o povo brasileiro. Sabemos que a amizade social é um valor em si mesma e um dom de Deus aos seres humanos. A Campanha da Fraternidade, que, tradicionalmente, é um forte convite à conversão, ao trazer este tema, nos faz refletir sobre o quanto podemos melhorar a nós mesmos e o mundo. Posto que na vida os desafios sempre nos levam a somar forças e nos ajudar mutuamente, somos chamados a nos perguntar: a que a Campanha da Fraternidade deste ano nos convoca a efetivamente nos convertermos?

Somos todos irmãos

24. Nossa fé nos recorda de que somos todos irmãos e irmãs, possuidores da mesma dignidade, o que nos dá uma igualdade fundamental, uma vez que, dotados de alma racional e criados à imagem de Deus, todos temos a mesma natureza e origem; e, remidos por Cristo, todos temos a mesma vocação e destino” (cf. GS, n. 29). Viemos da Trindade e a ela voltaremos. Por isso, São Paulo adverte os gálatas: “Com efeito, vós todos sois filhos de Deus pela fé no Cristo Jesus. Vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo. Não há mais judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher, pois todos vós sois um só, em Cristo Jesus” (GI 3,26-28).

25. Certo é que, “pela variada capacidade física e pela diversidade das forças intelectuais e morais, nem todos os homens se equiparam” (cf. GS, n. 29). Aliás, resguardada a igualdade fundamental, somos muito distintos na forma física, no modo de pensar e agir, nas opções de vida, no relacionamento interpessoal e com o Transcendente, nas escolhas que vão desde o modo de vestir, o time pelo qual torcer até a forma de governo que desejamos para o nosso país. Somos diferentes! E nossas diferenças não são, em si, um problema. São nossa riqueza! Às vezes, somos divergentes! Terrível seria se pensássemos todos da mesma maneira. E há pessoas que são até oponentes! Ou seja, ao nosso ver limitado, sua existência não tem nenhuma função a nosso favor, entendemos falsamente que sua existência é contrária à nossa.

26. No entanto, nem as diferenças, nem as divergências, nem a oposição devem nos impedir de cumprir o mandamento maior que Jesus nos deixou como seu testamento: “Eu vos dou um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34), ainda que ele comporte a exigência que nos qualifica como cristãos: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5,44). Especialmente para o seguidor e a seguidora de Jesus, principais interlocutores do Mestre nessas passagens dos Evangelhos, o amor é mandamento fundamental e um critério central para guiar nossas escolhas e o modo como nos relacionamos com cada pessoa em nosso dia a dia. As palavras de Jesus Cristo estão, de fato, profundamente presentes em nossa vida, guiando-nos em cada situação? Lembramos sempre da singular dignidade que cada ser humano possui, mesmo quando a realidade visível é intensamente desafiante e parece ofuscar tal dignidade?

29. O outro é sempre um irmão, uma irmã que precisamos acolher, conhecer e apreciar. Suas particularidades, por vezes estranhas, podem até mesmo nos enriquecer. Mas, mesmo que isso não ocorra, ele não pode ser transformado em um inimigo a ser eliminado. Conforme já nos ensinaram as Campanhas da Fraternidade de 2022 e de 2023, precisamos nos educar para a capacidade de reconhecer e promover a dignidade das pessoas, para a superação de atitudes apedrejadoras e consumistas, que objetificam os outros e nos impedem de contemplar sua beleza original, sua grandeza de filho ou filha muito amados por Deus e criados à sua imagem e semelhança (imago Dei).

Sinais de divisões e inimizades, sombras de um mundo fechado

33. Infelizmente, na sociedade em que vivemos, imperam cada dia mais a intolerância e o consequente desejo de eliminar o diferente, seja uma eliminação real (homicídio), seja uma eliminação virtual (cancelamento). Esta realidade é tão fortemente presente que podemos caracterizar a nossa cultura como a cultura do cancelamento. As redes sociais têm sido terreno fértil para essa cultura. O esvaziamento da força do diálogo na comunicação, por causa das ferramentas redutivas que promovem a superficialidade nas redes sociais, amplificou a intolerância e o ódio.

35. Esta rejeição do diferente pode dar-se a partir de um princípio etnorracial, e então queremos eliminar todo aquele que é diferente da nossa raça. É o que chamamos racismo! Pode dar-se no âmbito social, e assim a rejeição se dá entre os que têm e os que estão sem: sem-terra, sem-teto, pessoas em situação de rua… Pode acontecer por uma questão de gênero, e aí as mulheres são, normalmente, as eliminadas: é o feminicídio, tão praticado no Brasil! Dá-se também no campo político, onde prefere-se a parte ao todo, o lado ao bem comum, empenhando-se em minar o outro e seus projetos, mesmo que isso exija renunciar ao bom senso e à lucidez.

36. No âmbito religioso não é diferente. Quanta violência já se praticou e se pratica em nome da religião. Violência que é fruto do desejo fundamentalista de eliminar o outro, de eliminar aquele que compreende Deus de uma forma diferente da minha. No entanto, o Concílio Vaticano II já afirmava: “Todos os homens devem estar livres de coação, quer por parte dos indivíduos, quer dos grupos sociais ou qualquer autoridade humana; e de tal modo que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência (…) O direito à liberdade religiosa se fundamenta na própria dignidade da pessoa humana, que a Palavra revelada de Deus e a própria razão dão a conhecer” (cf. DH, n. 2). Precisamos estar atentos: entre os cristãos, que deveriam ser conhecidos pelo amor mútuo (cf. Jo 13,35), têm sido difundidas palavras e atitudes de difamação, perseguição, calúnia e ódio, estabelecendo relações de inimizade a partir das quais uma pessoa se vê como maior e melhor que a outra. Entre nós não deve ser assim, ensina-nos Jesus (cf. Mt 20,26; Mc 10,43; Lc 22,26).

Marcas da nossa sociedade

42. Nossa sociedade, hoje, está dividida. Poderíamos ser apenas diferentes, mas nos dividimos, erguemos muros de separação entre nós e, muitas vezes, erigimos o diferente como inimigo, para justificarmos sua eliminação.

43. Como se não bastasse a divisão, vivemos em uma sociedade absolutamente desigual. E o fosso da desigualdade aprofunda a divisão. Pessoas que antes, não obstante a sua pobreza, conseguiam ajudar um familiar ainda mais pobre, hoje romperam o contato, pois já não são capazes de repartir o pouco que têm. E a culpa não é delas, mas de um sistema econômico que sobrevive à custa dos sacrifícios humanos.

44. Segundo a mentalidade corrente, quanto mais cedo conseguirmos eliminar aqueles que são improdutivos e, por isso, um peso para a sociedade (desempregados, pobres, doentes, idosos…), mais rápido conseguiremos elevar o nível de vida para aqueles que são produtivos e contribuem com a sociedade.

45. Ainda mais, nossa sociedade é excludente. Abaixo dos considerados improdutivos, encontramos os excluídos, aqueles que a sociedade não quer nem ver, para nem se lembrar da sua existência. São as pessoas em situação de rua, os encarcerados, os refugiados…

46. Infelizmente, essas marcas não estão distantes de nós que professamos a fé cristã, contrária a tudo isso. Para percebermos a presença dessas marcas em nós, basta que nos perguntemos sincera e honestamente, em tom de exame de consciência: com quantos amigos ou familiares rompi relações e estabeleci divisões por razões ideológicas? Quantas pessoas descartadas pela sociedade eu ajudo a viver dignamente? Quantos amigos eu tenho entre as pessoas em situação de rua, nos cárceres ou refugiados?

47. “Neste mundo, que corre sem um rumo comum, respira-se uma atmosfera em que ‘a distância entre a obsessão pelo próprio bem-estar e a felicidade da humanidade partilhada parecem aumentar: até fazer pensar que, entre o indivíduo e a comunidade humana, já esteja em curso um cisma. (…) Porque uma coisa é sentir-se obrigado a viver junto, outra é apreciar a riqueza e a beleza das sementes de vida em comum que devem ser procuradas e cultivadas em conjunto’. A tecnologia avança continuamente, mas ‘como seria bom se, ao aumento das inovações científicas e tecnológicas, correspondessem também uma equidade e uma inclusão social cada vez maiores! Como seria bom se, enquanto descobrimos novos planetas longínquos, também descobríssemos as necessidades do irmão e da irmã que orbitam ao nosso redor!’” (FT, n. 31).

56. Vivemos, portanto, em um tempo em que a diferença passou a ser vista como inimizade e, mais grave ainda, como ameaça. O adversário virou inimigo. Diante desse fato, a primeira atitude é a do afastamento, a da dificuldade em superar as desavenças e buscar a reconciliação. Quando essa atitude se torna ainda mais aguda, deparamo-nos com propostas e mesmo posturas de combate, destruição e morte. “Isso — diz o Papa Francisco — favorece o efervescimento de formas insólitas de agressividade, com insultos, impropérios, difamação, afrontas verbais que chegam a destroçar a figura do outro (…)” (FT, n. 44).

 

Causas que geram e alimentam a inimizade

64. Entre as graves causas de tudo isso que vivemos, encontram-se a destruição da coletividade e a construção do indivíduo solitário e autossuficiente. A modernidade nos presenteou com a descoberta da individualidade, mas nós a desfiguramos em um exacerbado individualismo, que faz emergir uma subjetividade violenta e psiquicamente doentia.

Sinais que suscitam e sustentam a amizade social

79. Consideremos também a permanente disposição à solidariedade que o povo brasileiro manifesta de forma gratuita e voluntária, em emergências naturais ou em grandes tragédias causadas pelo próprio ser humano. O povo brasileiro voluntariamente se mobiliza, organiza e coloca em comum bens e serviços necessários para o socorro das vítimas, realizando, assim, ainda que temporariamente, aquela fraternidade e amizade social querida por Deus em todo tempo e lugar. “A solidariedade manifesta-se concretamente no serviço, que pode assumir formas muito variadas de cuidar dos outros. O serviço é ‘em grande parte cuidar da fragilidade. Servir significa cuidar dos frágeis das nossas famílias, da nossa sociedade, do nosso povo’” (FT, n. 115). No entanto, o Papa Francisco nos adverte: “Solidariedade é muito mais do que alguns gestos de generosidade esporádicos. É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. É também lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, a terra e a casa, a negação dos direitos sociais e laborais. É fazer face aos efeitos destrutivos do império do dinheiro” (FT, n. 116). E aqui temos ainda muito a crescer na solidariedade, em seu sentido mais profundo.

82. Os movimentos sociais, chamados pelo Papa Francisco de poetas sociais, têm “a capacidade e a coragem de criar esperança onde só aparecem o descarte e a exclusão” e sabem “como forjar a dignidade de cada pessoa, das famílias e da sociedade como um todo, com terra, casa e trabalho, cuidados e comunidade”. Por isso, o Papa, reconhecendo-lhes como sinal de predisposição à fraternidade e à amizade social, lhes diz: “pensando em vós, considero que a vossa dedicação é, sobretudo, uma proclamação de esperança. Ver-vos lembra-me de que não estamos condenados a repetir ou a construir um futuro baseado na exclusão e na desigualdade, no descarte ou na indiferença; onde a cultura do privilégio é um poder invisível e irreprimível e a exploração e o abuso são um método habitual de sobrevivência”.

83. As associações comunitárias, para lutar pelo bem comum, e as inciativas de mediação comunitária de conflito não nos deixam enganar sobre a boa disposição que habita o coração do nosso povo. Os grupos de entreajuda demonstram como existem pessoas dispostas a entrelaçarem seus braços formando redes de apoio para aqueles que necessitam e que já não conseguem reerguer-se sozinhos.

Vós sois todos irmãos e irmãs” (Mt 23,8)

ILUMINAR:

86. O capítulo 23 do Evangelho de Mateus está inserido em um amplo conjunto de orientações que Jesus oferece aos seus discípulos, já na proximidade de sua Paixão. Ele ensina a seus seguidores a correta conduta e também mostra o contraponto da má conduta, que não deve ser seguida. O discurso em questão é, portanto, um ensinamento eclesial, que diz respeito à pessoa, mas, sobretudo, à comunidade: é orientação a respeito da vida fraterna à luz da Lei do Senhor. São dois os grupos que estão no horizonte da fala de Jesus. Primeiro, há o grupo dos discípulos, que o escutam e que devem aprender, com suas orientações, o discipulado verdadeiro. O segundo grupo é o dos fariseus e escribas: homens próximos da Lei, cuja reflexão pode ser acompanhada, mas cuja ação não deve ser imitada.

87. Jesus denuncia algo muito grave praticado pelos fariseus e escribas: a instrumentalização da fé. Os Evangelhos concordam que Jesus observou como os religiosos de seu tempo, frequentemente, se aproveitaram da fé do povo para alcançar seus próprios interesses, expressar interpretações próprias e configurar a religião a suas próprias prerrogativas (cf. Lc 11,37-54; Mc 12,38-40). E, quando os interesses pessoais não eram prioridade, ao menos uma insensibilidade se fazia frequente: amarravam em ombros alheios fardos pesados que eles mesmos não eram capazes de suportar. Os falsos pastores e os falsos profetas, para Jesus, são especialmente aqueles que não alinham palavra e ação, que não são capazes — ou mesmo nem desejam — que sua vida e suas atitudes sejam coerentes com a Palavra anunciada, que é a Palavra do próprio Deus. Pior ainda é a simulação da profecia a fim de ajuntar adeptos, riquezas, prestígio ou poder. A crítica de Jesus, profundamente coerente em seu tempo, é atual ainda hoje.

“Estou procurando meus irmãos”
(Gn 37,16)

 

Um único Mestre: Jesus

93. O título de rabi era atribuído, principalmente, a quem exercia função do ensino, mas também a todos os que eram considerados superiores no judaísmo. Mais do que uma função, exprimia uma relação de poder e superioridade por isso deveria ser evitado na comunidade cristã. É claro que a função de ensinar é necessária e até essencial para a comunidade, no entanto quem a exerce não pode reivindicar tratamento diferenciado nem reconhecimento por isso, sobretudo porque o único Mestre é o próprio Jesus. Por isso, na vida cristã, as pessoas não podem ser reconhecidas por outra condição que não a de irmãos e irmãs. Só é possível construir um mundo justo e igual, como é o Reino de Deus, se todas as pessoas envolvidas se sentirem irmãs umas das outras e viverem como tal, reconhecendo Jesus como único Mestre e o seu Evangelho como único ensinamento que humaniza e faz viver. A centralidade de Jesus como único Mestre e Senhor leva todos os membros da comunidade a se sentirem iguais e viverem como irmãos, ou seja, gera vida fraterna. E é da fraternidade que emanam a amizade, a solidariedade e a transparência nas relações. Vimos, entre os números 78 e 86, que muitas são as formas contemporâneas de vivenciar a amizade social. O testemunho é o melhor ensinamento que se pode oferecer e é também a escola. No laboratório das simples práticas, vamos pouco a pouco aprendendo a grande tarefa da fidelidade ao Evangelho.

98. A partir do capítulo 37 do Livro do Gênesis, a história de um grupo de irmãos aprofunda a reflexão sobre a fraternidade e os efeitos de seu rompimento. José, o filho mais novo de Jacó, é também o filho favorito do pai. Há que se lembrar de que José, gerado já na velhice, é também o primogênito de Raquel, a quem Jacó mais amou (cf. Gn 29,30). Enquanto o texto bíblico não se preocupa em justificar a predileção, é preciso na afirmação de um detalhe: “Ora, Israel amava mais a José do que a todos os outros filhos, porque era filho de sua velhice. Por isso, mandou fazer para ele uma túnica vistosa” (Gn 37,3). Podemos imaginar os ciúmes causados nos irmãos pelo presente tão distinto de José, indicativo de uma dignidade diferenciada, até mesmo do pertencimento a uma classe social mais elevada. Eis aqui a própria raiz do rompimento da fraternidade que levara à morte Abel. A diferença, o que distingue José, não consegue ser vista pelos irmãos como a marca de sua identidade, distinta, mas fraterna. Pelo contrário, é temida, como se fosse ameaçadora. Essa mancha cobre muitas das nossas relações hoje, porque nos deixamos levar por um processo de hipervalorização da individualidade, que resulta em autorreferencialidade. Quando somente o “eu” é a referência, o outro se torna estranho e perde lugar. Assim, quando nossas diferenças são entendidas como ameaças e não encontram nossos esforços em construir fraternidade, as relações humanas se rompem e a morte encontra espaço para existir entre nós.

100. No Novo Testamento, há um paralelo que também envolve túnicas e fraternidades rompidas. Em Lc 15,11-32, quando o filho mais novo retorna, o pai, misericordioso, o recebe com insígnias cheias de simbolismo: a melhor túnica, um anel no dedo e sandálias nos pés (cf. Lc 15,22). O filho mais velho não aceita a identidade única do irmão, aquele que do mais profundo individualismo é resgatado pelo pai para se tornar um homem revestido de nova dignidade, com um novo nome e, ainda, herdeiro de sua casa. Ao ouvir a festa — sinal claro da comunhão, da alegria e da celebração fraterna — resolve isolar-se e ficar de fora. No diálogo com o pai, ele demonstra não aceitar que o irmão seja diferente dele e pensa que sua filiação deveria ser manifesta de igual forma: na permanência, na fidelidade ininterrupta, na independência da misericórdia do pai. O pai, por sua vez, reafirma a fraternidade incorrupta com o filho. É ela mesma a razão e o convite para que o filho mais velho também se reconcilie com o mais novo. O Pai, em Jesus, torna incorrupta a relação conosco porque, nele, nos faz (re)encontrar sua misericórdia de forma plena e definitiva. Assim, convida-nos, também, à reconciliação fraterna, como esforço de, à sua imagem, manter fortes os vínculos que Ele mesmo jamais rompe.

102. Com estas palavras, o Papa Francisco inicia a Encíclica de 2020: “Fratelli tutti‘’, escrevia São Francisco de Assis, dirigindo-se a seus irmãos e irmãs para lhes propor uma forma de vida com o sabor do Evangelho. Dos conselhos que ele oferecia, quero destacar o convite a um amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço; nele, declara feliz quem ama o outro, ‘o seu irmão, tanto quando está longe, como quando está junto de si’. Com poucas e simples palavras, explicou o essencial de uma fraternidade aberta, que permite reconhecer, valorizar e amar todas as pessoas, independentemente da sua proximidade física, do ponto da terra em que cada uma nasceu ou habita” (FT, n. 1).

106. A história de Rute e Noemi ilumina o significado da amizade social. Só é possível porque são superados os limites de sangue e etnia que, na sociedade atual, são manipulados para subsidiar a indiferença e o descaso. O exemplo bíblico, em nome da primazia da compaixão e da fraternidade, vai na contramão do que seria aceito, inclusive legalmente, em uma sociedade na qual o individualismo ainda não era tão forte. Os laços estabelecidos como resultado da amizade e da fraternidade são capazes de restaurar uma vida, regatando do esquecimento, da solidão e até mesmo da pobreza e da miséria. A familiaridade que Rute constrói com Noemi é escolha, assim como também são escolhas os vínculos que Jesus exorta seus discípulos a estabelecer. A história dessas duas mulheres e de seu vínculo tão profundo constrange o nosso tempo, tão marcado pelas já citadas divisões familiares, advindas das divergências de pensamento, de opiniões políticas, de posicionamentos diante dos fatos.

“Onde quer que permaneças, permanecerei contigo”
(Rt 1,16)

108. No Evangelho de Mateus (23,1-12), o que Jesus indica como resposta à conduta dos fariseus é a escolha da fraternidade. A Lei do Senhor não é desconhecida nem para os Discípulos, nem para a multidão que a escuta, nem para os fariseus e escribas que a anunciam. O que deve diferenciar um grupo de outro, para Jesus, é o horizonte a partir do qual é interpretada essa mesma Lei. Se, para uns, ela é lida e praticada apenas em perspectiva exterior — configurando vestes e exigindo sacrifícios, condicionando discursos e subsidiando regras, muitas vezes pesadas demais —, entre os que seguem Jesus não deve ser assim. É Jesus o próprio horizonte a partir do qual o discípulo deve se aproximar da Lei. Ele é o Verbo encarnado, a nova e definitiva manifestação da Palavra de Deus ao mundo, chave de sentido para o conjunto completo da história. Em Jesus, a Lei do Senhor alcança sua plenitude, e isso acontece precisamente por meio dos caminhos que Ele mesmo oferece para sua interpretação e prática.

109. Portanto, encontramos no próprio Jesus o sentido de sua fala: “Todos vós sois irmãos” (Mt 23,8). Interpelado a respeito de sua família, Jesus dissera: “Eis minha mãe e meus irmãos. Todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,49-50). Em Jesus, os laços gerados a partir da fé são mais fortes que os laços de sangue. Por certo, Jesus não derroga o quarto mandamento (honrar pai e mãe). Ele eleva os laços humanos a um nível muito mais alto: ao nível da fraternidade universal. Desse modo, fé e fraternidade se conectam irrenunciável e irreversivelmente. Ao longo de todo o seu ministério, Jesus ensinou o que era fazer a vontade do Pai: anunciou o Reino para todos e trouxe para perto os menos prováveis (cf. Mt 4,18-22); associou uns aos outros em uma relação fraterna e selou essa unidade pela oração (cf. Mt 6,9 ss); alertou a respeito do julgamento mútuo e convidou ao exame da própria consciência (cf. Mt 7,3-5); ensinou a correta interpretação da Lei e teve misericórdia para com aqueles que a ela estavam submetidos (cf. Mt 12,1-8); anunciou a Boa-Nova aos pobres e saciou suas necessidades (cf. Mt 14,13-21); viveu entre os necessitados e ensinou a renúncia (cf. Mt 19,16-26); pregou a misericórdia e, com ela, combateu o pecado (cf. Mt 18,21-35); proclamou a salvação e, com sua morte e ressurreição, nos salvou (cf. Mt 28,1-8). Quando nos esforçamos para que a Palavra, que é o próprio Jesus, esteja no coração, no anúncio e também na prática cotidiana, aí, então, somos verdadeiros discípulos e discípulas, verdadeiros irmãos e irmãs, temos em nós “os mesmos sentimentos de Cristo Jesus” (cf. Fl 2,5).

Vós sois todos irmãos e irmãs”
(cf. Mt 23,8)

110. O Evangelho de João, ápice da reflexão teológica no compreender que, a partir de Jesus, a fraternidade, que se traduz em proximidade, livre doação de si, compaixão e comunidade, é o amor distintivo do discípulo (cf. Jo 13,35). João reforça a ideia de que esse amor ainda é distinto do amor de Deus: não totalmente perfeito, não totalmente capaz; mas é convite à imitação do Mestre em seu testemunho de sensibilidade, compaixão, serviço, entrega. Abre-se o significado da amizade social quando percebemos que muitas expressões no Evangelho de João, ao desenvolverem o tema do amor do discípulo, utilizam a palavra grega philos, ou suas derivações, muitas vezes traduzida por amizade. A amizade cristã é, portanto, vivência do amor do discípulo — tarefa da grande academia que é o discipulado, esforço de imitação do Mestre e plenitude do amor humano que, mesmo não sendo amor divino, é seu sinal no mundo. Essa amizade constrói comunhão, forma comunidade, é a marca do discípulo e a prova de que o ministério de Jesus tem continuidade no serviço daqueles que são seus.

O testemunho dos santos

114. A vida e a história dos santos e santas que, com seu testemunho, iluminam, quais luzeiros, o caminho bimilenar da igreja não deixam de oferecer-nos exemplos edificantes de fraternidade e amizade social. Como não recordar a bela e santa amizade de São Gregório Nazianzeno e São Basílio de Cesareia, caracterizada por este com a expressão: “parecia-nos ter uma única alma em dois corpos”? Lembremos a grande amizade entre o patriarca de Cosntantinopla, São João Crisóstomo, exilado pelo Imperador, e a diaconisa Olímpia, que tanto o ajudou com suas cartas no tempo do sofrimento. Também a grande e fraterna amizade dos irmãos São Bento e Santa Escolástica, que mutuamente se impulsionavam na busca de Deus, é exemplo para nós.

Já não vos chamo servos (…). Eu vos chamo amigos”
(Jo 15,15)
(cf. Mt 23,8)

116. Não é exagero dizer que não há santidade no ódio, na indiferença, na exclusão. A santidade só se manifesta na fraternidade, na amizade sem fronteiras, para além dos nossos gostos, afetos e preferências, abrindo-nos ao outro, por mais repugnante que ele nos pareça, como era o leproso para o jovem Francisco de Assis, no processo de sua conversão, que ele mesmo recorda no seu testamento, dizendo: “o Senhor concedeu a mim, frei Francisco, começar a fazer penitência: porque, como estava em pecados, parecia-me por demais amargo ver os leprosos. E o próprio Senhor me conduziu para o meio deles. E eu fiz misericórdia com eles. E aquilo que me parecia amargo converteu-se para mim em doçura da alma e do corpo”.

AGIR

23. Chegamos a um momento decisivo da nossa CF: o agir. Somente a ação é capaz de converter o juízo. É acima de tudo a ação, e não apenas o argumento que rompe as bolhas, tão características dos nossos tempos. É hora de agir juntos! Propor e realizar ações com aqueles que são diferentes de nós, às vezes até nossos opositores. Se conseguirmos partir de um mínimo ponto comum e trabalhar juntos, abandonando os preconceitos, daremos grandes passos em direção à cultura do encontro e do diálogo.

126. Nosso desafio é “ser ainda mais uma Igreja que escuta: escuta do Espírito por meio da escuta da Palavra, da escuta dos acontecimentos da história e da escuta mútua como indivíduos e entre as comunidades eclesiais, desde o nível local até os níveis continental e universal (…) Este estilo de ouvir precisa marcar e transformar todos os relacionamentos que a comunidade cristã estabelece entre seus membros, bem como com outras comunidades religiosas e com a sociedade como um todo, especialmente em relação àqueles cuja voz é mais frequentemente ignorada”. E, assim, vivenciando sempre mais a experiência da fraternidade, da amizade, da comunhão, a Igreja, por seu testemunho e suas ações, irradia para toda a sociedade o valor da amizade, mostrando com atitudes bem concretas que, mesmo diante de tamanha pressão em direção à inimizade, à separação e ao conflito, é possível fazer da fraternidade um valor indispensável na sociedade atual. Quando a fraternidade se torna valor nas culturas, quando uma sociedade, valorizando por certo as diferenças, estabelece e mantém processos, mecanismos e instrumentos de unidade, comunhão e fraternidade, podemos então dizer que estamos em um ambiente de amizade social.

CONCLUSÃO

133. Deus nos fez a todos seus filhos e filhas. Somos todos irmãos e irmãs! Sua eterna criatividade fez-nos únicos. Portanto, diferentes. Contudo, nossas diferenças no ser, no pensar e no agir não nos podem dividir ou separar. Nossas diferenças são riquezas, oportunidades de crescimento, encaixes de comunhão! Por meio do diálogo, construamos harmonia entre nós, sejamos construtores da cultura do encontro.

134. É importante encontrar e criar oportunidades para propor a reflexão da CF 2024 nas celebrações comunitárias, nas catequeses, nos conselhos diocesanos, paroquiais e comunitários, nos encontros e reuniões de grupos pastorais e movimentos eclesiais, nas escolas e nas câmaras legislativas. O que importa é insistir no que é a CF em si mesma — um instrumento de comunhão eclesial, de formação das consciências e do comportamento cristão e de edificação de uma verdadeira fraternidade cristã e amizade social entre os brasileiros.

Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB. Campanha da Fraternidade 2024 – Texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2023. Págs. 18, 21, 22, 24, 25, 26, 27, 28, 29, 32, 35, 37, 42, 43, 45, 46, 49, 52, 54, 55, 57, 58, 60, 61, 67, 68, 74.

 

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