Edição 118

Em discussão

Índios na cidade, na “aldeia”, no Brasil: por um ensino sem caricaturas e preconceitos

Antonio Dyego Vasconcelos Garcia

Agradecimento especial ao professor Edson Silva (UFPE) pelas orientações e subsídios para a produção deste artigo.

RESUMO
O ensino sobre a história e as culturas indígenas no Brasil nas escolas privadas, na Educação Básica, mesmo que assegurado pela Lei no 11.645/2008, ainda apresenta lacunas significativas, uma vez que, nas salas de aula em geral, os conteúdos promovem uma imagem folclórica e caricata sobre os índios, enfatizando apenas as “aldeias” como os territórios onde habitam ou se referindo somente ao período da colonização portuguesa do nosso país. Urge a necessidade de abordar o índio no presente, também nas cidades, vivenciando outros cotidianos, na diversidade de práticas socioculturais e ressaltando a resistência indígena nos processos históricos em diferentes contextos sociais da História do Brasil. E a escola deve tratar da temática indígena com abordagens que evidenciem os protagonismos e o reconhecimento dos direitos dos povos indígenas em sua sociodiversidade.

indios

Em uma aula de História, numa escola da rede privada de ensino, o professor convida uma pessoa para relatar sobre seu cotidiano. A data é 19 de abril. Ao final do diálogo com os estudantes, o professor explica que o convidado é índio, membro de um povo que habita um território no município. Entretanto esse indígena não mora nas aldeias, e sim próximo ao centro urbano da cidade. É explícito o espanto de alguns alunos, e há vários questionamentos, tais como: “Como ele é índio se não está vestido como índio?” ou “Mas, para ser índio, não tem que morar na aldeia?”.

As inquietações dos alunos em relação ao ensino sobre os povos indígenas são justificáveis pela forma como historicamente o assunto vem sendo tratado em sala de aula, enfatizando constantemente uma perspectiva subjugada do índio diante do processo de dominação europeia e a consequente obsolescência dos povos indígenas, denominados como “atrasados” e até, por vezes, como “silvícolas” — no caso, selvagens.

indios tribo

Outra atribuição importante para a relação estereotipada do aluno com o índio trata da ideia dele como um personagem meramente caricato, sempre vestido com trajes específicos e “imortalizado” pelo biótipo oriundo da Amazônia e do Xingu, através das ilustrações apresentadas nas aulas, em que aparecem seminus, com pinturas pelo corpo e executando atividades tradicionais do seu cotidiano. Em uma sociedade que prioriza os avanços tecnológicos, como Internet, smartphones, tablets e afins, qualquer atividade que não corresponda a essas ações modernas provavelmente será considerada “primitiva”, “atrasada” e estará fadada ao esquecimento e silenciamento.

Com ideias que resultam de políticas educacionais que favorecem as classes mais abastadas do Brasil, atreladas ao preconceito em relação aos povos indígenas no País, a educação privada caminha a passos lentos em relação a um ensino propositivo sobre o índio como parte atuante na História do Brasil, nos territórios e nos meios urbanos, e não somente como um personagem do período colonial (SILVA, 2013), sendo necessário um novo olhar sobre o ensino da temática indígena para superar equívocos e evidenciar a afirmação e a busca dos índios por direitos e reconhecimento.

Compreender o índio como parte integrante da área urbana do município é entender esse processo como resistência de povos que, ao longo da História do Brasil, tiveram os territórios invadidos e as expressões socioculturais negadas, perseguidas e violentadas pela colonização.
Expulsos das terras originárias, muitos indígenas migraram para habitar nos centros urbanos (SOAVE, 2017), adaptando-se às cidades, afirmando a identidade, mobilizados pela reivindicação e pelo reconhecimento de direitos (MONTEIRO, 1999). Estando o indígena adaptado à urbanização, é necessário discutir nas aulas e rechaçar a ideia de que o índio habita unicamente as aldeias.

É importante ressaltar que o ensino da história e da cultura indígena está assegurado pela Lei nº 11.645/2008, que prevê a obrigatoriedade da temática indígena na Educação Básica. A escola deve contribuir para que as aulas possam desconstruir estereótipos e reduzir os preconceitos contra os povos indígenas, e um caminho é ouvir o que têm a dizer os povos indígenas, sua história e expressões socioculturais (SILVA, 2017). Sendo também uma educação para além do livro didático, objetivando evidenciar a situação indígena atual.

Vamos a um caso específico: no município de Pesqueira, localizado no Agreste pernambucano, em considerável parte de sua área está situado o território indígena do povo Xukuru do Ororubá, com uma extensão de 27 mil hectares e uma população de aproximadamente 12 mil indígenas. E ainda estima-se que cerca de 200 famílias residam na área urbana da cidade, a maioria nos bairros Xucurus e Caixa-d’água (ALMEIDA, 2002). O citado povo indígena atualmente é liderado pelo Cacique Marcos Xukuru, uma das maiores referências nas mobilizações por direitos dos indígenas no Brasil, que assumiu o legado deixado por seu pai, o Cacique Xikão Xukuru, o qual durante a Assembleia Nacional Constituinte, em 1986, com indígenas de todo o País, reivindicou e garantiu os direitos indígenas na Constituição Federal, aprovada em 1988 e atualmente em vigor (SILVA, 2008). Com base em dados expressivos como os supracitados, constata-se a relevância sociopolítica do povo Xukuru do Ororubá para o município, cabendo ao professor abordar a temática sobre os índios habitantes no território demarcado (zona rural do município) e também em bairros de Pesqueira.

Na primeira metade do século XX, Pesqueira teve um grande crescimento agroindustrial com as várias fábricas instaladas na cidade, destacando-se nacionalmente as Indústrias Carlos de Britto, mais conhecidas como Fábricas Peixe, que, durante muitos anos, produziram doces de goiaba, extrato de tomate e conserva. Entretanto, com as invasões de terras indígenas na Serra do Ororubá para a plantação de tomate e goiaba, vários índios xukurus do Ororubá migraram para a zona urbana de Pesqueira, muitos inclusive trabalharam como operários na Fábricas Peixe e habitaram na periferia da cidade, formando bairros como Xucurus e Caixa-d’água (SILVA, 2008). As discussões sobre esse período histórico possibilitam aos discentes conhecer uma história indígena que é vinculada à urbanização e industrialização. Um aprofundamento sobre a história do povo Xukuru do Ororubá no ensino sobre a temática indígena nas escolas privadas em Pesqueira é fundamental para uma maior compreensão dos estudantes da história da cidade e para a desconstrução de imagens indígenas exóticas, folclorizadas e romantizadas.

Nessa perspectiva, são necessárias abordagens que contribuam para o conhecimento acerca do cotidiano dos indígenas também na área urbana e que o professor proporcione para o aluno esse encontro com olhares outros sobre os índios, buscando a superação da invisibilidade histórica, uma vez que, apesar do processo de colonização, violências, exploração e catequização, os povos indígenas estão presentes, resistentes, num movimento político de afirmação étnica (BERGAMASCHI; GOMES, 2012).

“[...] são necessárias abordagens que contribuam para o conhecimento acerca do cotidiano dos indígenas também na área urbana e que o professor proporcione para o aluno esse encontro com olhares outros sobre os índios [...]

trabalho indigenaAtualmente, na educação, destacamos que os indígenas integram universidades, escolas públicas e privadas, seja na condição de aluno, seja na de professor. Na política, as lideranças indígenas são atuantes, a exemplo de Raoni, cacique do povo Kaiapó; do cacique Marcos Xukuru; e da deputada federal Joênia Wapixana, primeira mulher indígena eleita para esse cargo. Mesmo que a pugna acerca da ampliação de direitos seja constante, tais espaços ocupados são uma realidade.

Promover essa aprendizagem é um grande desafio, entretanto é possível a partir do momento em que o professor proporciona uma nova visão sobre a temática indígena na sala de aula, principalmente no período do Dia do Índio, o 19 de abril, quando promove a superação de visões estereotipadas dos alunos e de imagens do cotidiano indígena vinculado à aldeia — oca — e à caça, com uma abordagem ampla, evidenciando a relevância dos índios no cenário nacional, o cotidiano dos índios na cidade — a exemplo do bairro Xucurus, em Pesqueira/PE —, a organização, as práticas socioculturais e as variadas formas sustentáveis de convívio com a natureza.

Portanto, que o dia 19 de abril não seja a marca de continuidade da caricatura indígena. Que os professores da Educação Básica discutam com os alunos os protagonismos indígenas e tratem com a devida valorização a história desses povos. Que cada estudante compreenda a importância da história dos índios no Brasil e possa transmitir aos que não a conhecem, seja por falta de acesso a informação ou por estabelecer um preconceito, um novo olhar sobre a representatividade indígena. E avancemos nas propostas para que o ensino da história e das culturas indígenas seja não somente um fragmento, e sim um marco de respeito, seminal para uma educação de qualidade em nosso país.

ALMEIDA, Eliene A. de. (Org.). Xucuru, filhos da mãe Natureza: uma história de resistência e luta. 2. ed. Olinda: CCLF/Pesqueira Prefeitura Municipal, 2002.

BERGAMASCHI, Maria Aparecida; GOMES, Luana Barth. A temática indígena na escola: ensaios de educação intercultural. Currículo sem Fronteiras, v. 12, n. 1, p. 53-69, jan./abr. 2012.

BRASIL. Lei nº 11.645/2008. Inclusão no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e cultura Afro-Brasileira e Indígena”, 2008.

GOMES, Ivone Maria dos Santos; SILVA, Maria da Penha da. Narrativas indígenas sobre os bairros Xucurus e Caixa-d’água, em Pesqueira/PE: sugestões para efetivação da Lei nº 11.645/2008. Revista Cadernos de Estudos e Pesquisa na Educação Básica, CApUFPE. Recife, v. 2, n. 1 , p. 140–161, 2016.

MONTEIRO, John Manuel. Armas e armadilhas. In: NOVAES, Adauto. (Org.). A outra margem do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 237–249.

SILVA, Edson Hely. Xukuru: memórias e História dos índios da Serra do Ororubá (Pesqueira/PE), 1950–1988. Campinas, Unicamp, 2008 (Tese de Doutorado em História).

SILVA, Edson. Dia do índio: entre a “tribo curunais” e a “tribo carochinha”: a continuidade da folclorização da temática indígena na escola. Revista Construir Notícias, v. 72, p. 35–41, 2013.

SILVA, Maria da Penha da. Vozes indígenas Xukuru do Ororubá sobre a aplicação da Lei nº 11.645/2008 nas escolas municipais em Pesqueira/PE. Revista Ensino Interdisciplinar, v. 3, nº 08, p. 289–308, 2017.

SOAVE, Fernando Meloto. Índios e cidade: quando a igualdade descaracteriza. Boletim Científico Esmpu, Brasília, a. 16, n. 49, p. 49–78, jan./jun. 2017.

cubos