Edição 119

A fala do mestre...

Isso aí é o Isso aí é o professor?

Lécio Cordeiro

Todo praluno3_AdobeStock_377911924_pathdoc_[Convertido]-02-02-02ofessor em início de carreira é testado, em algum momento, pelos alunos. O motivo é óbvio: a docência sempre foi vista como lugar de sabedoria, e a figura do sábio nunca foi associada à juventude. Passei por isso várias vezes, mas a primeira foi particularmente impactante. Ainda aluno da graduação, me meti a vender aulas de Língua Portuguesa em um curso preparatório para vestibular. Não tinha formação suflivros_AdobeStock_377911924_pathdoc_[Convertido]-02iciente nem noções sólidas de educação, por isso vendia. Na ocasião, entrei na sala de aula e me dirigi ao quadro. Era minha primeira aula no curso. Uma das alunas me olhou da cabeça aos pés e, antes que eu me apresentasse, disparou com desprezo: “Isso aí é o professor?”. Evidentemente, a aula foi terrível: a fria recepção acabou por soterrar o pouco de segurança que um aprendiz-professor com 19 anos consegue reunir. Quase 20 anos depois, percebo que, afora o desejo profundo de ter sucesso em uma profissão inóspita, tudo me faltava, principalmente empatia, porque buscava parecer mais velho, sisudo, autoritário, como os professores que me marcaram. Encenava um papel que não era meu.

Entre todos os personagens que integram uma escola, o professor tem o papel principal. Não é um papel simples: cabe a nós nos apresentarmos várias vezes durante a semana diante de um público heterogêneo, exigente e difícil de cativar. E o que temos para lhes dizer, em boa medida, é completamente desinteressante, o que torna a atuação ainda mais dramática. Consiste, basicamente, em comunicar o que precisamos ao longo dos poucos minutos de atenção que conseguimos conquistar. Continuamos dando aulas de 45 a 50 minutos, mesmo sabendo que, desde o século passado, a concentração de uma criança não dura mais que 5 minutos. Nestes dias de entretenimento tão passivo, de olhar fixo em telas que proporcionam divertimento instantâneo e irrefletido, é imperativo cativar os alunos, sobretudo por meio da empatia. Os psicopedagogos falam de Rapport.

A base do Rapport é a empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro. Cada turma tem sua peculiaridade; e cada aluno, sua individualidade. Dificilmente tem interesse legítimo pelo tema de nossas aulas. Como educador, acredito que esse reconhecimento é um ponto de partida, afinal mostra que estamos em busca do diálogo. Diante dessa certeza, é preciso encontrar caminhos para cativar nossos alunos para o que precisamos ensinar. A pergunta é: como cativar sem perder de vista todas as exigências pedagógicas que precisamos atender? Para responder a essa pergunta, precisamos ter bastante claro quem é o aluno de hoje. Diariamente, nas nossas salas de aula, lidamos com crianças e jovens cada vez mais complexos. Ao longo dos anos, vimos surgir um tipo de aluno bastante diferente daquele que nós fomos. A sociedade mudou e continua a mudar de forma veloz e ininterrupta, sobretudo no campo tecnológico. O Planeta ficou pequeno, as fronteiras são imaginárias. Qual é o impacto dessas mudanças na educação? O que me parece mais óbvio é que elas não podem ficar fora da sala de aula. Precisam ser tema das nossas aulas. Quanto mais estiverem presentes, mais os alunos se interessarão. Mas não se iluda: captlapis_AdobeStock_377911924_pathdoc_[Convertido]-02ar a atenção de todos durante toda a aula é impossível. Esta geração ouve música assistindo a um filme e conversando por mensagens no telefone. Acostumaram-se a não esperar, nasceram na Internet de ultravelocidade e na alimentação fast.

Meus amigos, todo professor sabe que uma boa aula é permeada por pontos altos e baixos. Mas vale tudo para cativar? Não exatamente. Eu diria que vale tudo que atenda ao currículo. Isto é, tudo que obedeça às normas, tenha diretrizes claras sobre ensino-aprendizagem e siga a personalidade da escola. Mas não só isso: é preciso ir além dos conceitos. Uma boa aula deve utilizar os melhores recursos de que se dispõe. Não adianta eu ensinar aos meus alunos todas as características formais de um texto de suspense. Eu posso passar a aula inteira falando sobre cenário, personagens, espaço, tempo narrativo. Mas preciso também lhes mostrar como se faz o suspense. Num filme, quando começa a tempestade, a menina está em casa, sozinha. É muito tarde, a escuridão toma toda a casa, onde sua família vive há cinco gerações. De repente, ouvem-se passos no corredor, a energia acaba. No filme, onde sempre fica o disjuntor? No porão… O aluno precisa vivenciar o suspense para verificar que ele está presente nas mais variadas formas de expressão. Do texto de Bram Stocker à propaganda de hambúrguer.

Além da empatia, Rapport implica, também, dialogismo entre alunos e professores. Colhe melhores frutos o ator que consegue se comunicar com seu público. Por esse motivo, a aula não pode ser um monólogo. É preciso interação, e, nestes tempos de distanciamento social, o diálogo tem extrema importância. E é precisamente nesse ponto que nosso trabalho se difere da atuação dos atores. Como nos expomos a plateias difíceis por longas horas e repetidamente, só não seremos criaturas tensas e estressadas se pudermos nos mostrar como verdadeiramente somos. Atores trocam de palco, papel, figurino. Professores não. O segredo, então, é cativar os alunos pela espontaneidade.

A grande questão é que, ao ouvi-los e lhes dar voz, muitas vezes nos deparamos com situações complexas que demandam atenção e, não raro, a imposição de limites. A pergunta é: como impor limites sem perder a confiança deles? De outro modo: como intervir sem autoritarismo? A resposta está em construção permanente e não é a mesma para cada aluno ou situação. Obviedade: é preciso conciliar firmeza e tolerância. A capacidade de perceber quando é necessário tolerar e quando é preciso trazer os alunos de volta para a aula é uma virtude que cada professor desenvolve continuamente e com muita perspicácia e intuição ao longo dos anos. Se eu soubesse disso 20 anos atrás, teria ficado tranquilo e seguido com a aula.

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