Edição 120

A fala do mestre...

Ivo viu a uva

Lécio Cordeiro

Os heróis de Cazuza morreram de overdose. Os meus não. Uns morreram de morte matada, outros de morte morrida, como diria Ariano, que foi um desses. Paulo Freire também. Morreu de velhice, aos 94 anos, 70 deles dedicados à educação. Minha admiração é tão especial que me orgulho de dizer que conheço pessoas que o conheceram. Minha avó paterna trabalhou com ele no Sesi, no início de tudo, antes da fabulosa experiência de Angicos. A professora Zeneide, editora desta Revista, o conheceu em um elevador, quando participaram de um congresso educacional em Olinda, em 1986. Zeneide conta que ele já estava usando cadeira de rodas, mas mantinha o brilho que só as grandes mentes têm. Como aprendiz de educador, estou, há anos, à procura de, pelo menos, uma centelha desse brilho. Uma das minhas questões vem justamente do seu método. Indo além da alfabetização e focando nos letramentos, que são contínuos, me questiono sobre as palavras geradoras que preciso garimpar para trabalhar com meus alunos hoje.

Na edição passada, falamos do poder da empatia que envolve os verdadeiros educadores. Pois bem, é impossível falar de Paulo Freire sem falar da sua empatia. Ela foi, sem dúvida, o ponto fundamental para o sucesso do experimento de Angicos, em janeiro de 1963: alfabetizar trezentos adultos em apenas 40 horas. Do ponto de vista prático, o segredo do sucesso foi o olhar diferente que ele lançou sobre o processo de alfabetização, que tradicionalmente recorre a frases de estrutura simples, como Ivo viu a uva e A roda gira. Mas foi sua sensibilidade empática que o levou a dispensar essas frases e se concentrar no cotidiano dos alunos, em sua maioria adultos e trabalhadores braçais, e buscar, na realidade deles, as palavras capazes de despertar sua compreensão do mundo e seu senso crítico. É bem verdade que parte do método tinha marcas conservadoras, que algumas concepções avançaram de lá para cá, como no campo da linguística e da pedagogia, mas foi fundamental para a educação brasileira, tornando Paulo Freire um dos mais respeitados educadores do mundo.

Em 1963, Paulo Freire utilizou o que tinha à disposição para solucionar problemas concretos que o incomodavam. Mas propor um programa de alfabetização de adultos em 40 horas era um problema político, um incômodo para setores da sociedade que naturalizavam a desigualdade. Sendo bem-sucedido, o método incluiria, rapidamente, um conjunto amplo de pessoas lendo e escrevendo em uma sociedade na qual o analfabeto não podia votar. Nesse sentido, não é viável entender a adesão ou objeção ao seu pensamento sem observar esse contexto. Precisamos considerar que só tivemos a possibilidade de o adulto analfabeto votar a partir da Constituição de 1988, isto é, 100 anos depois da Lei Áurea. E a primeira eleição em que o adulto analfabeto pôde efetivamente participar, isto é, poder escolher e ser escolhido, ocorreu em 1989, 100 anos após a Proclamação da República. Meus amigos, uma das formas mais importantes de inclusão é o direito ao voto. Por isso, logo após a Abolição, uma das prioridades foi manter os analfabetos alheios ao processo eleitoral. Evidentemente, essa continuidade visava à grande massa de libertos, que passou a desfrutar uma cidadania de papel. Por que é importante saber isso? Ora, quando Paulo Freire foi para Angicos e pôs em prática o seu método, estava mexendo em um vespeiro. A grande ofensa política da sua metodologia foi justamente esta: possibilitar a uma legião de excluídos o direito de participar do sistema político.estudante_sala_aula_prova_estudo_AdobeStock_264921038_arrowsmith2

Como se vê, Paulo Freire era parte indissociável da chamada pedagogia crítica. Então, o objetivo não era apenas alfabetizar: a intenção era formar cidadãos críticos em relação à sociedade, afinal o método ligava a alfabetização a uma discussão sobre a vida das pessoas, seus temas, seus problemas. Nesse ponto, percebemos um aspecto da complexidade do seu pensamento: ele não separava o campo da política do campo da educação. Por outro lado, a política não era sinônimo de partido, mas de ação social. É importante enfatizar: ele nunca foi comunista, nunca pregou uma educação partidária nas escolas. Um ponto inegável: a educação, para ele, tinha lado — o dos oprimidos.

Neste cenário de polarização ideológica em que vivemos, o nome de Paulo Freire está no centro de muitos debates em torno da educação e do seu método, o que certamente o deixaria muito feliz, afinal o direito de discordar é fundamental para um democrata. Se vivo fosse, ele teria plena convicção de que seu método pode e deve ser revisto. Pode e deve ser ampliado para envolver a realidade de hoje. Peguemos o que havia de melhor. Se seu pensamento se voltou para os problemas dos oprimidos, voltemos nossos olhos para os problemas que afligem nossos alunos hoje, para o que os oprime. Esse manancial reflexivo é belo justamente porque é caudaloso: podemos falar sobre a ditadura dos likes, a tirania do mérito, o linchamento virtual, o cancelamento nas redes sociais, os haters, a violência que nos acomete, a falta de perspectiva, a depressão, a fome. Precisamos falar de intolerância, homofobia, transfobia, misoginia, racismo, drogas. Tudo isso oprime, em maior ou menor grau, todos os nossos alunos, por isso são imperativos, inclusive estabelecidos pela BNCC, queiram os pais ou não.

Na intimidade da sua sala de aula, todo professor sabe onde pode encaixar esses temas com facilidade ao longo do planejamento. É bem verdade que alguns componentes curriculares oferecem terreno mais fértil para essa abordagem, como a Língua Portuguesa, em que tudo o que é lícito é possível, sobretudo nas atividades de leitura e produção textual. Já a Matemática normalmente é latifúndio dedicado à monocultura dos números, pelo menos em boa medida, por isso é solo mais pedregoso. No entanto, com um pouco de criatividade e boa vontade, é possível frutificar. Quanto mais conexões com a realidade, melhor.

Paulo Freire tinha plena convicção de que, unidos em torno de um projeto sólido, os professores se fortalecem e fortalecem seus alunos. Assim, o mais importante é ter o amparo da gestão escolar e dos documentos oficias, pois os pais vão questionar. No dia em que os professores levarem para a sala de aula textos “polêmicos” e começarem a tocar em feridas, enfrentarão resistências, afinal muitos pais têm a utópica impressão de que o papel da escola não é educar, mas ensinar. Acreditam que a atividade escolar deve ser isenta de qualquer posicionamento crítico. Estão perdidos em uma realidade paralela, sem sentido, exatamente como o menino Ivo, que não faz mais nada além de ver a uva, e a roda, que apenas gira.

Lécio Cordeiro é formado em Letras pela UFPE. É editor e autor de livros didáticos de Língua Portuguesa para os anos finais do Ensino Fundamental.
E-mail: leciocordeiro@editoraconstruir.com.br

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