Edição 121

Professor Construir

Meritocracia na escola ” o poder do mérito” na formação do sujeito

Rosangela Nieto de Albuquerque

Certamente, o mundo dos adultos é competitivo, e, a todo momento, as pessoas são avaliadas e comparadas acerca de suas aptidões e seu desempenho. Mas será que a escola precisa desenvolver a competitividade para formar sujeitos na realidade contemporânea? Será que a meritocracia na escola ajuda a formar adultos mais preparados para as demandas futuras, para o mercado de trabalho? Medir estudantes e estimular a competitividade reforçam as desigualdades sociais, tendo em vista que já favorecem os mais privilegiados. Então, o que é exatamente meritocracia?

Medir estudantes e estimular a competitividade reforçam as desigualdades sociais.

Para Dennys Xavier, professor de Filosofia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e coordenador acadêmico do Instituto Mises Brasil, a “Meritocracia é a celebração do esforço, do empenho focado na superação de si e do outro, o desejo de romper limites, de ser melhor. Hoje, criminalizamos os que se destacam e estimulamos a mediocridade. Somos seres competitivos, aventureiros, conquistadores. Dizer que não devemos ser assim contraria a nossa natureza”. Nesse contexto, será que a fala do autor perpassa uma ideia do darwinismo social?

Num contraponto, para alguns educadores a meritocracia é uma lição que se aprende na escola, num sistema de aprendizagem e de avaliação de competências único, obsoleto e frustrante.

O termo meritocracia precisa ser analisado em outra dimensão, ele aborda em sua gênese o contexto político-educacional. Aquilo que é definido como digno de mérito é sempre um marco sobre um posicionamento de valores sociais que são vistos como bons e que se quer estimular. A nomenclatura meritocracia tem, em sua etimologia, segundo o Oxford Advanced Learner’s Dictionary (2005), a seguinte definição: “País ou sistema social onde as pessoas obtêm poder ou dinheiro com base em sua capacidade”. Observa-se, portanto, que o sentido funcional remete ao “poder do mérito”. Certamente, há várias concepções acerca do mérito em relação à possibilidade de ascensão dos indivíduos menos favorecidos ao êxito que remetem à valorização intelectual, transcendendo os limites da classe social. Os movimentos da meritocracia marcaram presença no surgimento da Revolução Francesa (1789–1799), tendo em vista que, desse movimento (burguesia x nobreza), permeado pelo sentimento de libertação contra os privilégios de nascença da nobreza da época, surgiu a tríade: “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” (HOBSBAWM, 1995).

Meritocracia é a celebração do esforço, do empenho focado na superação de si e do outro, o desejo de romper limites, de ser melhor. Hoje, criminalizamos os que se destacam e estimulamos a mediocridade. Somos seres competitivos, aventureiros, conquistadores. Dizer que não devemos ser assim contraria a nossa natureza.

 

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Com o passar do tempo, o processo classificatório despertou a percepção de que os indivíduos de classes menos favorecidas não se configuravam nas funções de grande prestígio ou nos postos de poder. Assim, o sentido do mérito foi sendo apreciado por outras dimensões, e, com isso, a sua cumplicidade com o princípio da igualdade foi se distanciando.

Young (1958), considerado o mentor do termo meritocracia, enfatiza uma sociedade fictícia, na qual a meritocracia promoveria a mobilidade, a justiça e a eficiência social. Entretanto, os efeitos negativos são que o processo meritocrático seleciona, divide e é um instrumento de segregação social, isto é, diferentes tipos de trabalho, com diferentes níveis de recompensa, também em relação a status. Para ele, a implantação da meritocracia pode promover uma inclusão distorcida, sem incluir realmente os indivíduos socialmente fragilizados.

Ainda segundo o autor, meritocracia é uma filosofia política em que a influência política é atribuída em grande parte ao talento intelectual e às realizações do indivíduo. Michael Young cunhou o termo, formado pela combinação da raiz latina mereo e do sufixo grego antigo krátos, e, em seu ensaio, buscou descrever criticamente o mecanismo da sociedade da época, o sistema seletivo de educação articulado ao sistema de meritocracia, que se baseava no ideário da Revolução Francesa e da filosofia em geral.

A política baseada na valorização pelo mérito tem um emaranhado num contexto ideológico entre os defensores (que se identificam aos propósitos de qualificação e excelência através de processos seletivos) e os que contestam esse mecanismo (que afirmam que, quando se seleciona alguém, muitos outros estariam sendo rejeitados — “inclusão sem exclusão”).
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Prêmios para os melhores

Há estudiosos da área educacional que veem vantagens na estratégia da meritocracia, pois pode incentivar os alunos a melhorarem seu desempenho e estimular a atitude de superação; assim, contribui para formar o sujeito para o mundo do trabalho, que se diz meritocrático — até o ponto de não colidir com os interesses dos nichos de poder.

Alguns colégios promovem a prática da meritocracia através de cerimônias de premiação, quadros de honra expostos nas paredes das escolas, com o objetivo de “valorizar” os mais bem-sucedidos, sem estigmatizar os demais que “não conseguem”.

Em geral, os educadores que acreditam nesta estratégia não valorizam o talento, e sim o esforço continuado, ou, pior, nem isso. Certamente, valorizar os melhores pode apresentar algumas desvantagens, isto é, pode-se ter uma ação reversa se a escola ou a família não souberem trabalhar esse método de forma positiva.

Young (1958) [...] enfatiza uma sociedade fictícia, na qual a meritocracia promoveria a mobilidade, a justiça e a eficiência social.

Quando uma criança não é premiada, mesmo exercendo muito esforço — com a família cobrando demais e a escola menosprezando esse esforço —, pode ficar frustrada, desmotivada, desanimada para os estudos e até sentir falta de desejo de participar de competições. É um método que, sem apoio, sem ajuda para alcançar bons desempenhos, pode ter um resultado reverso. Escute a música O vencedor, de Los Hermanos.

Nas diversas escolas que trabalham com meritocracia, os educadores enfatizam que todas as áreas são premiadas [...] isto é, ampliar o conceito de meritocracia, premiar os que se destacam sem deixar de valorizar o desempenho como um todo.

Candeloro (2021, p. 43) enfatiza que a falta de meritocracia aumenta as diferenças de classe ao invés de reduzi-las. Ele observa também uma vitimização e um ressentimento acerca dessa proposta:

O combate teórico às desigualdades sociais resultou, em sua prática no ensino público, em sua perpetuação e aprofundamento. Não obstante, tais práticas gestaram coletivamente comportamentos como comodismo, vitimismo e ressentimento classista. Ao invés de estímulos voltados à superação de adversidades sociais-meritocráticas, o aluno é condicionado a reclamar direitos (progressão continuada, auxílios financeiros, cotas raciais, etc.) legitimados, segundo a lógica da argumentação, pela culpa coletiva frente à marginalização de sua minoria ou classe.

Distribuição de bolsas – a meritocracia é um mito que alimenta as desigualdades

A meritocracia também pode servir como ferramenta para a inserção social. O programa de bolsas estimula as crianças a terem um bom desempenho graças a dedicação, esforço e disciplina. Para garantir o acesso de alunos dedicados e de outras classes sociais, em geral as escolas particulares realizam uma prova que seleciona aqueles estudantes que terão direito a bolsas. Há escolas que adotam esse sistema para garantir o desenvolvimento do aluno, que, para continuar recebendo a bolsa no ano seguinte, precisa manter boas notas.

Os educadores que utilizam esse sistema dizem que o objetivo não é competir com ninguém, mas dar oportunidade para o estudante se superar. É uma forma de valorizar os talentos em diferentes áreas e setores de atuação. Nas diversas escolas que trabalham com meritocracia, os educadores enfatizam que todas as áreas são premiadas — esportes, artes, quem mais retira livros na biblioteca —, enfim, premiar sem excluir — isto é, ampliar o conceito de meritocracia, premiar os que se destacam sem deixar de valorizar o desempenho como um todo.

Bônus para professores

As Secretarias Estaduais de Educação de alguns estados (São Paulo, Minas Gerais, Ceará e Pernambuco) e as Secretarias Municipais do Rio de Janeiro, de Foz do Iguaçu e de Sobral, que trabalham com o sistema meritocrático educacional-docente, enfatizam que a meritocracia é uma estratégia para manter os bons professores e não perder os talentos, tendo em vista as condições de trabalho na docência a estrutura das escolas, etc. Na última década, essas secretarias desenvolveram sistemas de bonificações, de acordo com o desempenho profissional. A estratégia é premiar todos os profissionais de uma escola quando ela alcança metas preestabelecidas. No Brasil, mais de 30 mil escolas públicas já adotaram algum sistema de premiação.

As pesquisas mostraram que os resultados em São Paulo foram positivos, pois as notas do Saeb em Matemática e Língua Portuguesa nos anos seguintes apresentaram melhoria significativa. No Rio de Janeiro, o impacto foi de pequena magnitude, mas, em Pernambuco, houve uma melhoria excepcional no desempenho (logo nos primeiros dois anos de implementação).

Os que inauguram o terror não são os débeis, que a ele são submetidos, mas os violentos, que, com seu poder, criam a situação concreta em que se geram os “demitidos da vida”, os esfarrapados do mundo (FREIRE, 1978).


Os vencedores não desenvolvem, muitas vezes, valores como humildade e altruísmo?

A criança, então, cresce ouvindo que se não estudar terá um subemprego pelo resto da vida. Que precisa estudar e ser o melhor, ser vencedor. E esse discurso perpassa gerações, pais o reproduzem aos filhos e, assim, sucessivamente. O que está por trás desse contexto é algo característico da sociedade brasileira: a naturalização do preconceito de classe e a hipocrisia da meritocracia difundida e defendida nas famílias e escolas.

O preconceito de classe está evidente nas atividades escolares, cuja intenção é resgatar e reforçar aquele velho dogma que fora difundido por seus pais na sua infância e, certamente, perpetuado pela escola ao longo dos anos para tentar legitimar o evento, demonstrando a naturalização do preconceito e refletindo uma estrutura de ensino autoritária e conservadora.

Certamente, nesse contexto de competitividade, na busca pela construção de um curriculum vitae exemplar para seus filhos, as famílias “investem” na estratégia da meritocracia objetivando profissões da elite. Então, muitas vezes, a criança, desde muito cedo, fica assoberbada de atividades (curso de línguas, de teatro, educação financeira, esportes) na perspectiva de um futuro “melhor”. É importante refletir se, para se “construir” um vencedor, não se abre mão de valores como humildade e altruísmo.

É inegável a satisfação de um trabalho bem-feito e com reconhecimento. Quando os professores alimentam a autoestima dos estudantes e enfatizam: “Avancem, lutem, quebrem limites, estamos orgulhosos, vocês são capazes”, promovendo, assim, satisfação e demonstrando o orgulho de suas conquistas, sejam elas pequenas ou grandes, estão usando ferramentas que alavancam o desempenho do estudante. Mas é fundamental que se oportunize a construção de vencedores, competitivos, com humanidade, respeito e altruísmo. Meritocracia voltada para marcadores que simbolizam valores como fraternidade, honestidade…, e não apenas marcadores técnicos e científicos, índices muitas vezes estabelecidos pelo mercado.

Considerações finais

Nas perspectivas sociológica e antropológica, observa-se que é necessária uma análise mais aprofundada em diversos campos epistemológicos a respeito da meritocracia, pois tratar com o “poder do mérito” e a construção do sujeito é algo que requer uma visão do Homem e sujeito social.

A priori, os educadores precisam refletir acerca de que sujeito se quer formar. A meritocracia é realmente uma metodologia que irá incentivar a criança à competitividade (numa sociedade competitiva), à seleção dos “melhores” (para o mercado de trabalho), ou aumentará a desigualdade e a distância entre as classes sociais? É melhor uma sociedade formada por gestores geniais, porém doentes, infelizes e adoecedores, ou por profissionais mais equilibrados, harmonizados e ecológicos?

A vida se manifesta de forma diferente para cada ser, nas questões de saúde, família, ambiente social, etc., mas o Estado deve ter por princípio, dever e ação efetiva gerar oportunidades de forma equânime, assim talvez a meritocracia tenha êxito.

As estatísticas acerca da implantação da meritocracia na educação apresentaram alguns resultados positivos no quesito números (resultados/avaliação Saeb), mas, no aspecto da construção do sujeito altruísta, humano e social, ainda não conseguimos identificar se esses sujeitos que estão ou estarão na liderança são ou serão sensíveis no sentido do altruísmo, da humildade e da cidadania.

Diferentemente do Brasil, em algumas sociedades capitalistas ocidentais, como as sociais-democracias escandinavas, bem como no Nepal e no Tibete, o índice de felicidade da população está no topo, que tem como marcadores de valorização meritória: altruísmo, segurança, honestidade, compaixão…. Certamente, esses fatores impactam diretamente na economia, no mercado, promovendo aumento de produtividade, melhores índices de IDHs, aumento do PIB e melhor qualidade de vida.

 

 

CANDELORO, Marcos Paulo. Crítica à meritocracia na educação: vitimismo e comodismo. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/critica-a-meritocracia-na-educacao-vitimismo-e-comodismo-91l6514fv0o0cllf6zyjqr9gn/. Acessado em: 14/07/21.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 6. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1978.

GAZETA DO POVO. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/meritocracia-educacao-esforco-resistencia-vantagens/. Acessado em: 14/07/2021.

HOBSBAWM. Eric J. O presente como história: escrever a história de seu próprio tempo. Novos Estudos Cebrap, nº 43, novembro de 1995.

REVISTA VOCÊ ABRIL. Disponível em: https://vocesa.abril.com.br/geral/entenda-como-a-meritocracia-pode-prejudicar-sua-carreira/. Acessado em: 14/07/2021.

YOUNG, Michel. A ascensão da meritocracia. Reino Unido: Thames and Hudson, 1958.

Rosangela Nieto de Albuquerque é Ph.D. em Educação (Universidad Tres de Febrero), pós-doutoranda em Psicologia, Doutora em Psicologia Social, Mestre em Ciências da Linguagem, psicanalista clínica, professora universitária de cursos de graduação e pós-graduação, psicopedagoga clínica e institucional, pedagoga, licenciada em Letras (Português/Espanhol), autora de projetos em Educação e da implantação de uma clínica-escola de Psicopedagogia Clínica como projeto social e autora e organizadora de treze livros nas áreas da Educação e da Psicologia.

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