Edição 116

Professor Construir

O grito em silêncio na escola: a importância da escutatória

Rosangela Nieto de Albuquerque

O silêncio tem voz e se faz ecoar através do grito de socorro não dito. A educação precisa dar sentido à palavra do sujeito no dito e no não dito, no silêncio. Grito e silêncio são dois ecos que representam as alegrias e as dores; na escola eles se apresentam de várias formas. As brincadeiras na escola muitas vezes ecoam as alegrias, a amizade, o coleguismo, o respeito, as aprendizagens, a construção do conhecimento com o outro, as possibilidades de vivências. O bullying, por exemplo, ecoa a dor, que, muitas vezes, vem representada pelo silêncio, pelo medo, pelas ameaças e pelo adoecimento psíquico. menina_medo_roendo_unhas_shutterstock_1608013924_Krakenimages

O silêncio na escola pode representar — num grito — que o sujeito sofre alguma violência. Costa (1986, p. 96) afirma que: “[...] podemos entender como violência aquela situação em que o sujeito é submetido a uma coerção e a um desprazer absolutamente desnecessários ao crescimento, ao desenvolvimento e à manutenção de seu bem-estar enquanto ser psíquico”.

É importante enfatizar que atualmente vivenciamos vários tipos de violência, e que, em nossa cultura, o que chamamos de ato violento é quando o corpo já sucumbiu. Mas não se pode deixar de significar a violência subjetiva, a simbólica, aquelas que são invisíveis a olho nu. A violência sutil entre aluno-aluno, professor-aluno, comunidade-sujeito, aquela pautada no preconceito, na indiferença, no racismo, na ameaça, no silêncio que abafa o grito de socorro…

A violência na escola, muito preocupante entre os educadores, ora é exposta de forma gritante, clara, sem limites; ora é velada, simbólica, silenciosa. E, certamente, ela incomoda, traz dor e sofrimento ao sujeito e ao seu entorno. Nesse contexto, há um sujeito que precisa ser-existir sob pena de sucumbir, o que remete à relação de necessidade de luta e sofrimento. “É a vida mesmo que está em questão aqui, e não ainda o amor” (BERGERET, 1995, p. 222). O grito do silêncio precisa ser escutado…

Como diz Rubem Alves:

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela Revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, abrindo vazios de silêncio, expulsando todas as ideias estranhas.) Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial.

O grito do silêncio na escola nos faz refletir sobre o manejo da violência escolar, portanto é importante analisar a posição, o lugar e a função da escola na formação dos sujeitos. Sabe-se que o modelo disciplinar predispõe à violência; assim Foucault (1977, citado por Marin, 2006) enfatiza que a violência não precisa ser física — marcada no corpo —, ela é também psicológica, e o indivíduo, com medo da punição ou exclusão, autovigia-se permanentemente.

Levando-se em conta as violências subjetiva e social, é preciso aprofundar a reflexão sobre o que constitui a violência fundamental, que permeia a violência civilizatória e pulsional. É necessário escutar o sujeito humano… ver… sentir… observar os espaços de vivências…

Escutar o sujeito e identificar a violência em sua constitutividade humana sem dúvida transita em impedir a permissividade pelos atos de violência praticados. A escola precisa intensificar o ato da escuta, como um ato de acolhimento e de impedimento da violência… A escola precisa fazer essa escolha de acolhimento das relações que permeiam o espaço (função) escolar para cumprir a sua missão.

É a vida mesmo que está em
questão aqui,
e não ainda
o amor.

(BERGERET, 1995, p. 222)

A escuta e o silêncio caminham lado a lado, entrecortam-se nos fazeres educacionais e se constituem como processo de desenvolvimento humano.

Escutar é um privilégio, e, para isso, é necessário não falar, colocar-se em silêncio para nutrir nossos pensamentos. Rubem Alves enfatiza que:

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer…

O silêncio grita… É preciso escutar os restos de violência deixados nos corredores, nas salas de aula, nos espaços escolares e também nos suspiros de alívio projetados quando se é ouvido, acolhido… Fernando Pessoa conhecia a experiência e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.

A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar — quem faz mergulho sabe —, a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar (Rubem Alves).

Observa-se que no mundo contemporâneo as pessoas estão cada vez mais impacientes, “sem tempo” de escutar alguém, sem possibilidade de escutar. É quase que uma incapacidade instalada. Hoje, as pessoas que escutam dispensam uma atenção dirigida, parecem ter uma competência extraordinária, significativa. E, no entanto, é algo tão simples, fundamentalmente humano.

Para ser humano, é preciso desenvolver em si a humanidade de escutar o ser humano que há dentro de nós, para então podermos praticar a humanidade com o outro.

É evidente que as transformações biopsicossociais nos conduzem a novos paradigmas comportamentais na contemporaneidade, como, por exemplo, o uso exagerado da tecnologia, que leva a um distanciamento entre as pessoas; assim, é comum ouvirmos queixas como “As pessoas não me escutam”, “Gostaria de conversar com alguém”, “Sinto-me sozinho”, portanto as pessoas precisam ser ouvidas, necessitam atenção e uma escuta cuidadosa. A escuta de verdade é quase um “milagre”.

Escutar é muito mais que permitir que as ondas sonoras transitem em nossos ouvidos, ela promove o existir, tem um poder preventivo e curativo. Para desenvolver a escutatória, segundo Rubem Alves, é necessário que se permita o silêncio para refletir sobre o que a pessoa falou, entender e se despir de julgamentos, colocar-se no lugar do outro, e, para isso, é preciso estar em silêncio da fala e no nosso interior.

Existem caminhos para desenvolver a arte da escutatória:

• Pratique a escutatória – para desenvolver a habilidade de acolher verdadeiramente o que os outros dizem.

• Ouça com empatia e sem julgar – o exercício de empatia permitirá ouvir verdadeiramente em vez de somente esperar sua vez de falar, permitirá escutar com acolhimento, sem julgar.

• Pense melhor antes de falar – filtrar o que vale a pena ser dito levará a agregar pessoas.

• Silencie a mente para ouvir – conectar-se e permitir a comunhão com a outra pessoa pode ser um momento único e pode ajudá-la.

• É sempre possível aprender com o outro – a inter-relação com o outro nos permite aprender muito, além de desenvolver a atenção, o cuidado e o afeto e experimentar emoções.

• Observe a linguagem não verbal – os gestos, as expressões, as emoções, o silêncio podem ser um grito de socorro.

Rubem Alves afirma que sigamos o conselho de Alberto Caeiro/Fernando Pessoa e façamos silêncio dentro da alma para ouvirmos onde a palavra não é necessária. Que nos permitamos muitas vezes nos refugiar no lugar onde a quietude da alma e o olhar intenso sejam mais que suficientes.

Escutar é o caminho do cuidado, cuidar de si e cuidar do outro, e, assim, nos tornarmos seres humanos melhores.

Considerações finais

A reflexão acerca da escutatória (Rubem Alves) nos faz pensar sobre a importância de desenvolvermos a habilidade de escutar em todos os espaços que vivemos. Praticar a escuta na/com a família é enfatizar o cuidado com outro, a atenção ao que o outro tem a dizer. Exercer a escutatória na escola é ouvir as alegrias e dores dos educandos, transitar pelo clamor de afeto, poder praticar a empatia, a solidariedade, é oportunizar a fala ao outro como possibilidade de existir, como um ato humano, promovendo a escuta atenta e cuidadosa.

Percebe-se que muitas vezes o sujeito apresenta uma urgência em falar e opinar sobre algo, talvez seja a necessidade de ser ouvido. Ora, observa-se o grito do silêncio suplicando a escuta atenta e cuidadosa. O grito do silêncio ecoa nas escolas quando a violência das diversas formas são legitimadas.

Sejamos mais escuta do que fala, precisamos desenvolver a escutatória para ouvir o humano que habita em cada um de nós para permitir a nossa humanidade.

Referências
BERGERET, J. La violence fondamentale. Paris: Dunod, 1995.
COSTA, J. F. Violência e psicanálise. Rio de Janeiro: Graal, 1986.
FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Rio de Janeiro: Vozes, 1977.
MARIN, R. O não violento. Estilos da Clínica. Revista sobre a
Infância com Problemas, 11(20), 38-57. 2006.
v. 3, n. 1, 2017

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