Edição 126

Professor Construir

O super-herói que há em cada professor!

A força do professor na construção do sujeito cidadão

Rosangela Nieto de Albuquerque

126-professor-construirA educação está sempre passando por transformações. A profissão da docência enfrenta um ritmo desafiador, um novo paradigma se estabelece em diversos sentidos. No que tange aos novos modelos de relações humanas e afetivas no espaço escolar, evidenciam-se novas configurações entre estudante-estudante, professor-estudante, acesso a novas linguagens e posturas e comportamentos que estão em processo de ressignificação.

No cenário atual, um momento muito significativo, as pessoas desenvolveram mais a preocupação com a vida e com o outro, “cuidado de si e do outro”. Certamente, é um avanço no que se refere a desenvolvimento humano. Vivenciamos também o aumento no uso das tecnologias, que é uma nova configuração utilizada na escola. É importante considerar, por exemplo, que as aulas remotas, apesar do distanciamento uns dos outros, foram e são um avanço.

É inegável, indiscutível, que o professor é um sujeito afetivo, ama o que faz; é criativo e geralmente tem um olhar diferenciado aos estudantes; é um escutador, um orientador; ensina com paixão, alegria, dinamismo. Ele é um super-herói humano, que também precisa de atenção e cuidado, precisa do carinho e afeto dos gestores e reconhecimento do sistema. Na “luta do bem contra o mal”, os super-heróis precisam estar fortes, bem cuidados e preparados para a luta…

Educação transita em vários espaços educativos, na família, na escola, nos
espaços sociais, mas a educação formal, vivenciada na escola, cujo símbolo maior é o professor, é um desafio… É o professor que é o gigante no ofício de formar, transformar, desenvolver e oportunizar uma nova vida ao sujeito.”

Os educadores têm um grande desafio neste momento de angústias e incertezas que o mundo vivencia: precisam conviver com as dificuldades, extrair dessas experiências aprendizagens significativas e construir novos olhares. Certamente, não é somente ensinar conteúdos ou saber usar as tecnologias digitais, mas desenvolver relações de encontro, com afeto, utilizando outras linguagens. Precisam se reinventar, construir novas formas de ensinagem para melhor aprendizagem, e, para isso, é necessário que sejam superprofessores, ou super-heróis.

Enfatizar que é através da educação e do professor que é possível avançar no desenvolvimento humano é tão óbvio… Pensar numa sociedade melhor, mais equânime, plural, com sujeitos com empatia, formar cidadãos éticos, transformar vidas é tão evidente que nos faz refletir que só é possível através desses heróis anônimos.

E o que é educar? Educar é formar o ser humano em todas as suas potencialidades, formar cidadãos para a singularidade da vida. Desde a existência da humanidade, pensa-se sobre educação, quais teorias, ideias, métodos seriam mais eficazes para um bom resultado educativo; isso não é peculiaridade do século XXI. Na família, pais e responsáveis relatam o quanto é complexo educar. Educação transita em vários espaços educativos, na família, na escola, nos espaços sociais, mas a educação formal, vivenciada na escola, cujo símbolo maior é o professor, é um desafio… É o professor que é o gigante no ofício de formar, transformar, desenvolver e oportunizar uma nova vida ao sujeito.

No complexo mundo moderno, a proposta de formar cidadãos envolve uma série de ações pedagógicas reais; por exemplo, uma abordagem de escola com aprendizagem significativa, envolvida com as emoções do aprendente e do ensinante, com os saberes da inteligência emocional, com um olhar voltado para os sentimentos, com possibilidade de promover a motivação e a criatividade, numa perspectiva humanística.

A missão de um professor é, sem dúvida, essencial para a transformação do mundo. É divina, sublime, pois ele se reinventa, busca se adaptar ao tempo histórico e social e não se distancia da sua missão de educar. Mostra claramente em suas atitudes, na sua práxis pedagógica, o desejo de chegar/alcançar/resgatar todos os aprendentes e torná-los sujeitos existentes, vivos, críticos, cidadãos e livres em sua criticidade.

A educação do País se inicia pela cidadania; portanto, sem cidadania, muitos não estariam em sala de aula, o País não teria desenvolvimento, não avançaria, e, sem avançar, não haveria democracia. É na escola que se forja o papel do indivíduo na sociedade, que se estabelece o lugar de existência do sujeito. É no processo educativo que se vai construindo, com o tempo, a cidadania.

Refletir sobre esse sujeito que se quer formar é transitar sobre o sentido da cidadania. Esta, na concepção de Bobbio (1986), perpassa por um conceito multidimensional e complexo que está articulado a uma realidade de ordens política e social, imbricado no pertencimento à vida coletiva. O autor enfatiza que há quatro concepções de cidadania: aquela que se apresenta como manifestação da identidade nacional; a cidadania como um conjunto de papéis sociais, relacionada à participação do sujeito na vida da cidade; a cidadania do estatuto jurídico, caracterizado pelos direitos (civis, políticos e sociais); e a cidadania como conjunto de qualidades éticas e morais.

126-professor-construir-1Benevides (1991) enfatiza que cidadania pode ser vista como “[…] a maneira que as pessoas têm de se conceber como cidadãos”.

O conceito de cidadania na Antiguidade grega e romana nos remete à ideia de uma participação direta dos cidadãos (considerados homens livres) nas decisões políticas. Em contrapartida, nesse período, nem as mulheres nem os escravizados podiam participar destas decisões, demonstrando claramente a ausência de igualdade de direitos e o caráter essencialmente político.

Muito se discute acerca de políticas públicas que não são efetivas, que não atendem aos mais necessitados e que não oportunizam uma educação de qualidade.“

Sim, formar cidadãos é um desafio. Os nossos heróis, ou, melhor, super-heróis, apesar de toda a força e coragem, enfrentam o descaso dos governantes pela educação: políticas públicas ineficientes ou inexistentes e muitas vezes ausência de mobilidade em proporcionar melhores condições de aprendizado aos estudantes nas escolas e também melhores condições de trabalho aos docentes. Muito se discute acerca de políticas públicas que não são efetivas, que não atendem aos mais necessitados e que não oportunizam uma educação de qualidade. Enfim, falar em “decadência” da educação se tornou tão evidente, corriqueiro e “permitido” que podemos dizer que se naturalizou na história da educação brasileira.

Naturalizaram-se o desrespeito, o descaso e a desatenção aos professores super-heróis, que lutam por uma educação de qualidade e pela formação do estudante. Apesar de tudo, nossos super-heróis ensinam com afeto, alegria, disposição, paciência, criatividade e profissionalismo.

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Professor e super-herói

Ao buscar definições de super-herói no dicionário Aurélio (on-line), destacou-se a seguinte: um super-herói é um personagem de ficção dotado de poderes sobre-humanos, criado geralmente para combater o mal, ajudar os desprotegidos e livrar a sociedade de indivíduos ou situações perigosas. Numa metáfora bem articulada, estamos tratando do profissional da educação. Ainda segundo o dicionário, o objetivo dos super-heróis é, geralmente, a defesa do bem, da paz, o combate ao crime, tomando para si a responsabilidade de ser protagonista na luta do bem contra o mal. No entanto, um super-herói também pode ser um personagem real ou fictício que inspira qualquer pessoa a agir melhor.

Sabemos que a família tem seu papel, mas é também na escola que se desenvolvem as relações de cidadania.”

126-professor-construir-3O professor super-herói é um personagem real, busca concretamente desenvolver crianças, jovens e adultos nos aspectos cognitivos, emocionais e sociais para formar sujeitos construtores da sua história. Ele orienta seus estudantes a alçarem voos altos e se tornarem cidadãos para uma vida plena e, como um super-herói, luta contra a desigualdade real e concreta que cada vez mais promove um hiato na sociedade.

No sentido econômico e social, a desigualdade concreta é tão gritante que desencadeia a fragilização da cidadania no que se refere à dimensão social. Dessa forma, o professor super-herói luta contra essa fragilização trazendo para sua práxis pedagógica o verdadeiro sentido de pertencimento ao espaço/lugar social em que o sujeito está inserido. É uma luta contínua, uma missão linda e com muita responsabilidade, uma profissão que constrói sujeitos cidadãos pela eternidade, portanto podemos chamar, sim, de professor super-herói.

• A metáfora professor super-herói carrega o sentido de gênero professor e professora.

Considerações finais

Sabemos que a família tem seu papel, mas é também na escola que se desenvolvem as relações de cidadania. Os nossos professores super-heróis deixam lindas marcas na vida dos estudantes, que, além dos saberes formais, aprendem a respeitar, a amar o próximo, a ter empatia, os direitos, os deveres, Responsabilidade Social e dignidade. Certamente, eles ensinam a cidadania. Um professor é um super-herói.


Rosangela Nieto de Albuquerque é Ph.D. em Educação (Universidad Tres de Febrero), pós-doutoranda em Psicologia, Doutora em Psicologia Social, Mestre em Ciências da Linguagem, psicanalista clínica, professora universitária de cursos de graduação e pós-graduação, psicopedagoga clínica e institucional, pedagoga, licenciada em Letras (Português/Espanhol), autora de projetos em Educação e da implantação de uma clínica-escola de Psicopedagogia Clínica como projeto social e autora e organizadora de treze livros nas áreas da Educação e da Psicologia.

Referências

AURÉLIO. Dicionário. Disponível em: https://www.dicio.com.br/aurelio/. Acesso em: 09/06/2022.

BENEVIDES, Maria Victória. A Cidadania Ativa. São Paulo: Ática, 1991.

BOBBIO, Norberto. O Futuro da Democracia: uma defesa das regras do jogo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

COMPARATO, Fábio. Para Viver a Democracia. São Paulo: Brasiliense, 1989.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 9. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

WEFFORT, Francisco. Qual Democracia? São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

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