Edição 120

Professor Construir

Paulo Freire: professora sim, tia não — cartas a quem ousa ensinar.

Rosangela Nieto de Albuquerque

Homenagear Paulo Freire é, sem dúvida, uma honra para um educador. Um ser humano marcante na vida dos educadores e das pessoas simples para as quais ele tanto contribuiu/transformou; certamente, sua vida e obra marcam uma valiosa contribuição para a educação.

Paulo Freire nasceu em 19 de setembro de 1921, no Recife, Pernambuco, e vivenciar o centenário de sua vida é, sem dúvida, uma oportunidade de transitar em reflexões acerca das possibilidades de mudanças no contexto da educação popular. Dentre suas maravilhosas obras, seu legado permeia as possibilidades das práticas pedagógicas, da educação popular para a alfabetização, da conscientização política de jovens e adultos operários para a educação libertadora e o olhar ao oprimido.professora_sorrindo_feliz_aula_AdobeStock_288458327_zinkevych

Certamente, a obra de Paulo Freire não se limita a esses campos, há um alcance mais amplo, que remete ao conceito básico de que não existe educação neutra. Segundo a visão de Freire, todo ato de educação é um ato político.

Desse modo, nas múltiplas publicações de Paulo Freire, há uma reflexão bem instigadora acerca do papel da professora da Educação Básica sobre a sua função e profissão. Em sua obra Cartas a quem ousa ensinar, Paulo Freire traz reflexões acerca do papel da professora e, especialmente, a professora/tia da Educação Básica nos anos iniciais.

Para Freire, professora e tia são dois papéis distintos. Professora é uma função profissional que requer formação acadêmica, uma profissão, enquanto tia tem um relacionamento de parentesco, que permeia outro tipo de função e comportamento com os sobrinhos, que envolve relação familiar.

professora_aula_abra_o_AdobeStock_169534063_LIGHTFIELD_STUDIOSNesse contexto, linearizar tia e professora é descaracterizar a profissão de ensinar pautada em um profissionalismo com direitos. Ser professora é algo mais amplo; além da responsabilidade de educar, ela se coloca na posição de buscar a liberdade e os direitos da profissão, não se deixando ser oprimida pelo autoritarismo político; ela se põe no lugar de ser ousada e assumir com amor o papel através da democracia.

Freire explica que quem ensina é também um aprendiz, que, certamente, a atividade docente é prazerosa, mas requer seriedade, preparo científico, preparo físico, emocional e afetivo. Portanto, é inegável que existe um envolvimento emocional, mas esse envolvimento transpassa — o que o autor critica — a forma comum e inocente de tratar a professora de tia, o que, na verdade, esconde a ideologia da passividade, pois resistir a uma política e uma realidade social do ensino não é para seres passíveis, amorosos e parentais como a maioria das tias.

Segundo Freire, ensinar é uma tarefa que envolve uma profissão, uma militância e uma especificidade no seu cumprimento; portanto, o rótulo de tia propõe assumir uma relação de parentesco e, a partir desse discurso, constitui-se em desvalorização da profissão, pois ser tia nunca poderia ser uma atividade laboral.

Na verdade, Freire não tem a intenção de desvalorizar a tia, mas valorizar a professora, trazendo à tona a importância da formação política do professorado. Subjacentemente o termo tia transita por uma ideologia de “parente que não briga”, “boa moça”, que não se rebela, não resiste, não faz greve.

Entendendo que as relações estabelecidas entre os educadores e educandos permeiam a questão do ensino, da aprendizagem, do processo do conhecer-ensinar-aprender, da leitura, da escrita, da autoridade, da liberdade, das virtudes da educadora, da identidade cultural dos educandos e do respeito, faz-se necessária uma relação coerente entre o que a educadora diz e o que ela faz; é o que chamamos de prática educativa. Como afirma Paulo Freire (1997, p. 76): “Se esta coisa que está sendo proclamada, mas, ao mesmo tempo, tão fortemente negada na prática, fosse realmente boa, ela não seria apenas dita, mas vivida”.

Historicamente, no contexto da prática pedagógica, a relação professor-aluno é algo que pode interferir no processo de aprendizagem. Nessa relação, há inúmeras dimensões cognitivas, afetivas, emocionais, biológicas e sociais, e, certamente, uma relação saudável, com afetividade, portanto, é um ponto de partida para que a aprendizagem ocorra com sucesso.

“Se esta coisa que está sendo proclamada, mas, ao mesmo tempo, tão fortemente negada na prática, fosse realmente boa, ela não seria apenas dita, mas vivida.”

 

Ao refletirmos sobre educação, é óbvio que a prática educativa precisa ser repensada, mas sabemos que os problemas ligados à educação não são apenas pedagógicos, são políticos, éticos e financeiros. A prática educativa é algo muito complexo, sério e, muitas vezes, excludente. Ensinar é uma tarefa profissional que exige competência científica, amorosidade, criatividade, postura ética e política. O que se precisa ter é uma compreensão crítica sobre o enunciado — professora sim, tia não. Não se trata de uma oposição à professora ser tia, não é também identificar ou reduzir a professora à condição de tia. É uma questão de que a tarefa de ensinar é uma profissão que envolve certa especificidade, certa militância no seu cumprimento, enquanto ser tia é viver uma relação de parentesco.

O processo de ensinar envolve a “paixão de conhecer” que nos insere numa busca prazerosa — ainda que nada fácil — pela ousadia de quem se quer fazer professora, educadora, é a disposição pela briga justa, lúcida, é recusar a identificação da figura da professora com a da tia — que não significa, de modo algum, diminuir ou menosprezar a figura da tia, significa, pelo contrário, retirar algo fundamental da professora: sua responsabilidade profissional, que permeia a sua formação permanente. Para Freire, a recusa — tia não — se deve, sobretudo, a duas razões principais: evitar uma compreensão distorcida da tarefa profissional da professora e eclodir a sombra ideológica que repousa na intimidade da falsa identificação. Esta reflexão acerca da “professora-tia” é sem dúvida a luta contra a tendência à desvalorização profissional representada pelo hábito, que se cristaliza a cada ano, de transformar a professora num parente postiço.

Há uma questão ideológica nesse contexto, não se compreende “tias” fazendo greve, “sacrificando seus sobrinhos”, “prejudicando-os no seu aprendizado”; portanto, é essa ideologia que transita pelo protesto necessário da professora, que insufla a manifestação de irresponsabilidade, de desamor aos alunos; é a sombra ideológica instaurada.

Para Freire, professora não é tia, mas, certamente, nas sombras ideológicas deliberadamente forjadas e programadas pelo poder de classe, instaura-se uma realidade indiscutivelmente servil aos interesses dominantes. Nesse contexto, observa-se que a ideologia do poder não apenas esconde os seus objetivos reais, mas instaura uma miopia que impede de enxergar a realidade. Existem professoras que não querem deixar de ser tia, pois assumir o papel de professora lhes causa medo, sim, medo da liberdade de pensar e lutar pelo seu profissionalismo. É a ação do poder domesticante e deformador. Nos entrelaces dos papéis professora-tia, há de se preocupar com a prática educativa que se estabelece permeada da teoria. Na vivência da prática se forja a própria natureza da prática, isto é, ela se constitui com naturalidade através dos objetivos, da programação e das relações educativas, na relação professor-aluno, na vivência, na construção da aprendizagem, portanto na vida escolar

“O processo de ensinar envolve a “paixão de conhecer” que nos insere numa busca prazerosa — ainda que nada fácil.”

 

Quando falamos em relações escolares, do fazer e viver pedagógico, é importante refletirmos sobre a relação professor-aluno e a relação professora-tia. Numa perspectiva psicanalítica, essas relações oportunizam a possibilidade de um movimento de transferência. Assim, indagamos: o que é transferência? Como funciona? Transferência é o que chamamos de possibilidade do fenômeno transferencial — definido por Freud na construção da psicanálise —, que pode ser facilitador ou inibidor de resultados favoráveis no contexto pedagógico.

maos_flor_crian_a_mulher_gratidao_AdobeStock_113969777_hakase420

A transferência ocorre em qualquer relação, porém nem sempre essa transferência tem um retorno positivo ou favorável na relação professor-aluno. O professor — detentor de conhecimento didático, ou do desenvolvimento humano — não é suficiente para que o desejo do saber seja despertado no aluno. É importante que os envolvidos no processo de ensino-aprendizagem levem em consideração o sujeito inconsciente que habita em cada aluno.

 À medida que o professor estabelece com o aluno uma relação de afeto, a inibição dá lugar ao desejo de saber, de buscar conhecimento; assim, o lugar que o estudante confere ao professor é o do conhecimento; e o seu, o de desejante.

A relação de transferência é facilitadora na aprendizagem quando o professor consegue tomar o conteúdo transferencial e traduzi-lo para o aluno. A relação de transferência é impeditiva na aprendizagem, portanto inibidora, quando não se estabelece uma relação de confiança ou se tem uma relação sem afetividade.

Nunes (2004) enfatiza que o lugar de suposto saber é conferido ao professor pelo aluno e que o aluno só se constitui como um sujeito desejante do saber se o professor se colocar como um sujeito faltante — isto é, humilde o bastante para se colocar no papel de aprendente também.

Acredita-se que a relação transferencial acontece quando no outro tem o que lhe falta e pode ocorrer na relação pai-filho, analista-analisando, mestre-discípulo, professor-aluno, tia-professora-aluno. A autora acrescenta ainda que o fenômeno transferencial pode ser ignorado, mas ele acontece independentemente disso.

A proposta não é transformar a prática pedagógica numa escuta psicanalítica; no entanto, se há um investimento afetivo, se o professor estiver atento ao discurso inconsciente que habita no aluno, poderá conduzir com êxito o processo de ensino-aprendizagem.

A questão da transferência também nos remete ao papel da professora como tia, que, certamente, promove um lugar de parente, e não de profissional educativo.

Transferência é o que chamamos de possibilidade do fenômeno transferencial — definido por Freud na construção da psicanálise —, que pode ser facilitador ou inibidor de resultados favoráveis no contexto pedagógico.”

Considerações finais

Refletir sobre o entrelace de papéis professora-tia no contexto educativo é instigante, pois promove uma atenção especial ao lugar em que desejamos estar enquanto docente. A obra de Paulo Freire Professora sim, tia não – cartas a quem ousa ensinar nos chama à discussão do que queremos na formação discente, que sujeitos sociais desejamos para o futuro. Sem dúvida, a prática pedagógica é desafiadora.

Professora sim — com todo o carinho — é aquela que tem a convicção da sua escolha; reconhece a dignidade e a importância de sua tarefa, certamente indispensável à vida social; tem amorosidade, não somente com os alunos, mas com o processo de ensinar; tem tolerância, empatia, competência científica, capacidade técnico-didática, capacidade de decisão, coragem para educar com medos, mas também com alegria, clareza política e integridade ética.

Tia não — com todo o carinho —, a tia é uma pessoa querida que faz parte da família, um parente que tem sua função no contexto familiar.

Os recursos oferecidos pela psicanálise podem viabilizar o processo de ensino-aprendizagem, porém é relevante que, ao assumir o contexto pedagógico no ofício de aprender e ensinar, o professor precisa ser mais que um mero transmissor de conhecimento.

Nas reflexões “entrelaces” entre Freud e Freire — acerca do processo de educar, o fenômeno transferencial pode viabilizar a aprendizagem quando ocorre de forma adequada; do contrário, se o professor não consegue traduzir o conteúdo transferencial e devolvê-lo ao aluno, um conflito muito maior pode se instalar subjetivamente, comprometendo a vida escolar da criança e outras esferas da sua vida.

A transferência, assim como na psicanálise (na relação paciente-terapeuta), quando bem manejada pode viabilizar o ensino-aprendizagem por meio da relação de empatia e confiança que se estabelece com os seus atores (professor e aluno); todavia, é o professor que precisa estar apto para executar esse manejo, inferindo seu real papel de professor/profissional.

Rosangela Nieto de Albuquerque é Ph.D. em Educação (Universidad Tres de Febrero), pós-doutoranda em Psicologia, Doutora em Psicologia Social, Mestre em Ciências da Linguagem, psicanalista clínica, professora universitária de cursos de graduação e pós-graduação, psicopedagoga clínica e institucional, pedagoga, licenciada em Letras (Português/Espanhol), autora de projetos em Educação e da implantação de uma clínica-escola de Psicopedagogia Clínica como projeto social e autora e organizadora de treze livros nas áreas da Educação e da Psicologia.

Referências
BARRETO, Vitor Hugo Lima. Freud e Freire: uma interlocução possível. Estud. psicanal., Belo Horizonte, n. 43, p. 161–167, jul. 2015. Disponível em: . Acesso em: 24/07/2018.

Trendsetter Images / stock.adobe.com

cubos