Edição 150
A fala do mestre
Paulo Freire: uma história de vida em defesa da vida
Targelia de Souza Albuquerque
Era uma sexta-feira, dia 2 de novembro de 1990. Eu estava participando de um evento organizado pela Escola Recanto Infantil, no Seminário de Olinda, quando, na volta do intervalo do almoço, encontrei Paulo Freire, acompanhado de sua esposa, Ana Maria, no elevador. Ele estava em uma cadeira de rodas, com o corpo demonstrando uma fragilidade comovente, que contrastava com a grandeza da sua alma e dos seus extraordinários feitos. Era como se todos os seus ensinamentos se materializassem naquele olhar profundo, nos breves minutos em que estivemos juntos. O diálogo, eixo central da sua metodologia, transcendia as poucas palavras que trocamos, confirmando cada princípio da educação em que ele acreditava (e em que eu também acredito). Aquele senhor, debilitado fisicamente, transbordava a força transformadora e libertadora da sua pedagogia, que, por sua vez, traduzia com perfeição a sua trajetória de vida. Zeneide Silva
Conversar com Paulo Freire a partir de suas memórias sentidas e vividas, de seus(suas) biógrafos(as), entre outros(as) estudiosos(as), compreendendo os elementos fundantes de sua pedagogia, abre caminhos para analisarmos os nossos pensares, sentires e fazeres como educadores(as) com os pés no chão da escola. Reconhecer Paulo Freire como professor-educador e defensor da justiça, paz e liberdade é compreender que a sua pedagogia nasceu em diálogo com homens e mulheres — sujeitos históricos — imersos(as) em situações concretas, participantes de uma realidade, síntese de múltiplas relações sociais.

Acervo do Instituto de Educação e Direitos Humanos Paulo Freire
A história de vida de Paulo Freire demonstra o quanto trabalhou em defesa da vida humana. A clareza de seus ideais, o vigor, a coragem, a fé e um amor imenso a gente, a todas as gentes, moveram-no a construir em “colaboração” um projeto de educação como parte de um projeto mais amplo de país: a construção de um Brasil democrático, livre, fraterno e justo. Seus ideais “corporificados” nos seus exemplos, que demonstravam a sua determinação e coragem em denunciar as relações opressoras consolidadas na educação bancária e anunciar, a partir da práxis, uma Pedagogia do Oprimido construída em diálogo com os(as) pobres, os(as) desassistidos(as), os(as) esfarrapados(as) do mundo e também com educadores(as) que se integravam a esse projeto popular de educação libertária.
“A Pedagogia Paulo Freire é emancipatória; ela se tece com os fios de realidade, condicionamentos, contradições, mas também com sonhos, utopias e esperança da liberdade.”
Aprender com Paulo Freire entrando na roda de conversa é ampliar a nossa formação como educadores(as) com os(as) estudantes, assumindo a condição de sujeito histórico, inconcluso, incompleto e inacabado, mas que, em comunhão uns(umas) com os(as) outros(as), pode “Ser-Mais”: denunciar, resistir e construir decisões coletivas em defesa da vida significa lutar pela ética universal do ser humano. Estar com Paulo Freire é ser protagonista de uma práxis transformadora na escola e para além desta; é participar de sua bela história de vida em defesa da vida com a nossa própria vida.
As valiosas conversas que teceremos podem se expandir na escola; entrar nas salas dos(as) professores(as), nas salas de aula; interpenetrar paredes; transitar nos corredores; atravessar muros; chegar às famílias; e ir muito além das comunidades, das cidades, dos estados, alcançando os diferentes Brasis deste complexo, contraditório e amado Brasil — nosso éthos, nossa morada. Vamos caminhar juntos(as), pois “O caminho se faz caminhando” (Freire e Horton, 2002), fazendo festa pelo centenário de Paulo Freire, mas intensificando as lutas em defesa da vida.
Podemos, assim, constituir um coletivo pedagógico forte de educadores(as) com educandos(as) comprometidos(as) com a produção da existência humana digna, fraterna e justa; aprendendo a ensinar e aprender em comunhão, demonstrando que Paulo Freire precisa ser presença nas escolas e em tantos outros espaços educativos, para, juntos(as), construirmos um “conhecimento-emancipação”, conhecimento prudente para uma vida decente, como explica Santos (2000).
A Pedagogia Paulo Freire é emancipatória; ela se tece com os fios de realidade, condicionamentos, contradições, mas também com sonhos, utopias e esperança da liberdade. É uma bela tessitura social inseparável do seu projeto fundante de sociedade substantivamente democrática. A educação como ato político jamais se separa do projeto popular que a gerou, tornando-se plenamente educativa nos processos de transformação sociais.
No livro Essa escola chamada vida (Freire e Betto, 2000), Paulo Freire explica que a chave da razão é o coração. O que esse ensinamento freireano significa na nossa prática educativa dentro ou fora da escola?
Precisamos criar laços, construir um diálogo amoroso com nossos pares e, em especial, com os(as) estudantes; ser apaixonados(as) pelo que fazemos; abrir nossos corações para acolher cada ser humano; assumir a nossa condição de sujeito histórico que pode “Ser-Mais” ao vivenciar relações “colaborativas” e emancipatórias. Estes são pressupostos da criação de um clima de ensino e aprendizagem fraterno favorável à apreensão e apropriação crítica dos conteúdos curriculares e produção de novos saberes. Paulo Freire, quando foi à Coimbra (Portugal), em 1969, nos deu um exemplo da força do coração nos processos de educação emancipatória. Ele fez questão de se encontrar com um grupo de camponeses e camponesas que lhe havia enviado cartas, construídas em processos de formação em prol da liberdade do país, e, com aquela imensa amorosidade, abraçou cada um(a), tocando suas mentes e corpos: “[…] Abracei-os e abracei-as carinhosamente. Nossos corpos como que ‘escreviam’, uns nos outros, o nosso discurso afetivo que expressava um mútuo agradecimento. O deles a mim. O meu a eles e a elas” (Freire, 1999, p. 177).
“Aprofundar o estudo sobre a Pedagogia Paulo Freire é transformar a escola em território social de relações dialógicas.”
Convidamos, assim, todos(as) os(as) professores(as) a usarem a chave da amorosidade para, com Paulo Freire, abrirmos os portões da nossa escola para transformá-la em espaço educativo de acolhimento, de alegria, de um ensino da melhor qualidade e de uma aprendizagem que afirme a vida; jamais ouse negá-la. Aprofundar o estudo sobre a Pedagogia Paulo Freire é transformar a escola em território social de relações dialógicas; de participação, de protagonismo crítico, de criatividade, de curiosidade epistemológica, do pensar certo, da pesquisa e problematização constantes, da alegria, da generosidade e da amizade. Nessa escola, a vida, a ciência, o amor, a justiça, a alegria e a esperança são fundantes da liberdade; o sujeito humano é de responsabilidade de todos e todas; não se permitindo jamais a opressão e a expropriação de sua vida e/ou de seus direitos de cidadania.
A Pedagogia Paulo Freire é “colaborativa” (Freire, 1987); ela se funda na existência humana e se destina à sua emancipação. Nela, não há lugar para a arrogância ou a competição destrutiva. A simplicidade e a humildade, como atos de coragem, integram-se às competências política, técnica, ética e estética (Rios, 1995). Se, de fato, for assumida por nós, com certeza trará mudanças não só locais, mas fortalecerá a participação, a formação política, de docentes e discentes, garantindo o direito à educação para a qualidade social, como prática de liberdade.
A educação é um ato político, e política tem uma dimensão educativa: ambas são históricas e realizadas sob a responsabilidade de sujeitos éticos — seres de opção (Freire, 2000a). O compromisso maior da pedagogia freireana é com a ética universal do ser humano (Freire, 2007) e, no dizer de Dussel (2000), com a ética da libertação na idade da globalização e da exclusão.
“A educação é um ato político, e política tem uma dimensão educativa: ambas são históricas e realizadas sob a responsabilidade de sujeitos éticos — seres de opção.”
(Freire, 2000a)
Reconhecemos o valor de cada ser humano que se disponibiliza a participar conosco dessa jornada educativa, mas a nossa alegria se ampliará se conseguirmos convidar mais educadores(as) a semear conosco as aprendizagens freireanas. Através de artigos e textos, fundamentados na sua vida e obra, vivenciaremos um diálogo multidimensional; conhecendo melhor Paulo Freire, poderemos reafirmar a necessidade da sua presença na escola para concretizar um projeto maior: uma sociedade digna, fraterna e justa. Vamos, de mãos dadas e com os pés no chão da realidade, criar laços dialógicos, refletir e, em “colaboração” (Freire, 1987), mudar “a cara da escola”. Será uma “belezura”! (Freire, 2007).
A escola não é um território preservado. Pelo contrário, ela traz reflexos da relação dialética dos seres humanos com o mundo, na qual estão presentes disputas por projetos societários distintos, marcados por valores, princípios, conceitos, que revelam a forma de ver e estar no mundo.
Como nos lembra Freire em várias de suas obras, não há neutralidade no ato educativo, pois as contradições características de nossa sociedade penetram nas instituições pedagógicas e podem provocar interferências na realidade, podendo reproduzir desigualdades ou desvelá-las. Afinal, educar é um ato criativo e criador da ação humana.
ALBUQUERQUE, Targelia de Souza (Org.).
Conversas com Paulo Freire: a beleza de
ser um(a) eterno(a) aprendiz. Ilustrações
de Lelo Alves. Recife: Prazer de Ler,
2021
