Edição 136

Em discussão

Trabalhando a felicidade em sala de aula

Elto Koltz

Desde a infância até a vida adulta, passamos grande parte do nosso tempo em salas de aula. Meio no qual estamos inseridos em um contexto de grande interação social, onde se aprende, acima de tudo, a construir e estabelecer as normas das relações para um bom convívio. São essas normas que nos ajudarão a nos relacionar e estabelecer comportamentos que nos permitirão compreender até onde podemos ir em relação ao outro. A qualidade dessas interações é que nos permite viver em harmonia e conhecer os limites que cada pessoa nos impõe. É assim que aprendemos a definir nossos espaços estabelecendo normas, e experimentando as normas do outro desenvolvemos habilidades para lidar com nossas emoções. Essas relações podem ser cheias de alegria, tristeza, amor, raiva, melancolia, nojo, medo, entre outras emoções.

Em sala de aula, o educador é desafiado a trabalhar os aspectos socioemocionais criando um espaço permeado por momentos de felicidade, porém sem esquecer que, mesmo em ambientes que favorecem situações que promovam a alegria, ele também estará repleto de outros sentimentos, pois toda criança tem sua carga emocional, que será compartilhada com seus colegas e educadores.

Mas como criar um ambiente que proporcione felicidade para uma criança imersa nessas interações repletas de cargas emocionais?

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) trouxe para as salas de aula a inclusão do socioemocional como disciplina para ser trabalhada com os estudantes. É preciso levar as competências socioafetivas para a escola, considerando as constantes mudanças da sociedade e a necessidade de as pessoas aprenderem a lidar com as próprias emoções.
Em sala de aula, o professor pode se utilizar de inúmeros recursos para favorecer um espaço de ludicidade e momentos de alegria para a criança. Trabalhar o tema felicidade em sala de aula é uma oportunidade de promover o bem-estar dos alunos e criar um ambiente positivo. É fundamental proporcionar discussões em sala de aula sobre o que a felicidade significa para os alunos e como eles podem cultivá-la. Seguem algumas dicas.

Atividades práticas:

• Gratidão: Incentive os alunos a manterem um diário de gratidão, no qual escrevam coisas pelas quais são gratos. Isso ajuda a focar nas coisas positivas.
• Conexões sociais: Crie oportunidades para os alunos se conectarem uns com os outros. Atividades em grupo, projetos colaborativos e momentos de compartilhamento podem fortalecer os laços sociais.
• Meditação: Introduza práticas de meditação em sala de aula. Isso pode ajudar os alunos a gerenciarem o estresse e a ansiedade.

Celebrações e reconhecimento:

• Momentos de celebração: Crie momentos para celebrar conquistas, pequenas vitórias e momentos felizes na sala de aula.
• Valorize as diferenças: Ensine os alunos a respeitarem e valorizarem a diversidade. Isso contribui para um ambiente mais inclusivo e, consequentemente, mais feliz.

Modelagem do professor:

• Seja um exemplo: Os professores desempenham um papel fundamental na criação de um ambiente positivo. Demonstre gratidão, empatia e otimismo.
• Promova a autenticidade: Mostre aos alunos que é normal ter altos e baixos emocionais. Compartilhe experiências e estratégias para ensinar a lidarem com desafios.

“É preciso levar as competências socioafetivas para a escola, considerando as constantes
mudanças da sociedade e a necessidade de as pessoas aprenderem a lidar com as próprias emoções.”

Sugestões de dinâmicas

Lembre-se de adaptar estas dinâmicas à idade e ao contexto da turma.

Mural da amizade

Providencie um pedaço grande de papel Kraft, pincéis, tinta guache de várias cores. Pincele no papel Kraft o contorno de símbolos que remetam a amizade, carinho e companheirismo, por exemplo: corações, mãos, sorrisos. Posicione o painel no chão da sala ou no pátio. Disponibilize as tintas em uma mesa e peça que as crianças escolham a cor de tinta que irão usar. Entregue, a cada uma das crianças, um pincel e um copo com um pouco de tinta da cor escolhida. Oriente os alunos a pintarem os símbolos com as cores que escolheram. Sugira que misturem a cor escolhida com a dos colegas para dar origem a novas cores. Deixe-os livres para pintarem como quiserem, até mesmo substituindo os pincéis pelas mãos, carimbando as cores e preenchendo os desenhos. Diga-lhes que, quanto mais colorido o painel ficar, maior será a amizade e a união dos novos amigos.

Desejando um abraço

A turma será dividida em duplas. O educador pede que os integrantes da dupla fiquem o mais longe possível um do outro. A ideia é que, quando for dado o sinal, eles caminhem lentamente, um olhando para o outro com amorosidade e carinho. Fazem de conta que são dois irmãos que estão há um tempo sem se ver e estão com saudades. A cada passo que derem, olhando um para o outro, devem mostrar um sorriso e demonstrar o desejo de se abraçarem. Com o sinal dado, eles começam a andar lentamente. Mantêm a concentração no contato com o outro, com movimentos lentos. Eles se encontram e se abraçam calmamente, abrindo os braços e envolvendo o outro. Mudam de dupla. Afastam-se e repetem a mesma ação com a saudade e o desejo de se abraçarem como irmãos. Repete-se essa mesma proposta algumas vezes com novas duplas. Ao final, reúnem-se em círculo e dialogam sobre o que sentiram durante a atividade e o que ela trouxe de riqueza para a vida cotidiana.

Túnel festivo

Pede-se à turma que crie um túnel, com educandos de um lado e de outro na sala. O educador explica-lhes que cada um irá passar pelo túnel, e, nesse momento, todos deverão se transformar em uma grande torcida para o educando que se encontra no túnel, como se este fosse o campeão.

Poderão bater palmas, gritar o nome dele, parabenizá-lo, elogiá-lo, sempre com palavras ou ações que o façam feliz. A regra é: não pode tocar no educando que está passando. Solicita-se a cada educando que, em sua vez, passe bem devagar pelo meio do túnel, sem desistir e, apenas, ouvindo os colegas. O educador segue chamando cada um, até que todos terminem a passagem. Ao final, o educador questiona qual é a sensação de passar no meio, de ouvir o próprio nome, etc., e quais as dificuldades e as conquistas do grupo em fazer esta atividade. É importante destacar a valorização do outro, com suas diferenças e singularidades.

Chegar perto

O educador divide a turma em dois grupos. Um grupo formará um círculo com todos os alunos sentados em cadeiras, e os membros do outro grupo ficarão em pé. Os componentes que estiverem sentados deverão fechar os olhos e escutar uma música tranquila, colocada pelo guia; e os que estão em pé deverão se posicionar atrás de um colega sentado e colocar a mão em seu ombro. Ao tocar no ombro do colega, cada um deve inspirar e expirar, trazendo calma e paz para o aluno sentado. O guia pede que aqueles que estão tocando comecem a se afastar lentamente. Pede que os que estão sentados sintam a mão se afastando. O guia solicita aos que estão em pé que se dirijam para outro colega e façam a mesma coisa: tocar, respirar calmamente, transmitindo um sentimento de paz e tranquilidade, afastar-se e dirigir-se para outro colega. Eles fazem isso algumas vezes, sendo orientados pelo guia, que organiza o tempo para eles tocarem e se afastarem. Depois, inverte-se a posição dos aprendizes. Repete-se a atividade. É importante manter a concentração na respiração e no afastar lentamente. Ao final, o guia pergunta como eles se sentiram fazendo a atividade e se conseguiram perceber a mão se afastando. É importante destacar a sensibilidade de perceber o toque e a presença do outro.

Corpo triste e corpo feliz

O educador mostra para a turma diversas imagens de pessoas tristes e pede que os educandos identifiquem como estão os corpos, os rostos, etc. Depois, pede que eles andem na sala como se fossem uma daquelas pessoas. Pergunta a eles como fica o corpo quando se está triste. Posteriormente, o educador mostra imagens de pessoas alegres, pedindo-lhes que as observem o máximo possível. Novamente, solicita-lhes que andem pela sala e imitem uma daquelas pessoas das imagens. Pergunta à turma o que mudou. Conversa com os educandos sobre como é possível identificar quando se está triste ou alegre. Solicita-lhes que façam uma pesquisa na instituição, na rua e em casa, observando as pessoas e como elas demonstram o que estão sentindo. No outro dia, avalia como foi a pesquisa e o que os alunos aprenderam.

Meu par

O objetivo dessa dinâmica é buscar afinidades e promover maior interação na turma. Distribua uma folha de papel ofício para cada aluno e peça-lhe que escreva, sem que o colega veja, algumas de suas principais características. Por exemplo: o que gosta de fazer, se é tímido ou extrovertido. A seguir, peça aos alunos que circulem pela sala a fim de encontrarem colegas que tenham características iguais ou semelhantes às suas, formando um par, trio ou grupo. Ao final, peça que um representante de cada grupo apresente à turma as afinidades que os uniram.

Rede do abraço

O objetivo desta dinâmica é encerrar um encontro com sentimentos de autoestima elevada e alegria. Solicite aos alunos que formem um círculo em pé. O professor pode iniciar a atividade ou pedir a um voluntário que a inicie indo ao encontro de alguém no círculo para dar um abraço, e, assim, prossegue a atividade até que todos sejam abraçados. Enfatiza-se que o primeiro deve, obrigatoriamente, ser o último a ser abraçado e que não se pode repetir nenhum colega; e, assim, todos serão abraçados. Ao final, parabeniza-se o grupo, encerrando a atividade. Um aparelho de som tocando música calma pode ajudar nesta dinâmica.

 

 

“Em sala de aula, o professor pode se utilizar de inúmeros recursos
para favorecer um espaço de ludicidade e momentos de alegria para a criança.”

Expressando a alegria

Esta atividade visa permitir que os estudantes explorem e expressem alegria por meio de atividades criativas e reflexivas. Material necessário: papel A4; lápis de cor, caneta hidrográfica, giz de cera ou tintas; tesoura; revistas antigas; e cola.

Inicie a atividade reunindo os alunos em um círculo. Pergunte para cada um o que a palavra alegria significa. Encoraje-os a compartilharem ideias e experiências pessoais relacionadas à alegria. Explique que eles terão a oportunidade de expressar alegria por meio de arte e escrita. Distribua o papel e os materiais de arte para cada aluno. Peça-lhes que pensem em momentos específicos em que se sentiram alegres. Podem ser momentos simples, como quando brincaram com os amigos, ganharam um presente especial, passaram um tempo com a família. Instrua-os a desenharem ou pintarem uma imagem que represente um desses momentos de alegria no papel. Eles também podem escrever algumas palavras ou frases curtas para descrever a sensação de alegria que experimentaram. Após terminarem as ilustrações, dê-lhes a opção de criar uma colagem sobre a alegria, usando revistas antigas ou outros meios. Eles podem recortar imagens ou palavras relacionadas à alegria e colá-las no papel para criar uma composição visual.

Quando todos os alunos terminarem, peça-lhes que compartilhem a própria obra de arte com a turma. Incentive-os a explicarem o que representa a imagem que criaram e por que ela os faz sentir alegria. Para concluir a atividade, promova uma discussão em grupo sobre as diferentes formas de expressar e experimentar a alegria. Pergunte aos alunos como eles podem trazer mais alegria para a própria vida e para as pessoas ao redor. Esta atividade permitirá que eles expressem criatividade e reflitam sobre momentos alegres na própria vida. Também promoverá discussões significativas sobre o valor da alegria e sobre como podemos cultivá-la em nosso dia a dia.

Rosto triste e rosto alegre

Para esta dinâmica, o educador precisará de pratos de papel, pincel atômico ou caneta hidrográfica, fios de lã preta e marrom, cola e tesoura. Utilizando os fios de lã para fazer os cabelos e caneta hidrográfica ou pincel atômico, o educador fará, num prato de papel, um rosto com a fisionomia triste; no outro prato, um rosto com fisionomia alegre. Pede, então, que uma criança escolha um dos pratos (fisionomia triste ou alegre). Após a escolha de um dos pratos, a criança imitará uma fisionomia triste ou alegre e falará o porquê de estar triste ou alegre.


Elto Koltz é formado em Psicologia pela Faculdade Integrada do Recife/Estácio, atua, há vinte anos, como diretor de Arte na produção de livros didáticos na Multi Marcas Editoriais e, há doze anos, como psicólogo clínico, atendendo adolescentes e jovens adultos.

Referências
D’AURIA-TARDELI, Denise; PRALON, Eliane Queiroz Cunha; COELHO, Patrícia Margarida. Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e as competências socioafetivas: uma revisão bibliográfica. Constr. psicopedag., São Paulo , v. 32, n. 33, p. 77–89, 2022. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-69542022000200007&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 08 mar. 2024.
DORÓZ, Elaine Pereira. Dinâmicas em sala de aula: para todos
os níveis de ensino. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2012.
LARANJEIRA, Priscila. Muito mais atividades recreativas. Curitiba: AD Santos, 2010.
FINAMOR, Ana Ligia Nunes. Dinâmicas de grupo, histórias, mensagens, músicas, filmes e muitas atividades: para dinamizar cursos, treinamentos, grupos de encontro e reuniões. 2. ed. Canoas: Salles, 2008. (Adaptado para fins didáticos.)
MALUF, Angela Cristina Munhoz. Atividades lúdicas para Educação Infantil: conceitos, orientações e práticas. Petrópolis: Vozes, 2008.
Revista Guia prático para professores de Educação Infantil. Volta às aulas. n. 73, ano 7. São Paulo: Lua, fev. 2009.
WENDELL, Ney. Carinho se aprende: atividades para professores e pais. Recife: Prazer de Ler, 2016.
WENDELL, Ney. Praticando a generosidade em sala de aula. Recife: Prazer de Ler, 2013.
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